Uma visita ao inferno feminino

Mauro Lopes, editor do 247 e fundador do canal Paz e Bem, relata de maneira pungente a noite de horror vivida por uma mulher em uma delegacia, depois de ter sido vítima de um marido agressor. Um relato contundente sobre a brutalidade machista que se abate sobre as mulheres

(Foto: Divulgação)
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(ALERTA DE GATILHO: violência doméstica e policial contra mulher)

Em minha última noite em Bertioga, nesta sexta (31), antes de partir pra São Paulo, fui a um bar-restaurante com alguns poucos e queridos amigos. Estávamos bebendo e comendo quando uma garçonete chegou ao meu ouvido e disse: “acho que a bicicleta do senhor foi roubada”. Saí às pressas e uns homens que estavam na frente do bar levantaram-se assim que eu disse que era o dono da bicicleta e gritaram: “nosso amigo foi atrás dele”.

Numa cena meio ridícula saímos meio andando meio correndo atrás do ladrão e do amigo. Ao tropel juntou-se uma viatura da GCM que passou à frente e dois quarteirões adiante pegou o sujeito, que estava alterado e caiu sobre a bicicleta, que estava com uma corrente e cadeado, o que o obrigava a carregá-la,

Resultado: fui, a contragosto, à delegacia. Uns 15 minutos depois de eu ter chegado, como que abriram-se as portas do inferno. Uma mulher chegou aos prantos, agredida pelo marido, que estava junto. Ela chamara a PM. Nem sei dizer se foi um acerto. 

O que ela vivenciou de humilhação em pouco mais de uma hora ali beira o inacreditável. Os PMs trataram o caso como “agressão mútua”  e não como o que evidentemente o era, uma agressão à mulher.

Ela saiu para conversar com um dos PMs e voltou chorando ainda mais, em silêncio. Uma mulher grande, corpulenta, de uns 40 anos. Até que ela se levantou e me dei conta que estávamos numa sala em que havia dez homens hostis e uma mulher desprotegida, à mercê do machismo mais brutal.

Os dois policiais da GCM, três policiais da delegacia, os dois PMs, um homem que parecia ser um policial e descobri depois ser um advogado, o marido agressor e eu.

Ao se levantar, a mulher chamou o escrivão, que construía o BO. Ele sequer levantou a cabeça. O PM, de maneira ríspida, disse a ela: “Se você quiser, fale comigo”. Ela ficou indignada, exasperada. 

E começou a falar a ninguém e a todos: “Eu estou cagada, cagada de tanto medo que tive, e essa delegacia não tem um banheiro feminino pra me oferecer”. Isso chorando muito. Pois a resposta foi o silêncio dos dez. Nada. Nenhum banheiro lhe for ofertado -e com certeza havia um banheiro dos policiais em condições minimamente razoáveis do lado interno do prédio. Nada. Um silêncio sepulcral, entrecortado pelo choro dela.

Na sequência, ela dirigiu-se ao escrivão: “Escrivão, eu quero uma medida protetiva”. Ele olhou para ela com ar cínico e, afinando a voz, respondeu: “Eu também quero”. E o assunto morreu ali.

(o marido agressor passou o tempo todo na delegacia com ar de indiferença, como se o assunto não lhe dissesse respeito. houve um único momento em que sua fúria transpareceu: quando ela pediu a medida protetiva. Ele reagiu remexendo-se no banco como se tivesse sido atingido por algo e soltou um ruído como um apito da panela de pressão. Essa parece ser uma característica comum aos agressores: eles ficam enfurecidos quando a mera hipótese da medida protetiva é aventada pelas mulheres. Tomam como uma afronta, um desafio à sua masculinidade e à sua imagens de “bons maridos” -e tornam-se mortalmente perigosos, como as mulheres sabem bem)

Ela insistiu, diante da indiferença hostil do escrivão: “Eu quero falar com o delegado”. E  o policial: “Ele está cuidando de outro caso, não pode falar”. O assunto morreu na hora, como morrera o da medida protetiva.

Quando lhe foi apresentado o BO para ela assinar, ela afirmou, à beira do desespero: “Mas não foi isso o que aconteceu”. O PM retrucou: “Isso é o meu relato, depois no processo a senhora dá a sua versão”.

Achei que todos os limites tinham sido ultrapassados. Ela ficou inerte diante do texto. Saí rapidamente ao pátio, liguei pra duas amigas advogadas. A segunda, D., atendeu-me. Disse: “Olha, tudo isso que estão fazendo é ilegal mas usual. Quanto ao BO, diga pra ela assinar e escrever embaixo: “não concordo” e assinar de novo”.

Voltei pra dentro para falar com ela. Quando comecei a falar o escrivão, que estava de pé colocando as folhas do BO diante dela para que assinasse reagiu agressivamente: “O senhor não pode falar com ela”.

Eu fiquei surpreso. “Como assim, não posso? Quem disse que não posso?”

“O senhor vem na minha casa e quer fazer o que quer?”

“Olha, aqui não é sua casa. Isso aqui é um prédio público, ela é uma mulher livre, eu sou um homem livre e podemos falar sim”.

