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José Álvaro de Lima Cardoso

Economista

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Uma vitória do Irã será um feito que vai mudar a história das guerras

Conflito expõe fragilidades dos EUA e reposiciona o Irã como força estratégica capaz de alterar o equilíbrio global de poder

Ilustração mostra as bandeiras do Irã e dos EUA 27/01/2022 REUTERS/Dado Ruvic/Foto ilustrativa (Foto: REUTERS/Dado Ruvic/Foto ilustrativa)
“Os EUA não são bons no que diz respeito a operações combinadas de armas. Não podem travar uma guerra real e séria em um teatro de operações vasto” - Andrei Martyanov, analista militar e autor russo-americano

Segundo os delírios diários de Donald Trump, os EUA destruíram a marinha, força aérea e líderes iranianos; mísseis e drones iranianos estão esgotados e o regime foi dizimado militar e economicamente. Trump prometeu recentemente ataques intensos nas próximas 2 ou 3 semanas para "levar o Irã à Idade da Pedra". Como não conseguem localizar o arsenal militar do Irã, EUA e Israel vêm, basicamente, despejando mísseis em escolas, hospitais, museus, locais históricos e residências, cometendo crimes de guerra em série, comportamento costumeiro dessa coligação abominável.

Como se sabe, o presidente dos EUA mente tanto que acaba acreditando nas próprias mentiras, o que não o impede de desdizer, à tarde, o que tinha afirmado pela manhã. Além disso, em uma guerra, a primeira vítima é a verdade. Por isso, os dados objetivos do conflito devem ser sempre a principal referência do observador comprometido com a verdade. Um dado inegável é que quem controla o estreito de Ormuz é o Irã. O local é uma pequena passagem marítima de cerca de 33 km de largura no ponto mais estreito, localizada entre o Golfo Pérsico (ao norte, controlado pelo Irã) e o Golfo de Omã (ao sul, perto de Omã). Ele conecta o Golfo Pérsico ao Mar Arábico, servindo como porta de saída para o oceano Índico.

A importância do estreito para a economia mundial é enorme, pois é um dos principais "gargalos" do comércio global de energia. Por ali passa, em tempos normais, cerca de 20-30% do petróleo mundial (mais de 20 milhões de barris/dia), vindo de países como Arábia Saudita, Iraque, Emirados Árabes, Kuwait e Irã. Também transporta 20% do gás natural liquefeito (GNL) global, especialmente do Catar. Qualquer interrupção causa picos nos preços do petróleo, afetando inflação, transporte e indústrias em todo o mundo.

O Irã está aproveitando a guerra para deixar bem claro quem controla o estreito de Ormuz. Já anunciou, inclusive, que, normalizada a situação, mudará o status do estreito, passando a cobrar um pedágio das embarcações que por ali passam, inclusive para reparações de guerra, já que o país está sendo destruído por ataques criminosos e totalmente ilegais. Aliás, esse pedágio já está sendo cobrado dos navios autorizados pelo Irã a cruzar Ormuz. O Irã criou uma capacidade integrada de interdição do estreito, que não pode ser derrotada sem o uso de tropas de infantaria (coisa que o imperialismo não consegue organizar).

Essa estratégia integrada, projetada para interditar o tráfego marítimo, é difícil de derrotar rapidamente devido à combinação de armas assimétricas, geografia favorável (costa extensa de 1.800 km e ilhas) e táticas de guerrilha naval. Vale lembrar que o Irã vem se preparando para essa guerra há cerca de 25 anos, e seus militares pensaram seus aspectos nos mínimos detalhes. O controle do tráfego no estreito de Ormuz pelo Irã é mais uma derrota para os EUA nessa guerra.

Os pretextos usados pelos EUA para a agressão ao Irã vieram mudando a cada semana desde o início da guerra, ao sabor das oscilações da demência de Trump. Primeiro foram as armas nucleares; não adiantou o Irã dizer que não iria fabricar. Em seguida, foram a existência de mísseis balísticos, que o Irã também não poderia possuir. Depois, a mudança de regime, porque o Irã iria dominar o Golfo Pérsico. Finalmente, Donald Trump está dizendo que o objetivo é abrir o estreito de Ormuz para o tráfego normal de embarcações. O que é muito curioso, porque o estreito estava funcionando normalmente antes do ataque traiçoeiro — feito em meio a negociações — dos EUA e Israel.

Os EUA não precisam diretamente do estreito de Ormuz para movimentar sua economia, mas a economia mundial precisa, porque o controle por parte do Irã, proibindo a passagem às embarcações dos países inimigos, está impactando fortemente os preços globais de energia, com risco, inclusive, de uma depressão econômica. O fato de que, quarenta dias após o início da guerra, o estreito continue fechado é uma prova definitiva da força dos iranianos. Enquanto o presidente dos EUA age como uma barata tonta, o Irã, até o momento, executa um plano de guerra minuciosamente elaborado.

