Uma tarde no assentamento agrário

Desde a inscrição da candidatura de Lula à presidência, eu vinha com essa pergunta na cabeça, insistente, quem era essa gente que reuni, numa caminhada à pé, como numa escolta a candidatura de Lula, tanta gente, de todos os cantos do Brasil? Quem é esse povo destemido e leal ao nosso presidente? 

Uma tarde no assentamento agrário
Uma tarde no assentamento agrário

Há três meses, o cunhado enviou um "Zap" no grupo da família, perguntando se alguém tinha uma máquina de costura, dessas antigas, com roda e pedal, que funciona sem eletricidade. Um novo assentamento agrário estava se consolidando, a sede ainda não tinha luz e havia um grupo de pessoas querendo costurar. A ideia era montar sacolas de feira.

Terminavam minhas férias. As primeiras férias de quatro semanas inteiras, desde 2012... E começavam meus dias de aposentada. Perfeito! Diga a eles que vou montar uma oficina de costura manual e ensiná-los a costurar com linha e agulha. Coisa mais antiga, esquecida. Afinal as máquinas de costura foram inventadas no final do século 17. Aprendi a costurar aos 7 anos de idade, com minha mãe, que naquela época se valia das costuras para completar nosso sustento. Eu, insistente e perseverante, atormentava minha querida progenitora com reclamos "quero costurar!". E assim, perspicaz e inteligente, minha mãe me deu um curso de costura manual, já que não poderia manusear a máquina de costura a motor.

Longe de meus pensamentos apoiar um retorno ao exaustivo trabalho de montar toda a roupa da família com agulha e linha. Mas agregar ao trabalho artesanal um valor humano diferenciado me pareceu uma boa ideia. Estava muito animada com a tarefa. Convoquei minha irmã e nos pusemos a elaborar a oficina, providenciando material suficiente e organizando etapas de trabalho. Iríamos ensinar a montar uma sacola e enfeitá-la com fuxicos. O resultado foi lindo! O grupo exibiu criatividade, capricho e inteligência. Mas, teve mais. A visita ao assentamento foi uma experiência sublime.

Desde a inscrição da candidatura de Lula à presidência, eu vinha com essa pergunta na cabeça, insistente, quem era essa gente que reuni, numa caminhada à pé, como numa escolta a candidatura de Lula, tanta gente, de todos os cantos do Brasil? Quem é esse povo destemido e leal ao nosso presidente? A mídia corporativa os amaldiçoa, ruralistas os trata como bandidos, a direita como terroristas. A imprensa progressista, trata do assunto de forma respeitosa mas longe de desmistificar o movimento.

Alguns dias antes de visitá-los tive a oportunidade de ouvir Eduardo Moreira, através do Brasil247, contar sua experiencia de viagem em visita a assentamentos. Sua declaração de surpresa ao encontrar gente inteligente, solidária, criativa, não é diferente da minha visão, hoje. Tem muito mais. Eu conto.

Na sala principal da sede tem um quadro negro com uma lista de dizeres que remetem as obrigações de cada um, naquele lugar. Chegamos as 13 horas, um jovem senhor preparava o almoço, mulheres amamentavam seus filhos, uma reunião administrativa com dirigentes regionais acabava, e pouco a pouco, agricultores, homens e mulheres, vinham chegando, para o almoço comunitário, feito com alimentos cultivados pela comunidade, frescos, sem agrotóxicos. De tempos em tempos, ao longo da tarde, gritavam, entre outros dizeres, "Pátria livre!" e os outros iam respondendo, em grupo, ecoando ao longe...

No grupo tinha um senhor de face enrugada, mãos cheias de calos, os dedos retorcidos pelo trabalho na lavoura e que cheio de brilho nos olhos contava que sua mãe, também, o havia ensinado a costurar quando era criança. Encontrei mulheres que sabiam bordar em tecido, fazer ponto cruz e combinar cores de dar inveja a qualquer estilista paulistana. Encontrei também, determinação, esforço e alegria. Mas, acima de tudo, encontrei mansidão, um clima de paz e apaziguamento tão profundo que, por uma tarde, esqueci do caos que esse país mergulhou por conta de uma elite econômica, seguida de pessoas obtusas, ambos distantes do real significado de pertencimento a essa terra "brasil".

Sempre que comento, ainda hoje, tem gente que se espanta com o artigo 170, da Constituição Federal de 1988, no inciso III, determinando como princípio constitucional, a função social da propriedade. Não basta apenas o título aquisitivo para conferir-lhe legitimidade da propriedade. É preciso dar-lhe função social, diz a lei constitucional. E esse é um conceito amplo, não é trivial estabelecer que uma propriedade perdeu sua função social, seja nas cidades ou no campo. Quando se consegue tal feito, passaram-se anos conferindo e re-conferindo, discutindo e apresentando recursos, não restando dúvidas sobre a ausência de legitimidade da propriedade!

Todo dia, pelo menos três vezes ao dia, todo mundo, incluindo trabalhadores, sentam-se a mesa (ou deveriam sentar-se, como queria Lula), para comer o alimento produzido pela agricultura familiar. Os números são espetaculares. A agricultura familiar no Brasil é responsável pela produção de mais de 3 quartos de tudo que você vai encontrar no seu prato. Já os agricultores em assentamentos, nas "propriedades" outrora improdutivas e despidas da legitimidade de posse, produzem alimentos sem uso de agrotóxicos, inspirados pela agricultura biodinâmica, alimento fresco e saudável direto para sua mesa! Essa função social merece respeito.

Deixo aqui, junto com esse meu depoimento, a sugestão aos que, por ventura, lerão esses parágrafos. Visite um assentamento. Converse com os agricultores. Se tiver, doe seu tempo, seus préstimos, seus conhecimentos a um grupo desses. Esse povo é luta por um Brasil melhor e merece nosso apoio, nossa solidariedade e fraternidade. Mais ainda, merecem políticas públicas que os protejam e permitam que continuem a produzir o nosso alimento de cada dia.

(*) O processo de distribuição dos lotes, nesse assentamento, ainda está em processo e considerando a situação governamental atual, decidi manter o local incógnito.

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