Uma "voadora" (de pés de barro)

A população testemunha, cabisbaixa, aos estragos, aqui e no mundo, feitos à imagem do Brasil. Uma olhada no panorama internacional mostra que temos companhia e que, mesmo nesta fotografia, não nos saímos bem. Para consertar o volume do prejuízo, bravatas não bastam

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Bravatas são sempre facas de dois gumes. Habituais nos jogos de azar, nos quais a vitória depende, muitas vezes, do virtuosismo na arte de enganar, ressurgem nos esportes em que a confiança também pode determinar a atuação dos jogadores. Nas lutas corporais, não deixam de sugerir insegurança travestida de coragem, e podem antecipar grandes derrotas. Finalmente, na política, representam recursos perigosos. Não se sustentam e, frequentemente, dão lugar a desmentidos nos métodos de avaliação. O que se considerava positivo, cede ao negativo, com a consequência da desvalorização dos prognósticos. E note-se que um Presidente, quando fala, tem a obrigação de olhar para o presente, o passado e o futuro, sendo cobrado por isso. É como dizer que a economia de um país vai bem, em expansão, quando todos percebem no bolso a dificuldade financeira. Ou destacar que os preços baixaram e se constatar no supermercado que não, que até subiram, reduzindo a renda do trabalhador.

O governo atual, cujo dirigente não dá a impressão de haver lido mais dos que os manuais para iniciantes, não obedece, nesse plano, à prática da prudência. E logo a realidade, comumente disposta a mostrar a cara (e não há como fugir dela), reaparece para botar os pingos nos is. 

Em contato com a imprensa, querendo contar vantagem, Jair Bolsonaro declarou que daria uma “voadora no pescoço” de quem, em seu governo, se envolvesse com a corrupção. Nas artes marciais, dão o nome de “voadora” a um golpe que combina um chute com um movimento de perna visando o rosto do adversário. Tratava-se de uma bravata desmontada, em seguida, pela força dos fatos: o vice-líder no Senado Chico Rodrigues (Dem-RR), detido e examinado pela Polícia Federal escondia dinheiro na cueca. E era o mesmo a quem o primeiro mandatário distinguia dizendo manter com ele, depois de tantos anos, uma “união estável”. Escancarada, a jactância caiu por terra. Teria sido melhor permanecer calado. Lembremos, a respeito de “voadoras” o envolvimento dos filhos em suspeitas de irregularidades, não obstante os esforços do pai em protegê-los e, se possível, apagar os rastros da má-conduta. Assim, para seus aliados, torna-se difícil defendê-lo. No mesmo diapasão, com maior gravidade ainda, podem-se colocar as posturas oficiais ao lidar com a pandemia do coronavirus, minimizando, desde o início, os efeitos desastrosos que traria para a saúde pública. A atitude de desleixo cresceu até ao ponto de entregar o Ministério da Saúde a um general sem qualificação para a pasta, a não ser a farda. 

Sente-se agora que o uso da bravata, nas artimanhas da administração pública, não se restringe a dois ou três detalhes. As sucessivas pesquisas de opinião, com índices favoráveis à sua imagem, não bastam para dizer que acertou ou está acertando. Somente o apoio das elites, as que o guindaram de um mandato medíocre de deputado federal para a Presidência da República, justifica a falta de providências, se não para removê-lo do poder, com uma “voadora”, pelo menos para controlá-lo. Para elas, é uma segunda experiência lamentável, depois de Collor de Mello, na manipulação dos processos eleitorais. Enquanto isso, a população testemunha, cabisbaixa, aos estragos, aqui e no mundo, feitos à imagem do Brasil. Uma olhada no panorama internacional mostra que temos companhia e que, mesmo nesta fotografia, não nos saímos bem. Para consertar o volume do prejuízo, bravatas não bastam.

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