Veja Lula

Lula já tem seu nome gravado na história do País. Por ter sido o único nome viável da fração progressista para disputar a sucessão presidencial deste ano, os holofotes - e as ações - recaem sobre ele

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lula (Foto: Adilson Roberto Gonçalves)

O julgamento em Porto Alegre seguiu a previsibilidade daquele de Curitiba. Minha opinião foi reproduzida em artigos, cartas a jornais, reflexões no meu blog (http://adilson.goncalves.zip.net) e nas colunas que assino, divulgadas preferencialmente pela Assessoria de Comunicação da UNESP. Mesmo assim, pensamentos esparsos, na forma de cartas a revistas, em particular à Veja e à CartaCapital, ficaram sem o devido registro escrito que faço agora.

Lula já tem seu nome gravado na história do País. Por ter sido o único nome viável da fração progressista para disputar a sucessão presidencial deste ano, os holofotes - e as ações - recaem sobre ele. Haver provas no processo não significa necessariamente que o ato ilícito foi provado. Nisso os magistrados em Porto Alegre deveriam sustentar seu julgamento. Que seja isento, mas nada contribui a exposição midiática em que vivem os juízes e seus assessores, com declarações, postagens e outros atos de vaidade profissional. Qualquer que seja o resultado, nossas feridas sociais continuam abertas e somente a lambida do voto não será suficiente para aplacar a infecção.

Sem surpresas, o resultado do TRF4 aponta algumas questões que incomodam: a) podem três magistrados supostamente independentes chegar a idêntica dosimetria de pena? b) se para outros crimes, a prisão após segunda instância é imediata, por que se protela a detenção de Lula, uma vez que se propala ser um julgamento como outro qualquer? c) a teoria do domínio do fato - ou da ficção, como estão dizendo - valerá para todos os suspeitos por crimes de corrupção, ou, como no caso do mensalão, se restringirá aos parcos casos? d) a Justiça passará a discutir a distinção entre "provas sobre um ato" e "ato devidamente provado"?

A salvação do país nada mais seria que o resgate dos respiros de participação da massa social nos destinos da nação. Esse caminho começou a ser trilhado década e meia atrás, mas foi tolhido com um duro golpe há dois anos. O julgamento de Lula é paradoxal: de um lado, a celeridade somente ocorre porque ele é líder absoluto nas intenções de voto e representa os anseios contrários aos domínios da casa-grande; de outro, a investigação contra a corrupção, incluindo a Lei da Ficha Limpa, somente aconteceu nos governos petistas, pois no reinado tucano, imperava o "engavetador geral da república", Aristides Junqueira. O que restará depois é incerto, mas o clima de terra arrasada já é o mais provável. A sobrevivência política é improvável, quando a própria esquerda não consegue unificar seu discurso. Podemos vir a ter um candidato de direita e um de extrema direita no segundo turno.

Faz-se lúcida e clara radiografia do momento angustiante do significado da promulgação da sentença a Lula, pois o julgamento midiático já foi feito há meses. Lula teve escrúpulos para acalmar os mercados em 2002, pois tinha o apoio das massas. Os golpistas de 2016 descaradamente ignoraram o povo para atender exclusivamente ao mercado, e se mantêm no poder, mesmo com todo o rebuliço gerado. Talvez a estratégia do conflito seja funcional, já que a da apaziguação resultou, hoje, em descrença e perseguição ao líder político.

A farsa do julgamento de Lula em segunda instância se estabelece por se assumir que era um embate entre o ex-presidente e os juízes, e não entre um suposto criminoso e a sociedade. O poder Judiciário, não eleito, se esquece que representa (ou deveria representar) o povo no processo, e não a tez de mármore de algozes travestidos de magistrados. No entanto, a escutar o que o povo diz - e continua dizendo nas pesquisas de intenção de voto, mesmo com a sentença proferida -, erra grosseiramente o tríduo quase momesco de Porto Alegre. Sim, perdemos todos, lamentos que são ouvidos até fora do país de quem acompanhava a possibilidade de, enfim, o Brasil começar a romper suas amarras com o passado colonial e escravocrata.

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