“Se quiser falar com ela, vá lá fora”

Nesta altura ele estava enfurecido e fez menção de sair de trás do balcão. Meu amigo I. tinha aparecido. Ele é casado com a C., advogada, moram em Santos. Ligamos pra ela que me confirmou que era tudo um absurdo sem tamanho e reafirmou o que D. havia dito em relação ao BO.

Entrei com o celular na mão e já anunciei ao policial que quem ia falar com ela era uma advogada. O sujeito ficou mudo, com olhar de ódio. No viva voz, ela transmitiu a orientação à mulher.  

Ela estava exausta, completamente sem forças. Disse que tem uma irmã advogada e que iria falar com ela depois. 

Outro policial indicou o lugar para o exame do corpo de delito, no Guarujá e informou: “vá na segunda-feira”. Fiquei chocado. O que um exame constatará na segunda, mais de dois dias depois das agressões?

A mulher recolheu suas coisas e saiu. Nessa altura, o marido já havia deixado a delegacia, há uns 15 minutos.  

Quando chegamos à calçada, ela continuava a chorar. Afastei-me um minuto pra conversar com um dos GCMs e, depois, I. disse-me: “Mauro, você não vai acreditar, o marido ligou no celular dela e disse que se ela voltar pra casa hoje ele mata ela”.

Ela, ainda chorando, disse que iria de Uber até a casa dela, que pegaria o carro que fica na rua e que dormiria pela cidade, dentro do carrro.

E foi, dois minutos depois. Eu estava tão abalado que nem perguntei o nome dela.

Voltei para dentro da delegacia. Pouco depois chegou o Inácio relatando que o escrivão havia pressionado os dois GCMs a “fazerem um BO” contra mim, o que ele se recusaram a fazer. 

Na volta à delegacia, cruzei com o advogado que lá estava e testemunhou tudo: “Fui policial aqui 15 anos. Você não faz ideia do que as mulheres passam aqui. Tudo o que você falou lá dentro estava juridicamente correto”. E foi-se.

Os dois GCMs procuraram-me para dizer que tudo o que havia acontecido era um absurdo. 

A pergunta que fica é: porque os homens silenciam, cúmplices, mesmo não concordando. Porque ficamos os oito em silêncio enquanto o policial a humilhava e o marido agressor tudo assistia de camarote? A rede de silêncio cúmplice sustenta as agressões continuadas. Sim, em nossa quietude, pode ser que cada um de nós homens estivéssemos internamente revoltados com o que acontecia. Mas nosso silêncio de chumbo era apoio aos agressores (o marido e o policial) e isolamento completo da mulher, que se sentia, com toda razão, sozinha.

No silêncio da maioria dos homens está o ambiente que propicia as agressões, abusos, humilhações. Questionei-me logo depois de tudo, e ainda agora pergunto-me: porque demorei tanto a me levantar e confrontar o agressor? 

Uma outra questão, que me foi suscitada por uma mulher igualmente agredida. “A mulher foi espancada, humilhada e, ao final, nem casa pra voltar tinha mais, ameaçada de morte pelo agressor. Qual seria o impacto sobre a postura da mulher se ela fosse ouvida, olhada nos olhos com respeito e tivesse sido conferida credibilidade ao testemunho dela? Qual seria o desfecho da história naquela noite se o policial colocasse o agressor em seu devido lugar de agressor? Isso não poderia frear a ameaça seguinte que ela recebeu? Porque no final quem ficou na rua e com medo foi ela e o agressor totalmente apoiado foi pra casa”. Sim, se os policiais tivessem feito o que seria seu dever: era um caso de agressão machista, e o círculo de homens ao redor dela não tivesse silenciado, o marido agressor não teria ido embora sentindo-se “entre os seus”, apoiado. A violência do agressor foi legitimada e sustentada! Como teria sido diferente! Se tivessem detido o homem em flagrante, a mulher teria podido voltar para casa, lavar-se, dormir, refletir, falar com a advogada, tomar decisões. Teria um ou dois dias para respirar. Mas, não. A ela foi negado o direito de respirar.  

Voltei ao restaurante de bicicleta chorando todo o tempo, por tudo, pela mulher da delegacia, pelas mulheres que conheço e foram ou ainda são agredidas cruelmente. Lá cheguei e chorei. Uma amiga da mesa disse-me que havia acontecido o mesmo quando ela acompanhou uma vizinha agredida e que ela sofreu ameaças todas as vezes em que falou. Outra mulher, integrante do Conseg (Conselho de Segurança municipal), relatou ter sido ameaçada numa delegacia. 

É assim o tempo todo, em todo canto. Mulheres ameaçadas, amassadas, agredidas, morta.

É preciso que os homens dispostos a mudar e acolher a vida interroguem-se de maneira aguda sobre seu machismo e entendam que a liderança não nos cabe, mas às mulheres. Elas devem nos dizer o que fazer e como fazer. 

Que os homens dispostos a combater o machismo rompam com o círculo de ferro do silêncio. Há uma epidemia de agressões contra as mulheres. É um assunto tão relevante como nível de emprego ou as aposentadorias. Na verdade, é mais relevante, porque  metade do país, de um jeito ou outro, vive no inferno. 

O inferno feminino. 

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