A realidade política do Irã e de seus inimigos é muito diferente, o que é um fato crucial da guerra. Neste momento, em Israel, milhões de pessoas passam um tempo significativo em abrigos, com medo dos bombardeios, cada vez mais comuns, porque o sistema de defesa antiaéreo virou uma verdadeira “peneira”. Nos EUA, não mais do que 20% da população apoia a agressão contra o Irã, fato que pode significar uma derrota acachapante para Trump nas eleições parlamentares de novembro próximo. No Irã, apesar da população estar sendo bombardeada por caças, ninguém está se escondendo em bunkers (seguindo o exemplo, aliás, de seu líder máximo, Ali Khamenei, covardemente assassinado pelos sionistas). Isso mostra a realidade política muito diferente entre os dois países. Há um problema adicional para os agressores: os iranianos ainda não colocaram todas as suas cartas sobre a mesa no que se refere a recursos tecnológicos. O país dispõe ainda de capacidades bélicas e estratégicas que não foram reveladas.

Quanto mais essa guerra se prolongar, mais difícil será para os EUA e Israel sustentá-la. Há, primeiro, dificuldades de reposição de suprimentos de guerra, pois, apesar da fortuna investida em guerras, a indústria dos EUA tem baixa capacidade de produção. Além disso, é uma guerra muito assimétrica do ponto de vista financeiro. O drone iraniano Shahed-136 (o mais usado) tem custo de produção médio de US$ 35.000. Outros modelos custam, em média, US$ 40.000 a US$ 60.000. A comparação com as defesas do inimigo é impressionante. O míssil interceptador Patriot, fabricado pelos EUA, custa de US$ 3 a 4 milhões, ou seja, 1 drone custa de 0,5% a 1,5% de um míssil de defesa. É uma guerra muito difícil de sustentar, mesmo para o país mais rico do mundo, o que é agravado pela tendência crescente a uma derrota fragorosa.

A guerra, além de prejudicar muito a economia norte-americana, por meio do aumento de preços dos derivados do petróleo, está consumindo rapidamente o orçamento do Pentágono. Neste mês de abril, o governo norte-americano enviou ao Congresso uma proposta de orçamento militar recorde de US$ 1,5 trilhão para o ano fiscal de 2027 (que começa em outubro próximo). Este valor representa um aumento histórico de aproximadamente 42% (cerca de US$ 445 bilhões) em relação aos níveis aprovados para 2026.

O pedido de US$ 1,5 trilhão é justificado pela administração Trump como fundamental para manter a supremacia militar global. Para compensar o aumento nos gastos militares, o plano propõe cortes de cerca de 10% em gastos discricionários não relacionados à defesa, atingindo agências civis, programas sociais e educação. O orçamento inclui recursos para o projeto "Golden Dome" (um sistema de defesa antimísseis), expansão da frota naval e um aumento significativo para a Força Espacial, que teria seu orçamento mais que dobrado para US$ 71 bilhões.

A indústria de defesa dos Estados Unidos é composta por gigantes do setor privado que formam a espinha dorsal do que é conhecido como o Complexo Industrial-Militar. Essas empresas não apenas fabricam o armamento, mas também exercem uma influência profunda sobre o Congresso e o governo norte-americano. As cinco maiores empresas, frequentemente chamadas de "The Big Five", dominam a maior parte dos contratos do Pentágono. Essas empresas são diretamente beneficiadas pelas guerras eternas provocadas pelos EUA e certamente têm influência decisiva na expansão do orçamento militar do país. Apesar do orçamento trilionário dos EUA, a guerra contra o Irã levantou sérias dúvidas entre os especialistas sobre a eficiência do equipamento fornecido pelo Complexo Industrial-Militar.

À medida que o conflito se desenvolve, são cada vez mais fortes os sinais de que o Irã vai impingir uma derrota estratégica aos EUA. Um país atrasado, uma potência média, que sofre todo tipo de boicote há 47 anos, se manter firme e enfrentar o império mais poderoso da Terra é um feito que vai impactar a história das guerras. Em caso de vitória do Irã, os EUA vão se enfraquecer em outras frentes. Por exemplo, a permanência dos EUA no Oriente Médio vai ficar cada vez mais difícil. As ditaduras árabes no Golfo Pérsico, países artificiais que são braços e pernas do imperialismo norte-americano, estão ficando em uma situação insustentável. Esses governos, dominados por emirados extremamente corruptos, que colocaram as riquezas dos países a serviço de algumas famílias, vão ter dificuldades para se manter.

Um outro efeito impagável de uma possível vitória do Irã nesta guerra é o enfraquecimento de Israel. Este possivelmente é o melhor resultado de todos. Uma vitória do Irã em um conflito direto e total contra os Estados Unidos representaria uma mudança sem precedentes na história moderna. As consequências para os EUA e, principalmente, para Israel seriam estruturais.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.