Benedito Tadeu César avatar

Benedito Tadeu César

Cientista político

31 artigos

HOME > blog

Valores e identidade: o conservadorismo como força estruturante do voto

O conservadorismo se consolida como eixo organizador da política no Brasil

Urna eletrônica (Foto: Antonio Augusto/Ascom/TSE)

Impulsionado pela insegurança, pela religiosidade e pela centralidade das pautas comportamentais, o conservadorismo se consolida como eixo organizador da política no Brasil e redefine o comportamento eleitoral.

Este é o quinto artigo da série — Brasil 2026: entre dados, percepções e narrativas – como se decide o voto em um país sob tensão

Da insegurança à busca por ordem

A percepção de insegurança, analisada no artigo anterior desta série, não se refere apenas à violência. Ela se projeta sobre outros aspectos da vida social, produzindo uma demanda mais ampla por estabilidade, previsibilidade e pertencimento.

Em contextos marcados por incerteza econômica, desigualdade persistente e sensação de insegurança quanto ao dia de amanhã, cresce a adesão aos valores de ordem, autoridade e tradição. Esse movimento foi amplamente documentado por pesquisas comparativas como o World Values Survey, realizadas em diferentes países do mundo.

Nessa situação, a política deixa de ser estruturada predominantemente por variáveis econômicas e passa a incorporar, de forma central, disputas morais, culturais e identitárias.

Uma mudança que ultrapassa o Brasil

Essa adesão a valores conservadores de ordem, autoridade e tradição não é exclusiva do caso brasileiro. Ela se insere em um movimento mais amplo de reconfiguração política observado em diversas democracias, nas quais os princípios democráticos vêm perdendo credibilidade.

Levantamentos do Pew Research Center mostram que, em meados da década de 2020, em torno de 65% da população em mais de trinta países declararam insatisfação com o funcionamento da democracia, apenas cerca de 34% confiavam no governo, enquanto menos de 30% acreditavam ter influência nas decisões públicas.

Na América Latina, dados do Latinobarômetro indicam que cerca de 54% aceitariam um governo não democrático caso ele resolvesse seus problemas, enquanto a confiança nas instituições permaneceu baixa, na casa de 20%.

Ambientes que combinam frustração econômica, insegurança social e descrédito institucional vêm criando condições favoráveis à emergência de discursos que prometem ordem, proteção e clareza moral.

O caso brasileiro: valores em transformação

O avanço do conservadorismo é um fenômeno global que assume características regionais específicas e, no caso brasileiro, encontra condições que o tornam eixo estruturante do comportamento político. Pesquisas de opinião indicam que a dimensão moral ganhou centralidade no debate público.

Levantamentos do Datafolha e do Ipec mostram que mais da metade da população no país defende a presença de valores religiosos na política, enquanto cerca de 60% atribuem maior importância aos valores familiares do que às propostas econômicas.

Esse conjunto de dados revela uma tensão importante: a adesão formal à democracia convive com expectativas de ordem e eficácia que podem relativizar os princípios democráticos. A baixa confiança institucional, a frustração econômica e a alta percepção de insegurança são fatores que favorecem discursos políticos mais duros e simplificados, centrados em ordem, autoridade e valores tradicionais.

Religião e política: uma conexão estruturante

A dimensão religiosa é central para compreender o avanço do pensamento conservador no Brasil. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, com base no Censo Demográfico de 2022 (divulgado plenamente em 2024), indicam que os católicos ainda são predominantes, representando cerca de 56,7% da população, enquanto os evangélicos alcançam aproximadamente 26,9%, em trajetória de crescimento contínuo. Entre 1970 e 1990, o número de templos de igrejas pentecostais e neopentecostais passou de 1.049 para 17.033, evidenciando uma expansão acelerada que se mantém nas décadas seguintes — apenas em 2019 foram abertos 6.356 templos.

Essa presença crescente não se explica apenas por fatores demográficos, mas pela forma como a religião se insere no cotidiano social. A centralidade da fé aparece também nas percepções: pesquisa Quaest de 2023, apresentada no livro Brasil no Espelho, de Felipe Nunes, mostra que 86% dos brasileiros com 16 anos ou mais consideravam a fé mais importante que a ciência, enquanto 96% afirmavam que Deus está no comando de suas vidas.

Em áreas marcadas pela fragilidade da presença estatal, essa dimensão ganha densidade concreta. A insegurança passa a organizar o cotidiano, especialmente para mulheres das periferias urbanas. O risco de que filhos e companheiros sejam atraídos pelo tráfico ou vitimados pela violência é uma preocupação constante, agravada por confrontos armados e operações policiais que tornam o ambiente ainda mais instável.

É nesse cenário que as igrejas evangélicas ampliam seu papel. Mais do que espaços de culto, funcionam como redes locais de apoio, oferecendo pertencimento, orientação prática e referências de conduta. Ao criar vínculos comunitários e rotinas compartilhadas, ajudam a dar previsibilidade à vida em contextos marcados pela incerteza.

