Venezuela como teste: Colômbia, Groenlândia, Cuba e Canadá na mira
Defender o direito internacional significa rejeitar sequestros, bombardeios e exceções oportunistas, preservar a soberania e afirmar a paz
Há menos de uma semana, o planeta parecia um reality show de má reputação: governos entrando e saindo do paredão geopolítico sem punição, discursos inflamados substituindo responsabilidade e a impunidade vestida de normalidade. Nestes primeiros dias de janeiro, porém, o espetáculo degringolou.
Já não é reality. É um videoclipe mal editado, com iluminação precária, áudio estourado e um roteiro que se desobedece a cada cena. Só que agora não há metáfora que alivie o fato central: houve uma ruptura grave, explícita e perigosa do direito internacional.
O sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro foi apresentado por alguns como uma operação de audácia técnica. Rápida, cirúrgica, quase asséptica. Essa narrativa durou horas. Primeiro, nenhuma morte confirmada. Depois, 32. Em seguida, 40. Logo, mais de 80. Os números cresceram enquanto Washington hesitava. A vice-presidente da Venezuela exigiu prova de vida. Ela não veio de imediato.
Quando Donald Trump publicou a fotografia do presidente capturado, a imagem levantou suspeitas técnicas e simbólicas. O navio escolhido como palco do feito chamava-se Iwo Jima — um nome carregado de memória visual fabricada.
A famosa fotografia da bandeira americana em Iwo Jima, durante a Segunda Guerra, foi uma reencenação deliberada. Soldados reposicionaram a bandeira para atender fotógrafos e produzir um ícone mobilizador. A imagem virou verdade emocional, não verdade histórica. A associação com a foto de Maduro não é estética; é política. Em ambos os casos, a imagem tenta encerrar o debate antes que ele comece. Ainda assim, esse ponto é periférico. O centro da discussão é outro — e incomparavelmente mais grave.
O que ocorreu foi uma violação direta da soberania de um Estado, princípio basilar do sistema internacional moderno. Nenhuma potência, por mais poderosa que seja, pode intervir militarmente em território alheio, capturar a maior autoridade do país e removê-la à força. Isso não é matéria opinativa. É regra elementar da convivência entre nações. Quando ela é rompida, a exceção vira método e o caos ganha autorização.
A Venezuela hoje abre um precedente perigoso: amanhã podem ser Colômbia, Cuba, Groenlândia ou Canadá, se a força continuar substituindo o direito.
O contexto amplia a gravidade. Em 2025, os Estados Unidos realizaram ataques militares diretos em oito países soberanos, distribuídos por quatro grandes regiões do globo. No Iêmen, de janeiro a dezembro, bombardearam posições houthis. Na Somália, ao longo de todo o ano, executaram mais de 110 operações. No Iraque e na Síria, promoveram bombardeios massivos em dezembro contra alvos do Estado Islâmico. Em junho, atingiram três instalações nucleares no Irã. Em 25 de dezembro, atacaram o noroeste da Nigéria. Na Palestina, bombas fabricadas nos EUA foram usadas por Israel em Gaza durante todo o ano. E, em 2 de janeiro de 2026, a Venezuela entrou nessa lista. Ásia, África, Oriente Médio e América do Sul foram impactados por essa ofensiva contínua, que afetou direta ou indiretamente cerca de 490 milhões de pessoas.
Essa sequência não é acidental.
Revela uma doutrina de intervenção direta legitimada por um discurso de autoproteção, mas indiferente ao custo humano e ao colapso institucional que deixa para trás. O precedente histórico é conhecido e incômodo. Quando George W. Bush invadiu o Iraque, alegou a existência de armas químicas e biológicas. O país foi devastado, o Estado desmontado, milhões de vidas desestruturadas. Nenhuma arma de destruição em massa foi encontrada. O Iraque nunca mais se reorganizou como nação soberana funcional.
A pergunta que se impõe agora é brutal: a Casa Branca passou a tratar o petróleo venezuelano como se fosse uma arma química?
É nesse ambiente que florescem teorias da conspiração que não podem ser descartadas com desdém automático. Antes mesmo de Trump encerrar sua entrevista em Mar-a-Lago, no dia 3 de janeiro, circulava a tese de um acordo tácito entre Washington, Pequim e Moscou: os Estados Unidos ficariam com o petróleo venezuelano; a China teria liberdade sobre Taiwan; a Rússia consolidaria a anexação de parte da Ucrânia. É, sim, uma teoria conspiratória. Mas não infantil. Ela nasce do silêncio estratégico da China e da Rússia, do cinismo diplomático normalizado e da percepção de que grandes potências voltaram a negociar o mundo como espólio. Pode ser desmontada com o tempo. O fato de parecer plausível já é um sintoma alarmante.
Do ponto de vista jurídico, a operação contra a Venezuela viola frontalmente a Carta das Nações Unidas, especialmente a proibição do uso da força contra a integridade territorial e a independência política de Estados soberanos. Fere o princípio da não intervenção e da igualdade entre nações. Como advertiu Norberto Bobbio, quando a força se emancipa da norma, o direito internacional deixa de ser direito e passa a ser ornamento retórico.
Há ainda a violação de tratados de direitos humanos e do devido processo legal. Nenhum governante, por mais autoritário que seja, perde essas garantias por decisão unilateral de outro Estado.
Normalizar esse método significa substituir tribunais por comandos militares. Não é realismo político. É regressão civilizatória. E, desta vez, o mundo não assiste a um espetáculo. Assiste à demolição consciente das regras que ainda separavam a ordem do abismo.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