A forte capilaridade territorial das igrejas evangélicas, sobretudo em áreas urbanas periféricas e regiões de maior vulnerabilidade social, fortalece sua legitimidade e amplia sua influência para além da esfera religiosa. A atuação dessas igrejas passa a conectar experiência cotidiana, valores e orientação política, contribuindo para moldar percepções e escolhas eleitorais. A religião, assim, deixa de operar apenas como crença individual e se consolida como uma força estruturante na organização social e na formação do voto.

A centralidade das pautas comportamentais

A ascensão do conservadorismo está diretamente associada à centralidade das chamadas pautas comportamentais. Temas como família, moralidade, educação, gênero e religião passaram a ocupar posição central na disputa política.

Dados do World Values Survey indicam que cerca de 70% dos brasileiros atribuem grande relevância à religião na formação dos filhos. Ao mesmo tempo, mais de 60% valorizam autoridade e obediência.

Segundo a pesquisa Quaest de 2023, o Brasil nesse ano havia retrocedido à posição mais conservadora que tivera em 1997, sendo que este retrocesso conservador teria se acelerado a partir de 2018.

Em 2023, a pesquisa indicou que a família era a coisa mais importante da vida para 96% dos brasileiros. Mais de 90% dos brasileiros acreditavam que as mulheres precisam ter filhos para se realizar pessoalmente; entre 64% e 74% dos homens de acordo com sua cor (brancos, pardos, pretos, outras cores) achavam que uma mulher que fez um aborto devia ser presa, sendo que entre as mulheres, este índice variava de 58% a 64%. E 71% afirmavam que a homossexualidade não era justificável, sendo que 43% se incomodavam em ver casais homossexuais se beijando.

Esse quadro de predomínio da concepção conservadora, no entanto, não é homogêneo. O país apresenta também segmentos expressivos com posições mais liberais, especialmente em grandes centros urbanos e entre grupos mais escolarizados e grupos mais jovens. Forma-se, assim, um campo de tensão permanente entre valores tradicionais e perspectivas mais liberais.

Mediação, comunicação e identidade

A força dessas pautas não pode ser compreendida sem considerar sua mediação. Redes sociais, mídias religiosas e influenciadores desempenharam papel decisivo na difusão e na consolidação desses valores.

Diferentemente de temas econômicos, que exigem maior elaboração, as pautas morais operam com códigos simples, mobilizam emoções e produzem identificação imediata. Essa característica lhes confere grande eficácia comunicacional.

Nesse ambiente, valores deixam de ser apenas referências culturais e se tornam instrumentos ativos de disputa política.

O retorno da direita e a normalização da extrema-direita

Esse ambiente comunicacional e simbólico também foi decisivo para um fenômeno político de maior envergadura: o retorno explícito da direita como identidade política legítima e a progressiva normalização de posições associadas à extrema-direita no Brasil.

Nos anos que se seguiram à redemocratização, a direita brasileira viveu um período de retração simbólica. Associada ao regime autoritário encerrado em 1985 e confrontada pela expansão das forças democráticas e da organização popular, a direita evitava afirmar-se abertamente. A identidade “de direita” era frequentemente diluída em discursos técnicos, liberais ou desideologizados.

Esse quadro se alterou de forma consistente a partir da década de 2010 e, de maneira mais acelerada, após 2018. A direita não apenas retornou abertamente ao espaço público como passou a ser afirmada com orgulho por parcelas significativas da sociedade. Mais do que isso, segmentos radicalizados passaram a reivindicar explicitamente posições de extrema-direita, incorporando elementos autoritários, com discursos ultranacionalistas e antissistêmicos.

Esse deslocamento não foi apenas discursivo. Ele se expressou na formação de redes organizadas, na ampliação de comunidades políticas coesas e na difusão sistemática de conteúdos ideológicos em ambientes digitais. A internet tornou-se o principal vetor dessa reorganização, permitindo a articulação descentralizada e a expansão de redes com forte capacidade de mobilização.

Os dados disponíveis apontam para uma dinâmica de crescimento consistente. Levantamentos indicam que o número de núcleos extremistas de direita no Brasil ultrapassava 500 já no início da década de 2020, com milhares de participantes distribuídos em diferentes regiões. Entre 2019 e 2021, o contingente de integrantes desses grupos cresceu de forma acelerada, evidenciando expansão significativa.

Mais recentemente, investigações e relatórios indicaram a continuidade desse avanço. Segundo a Polícia Federal, casos de apologia ao nazismo cresceram mais de 240% nos últimos anos, concentrados nas regiões Sul e Sudeste, mas com ocorrências registradas em diversos estados do país. Em paralelo, levantamentos identificaram a existência de milhares de usuários brasileiros em canais digitais de orientação neonazista, revelando capilaridade e capacidade de recrutamento.

As denúncias relacionadas ao neonazismo e a outras formas de discurso de ódio também cresceram significativamente ao longo da última década. Ainda que haja oscilações — muitas vezes associadas à migração dessas atividades para ambientes fechados e de difícil monitoramento —, a tendência estrutural é a persistência, a adaptação e a reorganização dessas redes.

No plano institucional, o tema deixou de ser marginal. Órgãos de Estado e instâncias de direitos humanos passaram a tratar o avanço de grupos extremistas como questão relevante, com iniciativas de monitoramento, investigação e alerta em nível nacional e internacional.

A relevância desse fenômeno não reside apenas em sua dimensão quantitativa. Seu impacto mais profundo está na reconfiguração do ambiente político e cultural. A circulação ampliada de ideias extremistas desloca os limites do debate público, tornando mais aceitáveis discursos antes marginalizados e ampliando o espaço para soluções autoritárias.

O crescimento de núcleos de extrema direita se articula diretamente com os fatores já analisados ao longo deste artigo — insegurança social, frustração econômica, descrédito institucional e centralidade das pautas morais. A extrema direita não emerge como fenômeno isolado, mas como expressão radicalizada dessas tensões.

O resultado é uma transformação mais profunda: não apenas a presença mais visível da extrema direita, mas a redefinição dos parâmetros de legitimidade no espaço público. Ideias que antes eram socialmente inaceitáveis passaram a circular com maior naturalidade, influenciando identidades, percepções e, de forma decisiva, o comportamento eleitoral.

Valores, conservadorismo e comportamento eleitoral

Em contextos de instabilidade econômica, insegurança e erosão da confiança institucional, valores como família, religião, autoridade e ordem assumem função estruturante na orientação do comportamento político. Não operam como determinantes automáticos, mas como matrizes de interpretação que organizam percepções, hierarquizam problemas e delimitam o campo do aceitável.

O avanço do conservadorismo insere-se nesse quadro como resposta social à percepção de desorganização provocada por mudanças nos costumes, na estrutura produtiva e nas formas de sociabilidade. Mais do que uma doutrina coesa, trata-se de uma reação adaptativa, que oferece repertórios simbólicos de estabilização diante de experiências de perda, deslocamento ou incerteza.

Esse processo é intensificado por ecossistemas comunicacionais que operam na amplificação e na coerência dessas referências, produzindo alinhamentos identitários relativamente estáveis e reduzindo a exposição a enquadramentos concorrentes. Assim, valores deixam de ser apenas disposições culturais difusas e passam a constituir infraestruturas cognitivas organizadas, com efeitos diretos sobre a formação de preferências políticas.

Dos valores ao voto

A conversão dos valores em voto ocorre por meio de uma mediação complexa entre disposições normativas, experiência social e enquadramento comunicacional. Valores definem predisposições; a conjuntura — especialmente renda, custo de vida, segurança e percepção de mobilidade — atua como gatilho; e a comunicação organiza essa relação ao transformar experiências fragmentadas em narrativas politicamente inteligíveis.

Nesse processo, a decisão eleitoral não deriva de uma leitura direta da realidade, mas de sua tradução simbólica. O eleitor responde menos aos dados em si do que à forma como são integrados em estruturas de sentido que conectam interesse, identidade e expectativa.

Em um ambiente de alta fragmentação informacional e competição entre narrativas, a disputa eleitoral desloca-se para a capacidade de produzir coerência interpretativa. O voto passa a expressar, simultaneamente, posição material e adesão a um regime de significado.

Nessas condições, a política deixa de operar apenas como escolha entre propostas e se afirma como escolha entre formas de interpretar o mundo social — e, portanto, como resultado da capacidade de articular valores, organizar percepções e dar sentido à realidade social.

Colaborou Maria da Graça Pinto Bulhões

Ilustração da capa: Manifestação de conservadores – Crédito redes sociais – Autor desconhecido.WhatsApp Image 2022-05-25 at 14.55.31

Nota editorial e fontes

As análises foram elaboradas com base em pesquisas internacionais e nacionais, com apoio de ferramentas de inteligência artificial e revisão da equipe da RED.

Fontes: Reuters Institute for the Study of Journalism (Digital News Report), DataReportal (Digital 2025: Brazil), Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), Sensor Tower (relatórios de uso de aplicativos), Repórteres Sem Fronteiras/ Media Ownership Monitor (MOM Brasil), IntervozesColetivo Brasil de Comunicação Social, Projeto Donos da Mídia, NetLab UFRJ, Fundação Getúlio Vargas (FGV DAPP),SaferNet Brasil, Meta Ads Library (Biblioteca de Anúncios), Google Ads Transparency Center, Agência Pública, Brasil de Fato, The Intercept Brasil.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.