Venezuela, nem preconceito nem obrigação solidária

A Venezuela não recebe a solidariedade como presente, e sim por razão de justiça ao seu projeto e implementação de uma política inclusiva

Venezuela, nem preconceito nem obrigação solidária
Venezuela, nem preconceito nem obrigação solidária

A cada crise na Venezuela reaparecem análises desconexas da realidade que de forma minimalista procuram um determinismo do que irá acontecer. Mesmo no meio acadêmico existe a procura de encaixar numa teorização clássica do que passa no país de Simon Bolívar. O campo mais esquerda argumenta que é o embate do capitalismo tentando solapar a esperança de um projeto socialista. A abordagem de ultra direita trabalha com a premissa da falência do modelo "comunista" de acumulação.

Vem de Hugo Rafael Chávez Frias o note que melhor determina o paradigma venezuelano.Ainda sem tomar posse, numa entrevista (1998) ao jornalista Augusto Blanco, o presidente argumentou que a Venezuela procuraria fugir do modelo euro-socialista, egocêntrico para buscar um desenvolvimento endógeno. Não seria nem socialismo clássico, nem os 40 anos de capitalismo selvagem do período do Punto Fijo. Mesmo que não tenha alcançado totalmente seus objetivos, o que existe de maior valor é transferência da renda petroleira para a maioria da população em detrimento das companhias multinacionais. Esta atitude foi imperdoável para o processo de financeirização do petróleo, onde o capital procura auferir parte dos lucros, mesmo estando fora da produção.

Diante da aumento do bloqueio à Venezuela, a imprensa tradicional mantém o eterno discurso da busca de reviver o projeto liberal (1958-98). Mas se aprofundasse na história, perceberia que neste período 70% da população não tinha valores nutritivos para sobrevivência, 42% das habitações não possuíam água e 12% dos venezuelanos apresentavam sintomas de retardamento mental. Faz-se necessário registrar que não é apropriado depositar nossas informações ou conclusões numa mídia global com interesses econômicos.

As questões políticas são o campo preferido de quem gostaria de justificar uma invasão. Está no econômico as razões da crise, e não passa somente pelo bloqueio valendo-se do alto nível de globalização do século XXI. Existe sim, dificuldade de superação do petróleo como atividade, e não são erros apontados daqueles que buscam enumerar uma incapacidade da administração Maduro, mas o poder de inércia da exploração do crudo.

Diante da primeira crise do preço do petróleo em 1973, onde o barril triplicou de valor,os bancos e países consumidores (AIE) iniciaram uma engenharia financeira para repartir a rentabilidade da a maior atividade do mundo através de um esquematização onde a extração dependeria do capital. Assim projetos, seguros, análise de viabilidade técnica e monetária além do custo de empréstimos passaram ter um peso considerável no valor do 'brent´. Fugindo de uma análise mais demorada , na prática Maduro com Trump ,enfrenta um aprimoramento da globalização que limita seu raio de ação em comparação do período Chávez e Bush, sem aí excluir patamares de preço. Se a venda do petróleo venezuelano migrou em parte para outros países ,a infraestrutura técnica e financeira continua sob domínio dos EUA e Europa através da comunidade financeira internacional .

A recuperação dos preços do petróleo a partir de fevereiro de 2016 ,quando atingiu 26 dólares foi fruto de uma acordo via OPEP e países não-OPEP, coordenado por Nicolás Maduro Moros, Vladimir Putin, Hassan Rohani (Irã) e rei Salman (Arábia Saudita). Mesmo ascendendo ao patamar de 60 dólares, as vendas concentradas para China e Rússia estão demasiadamente comprometida com dívidas de empréstimos. O país asiático ainda tem o agravante de comprar via carta de crédito, onde o credor pode adquirir produtos ou projetos,assim o valor ingressa convertido na execução de alguma construção ou instalações com recursos chineses. Mesmo que a Venezuela tenha migrado para venda em rublo e yuan, ainda sofre com o período que se endividou demasiadamente. As receitas cresceram com subida do barril, mas sofrerem sentido oposto com queda da produção, pelo acordo de cotas e principalmente pela falta de investimentos em parcerias fruto do bloqueio estadunidense. Hoje a Venezuela produz 1,5 milhões de barris, onde 700 mil servem de abatimento de dívida, uma extração que já alcançou nível de 3 milhões por dia.

Perdidos em argumentos se existe ou não democracia no país, qualquer pesquisa percebe que a questão é econômica e de divisas. Antes que algum extremista grite por aprofundar a revolução com nacionalização de mais meios de produção, caberia estudar que na insuficiência de capital para crescer a produção de petróleo e insumos da cadeia produtiva, como assumir novas atividades produtivas? Se em longo prazo a Venezuela precisa diversificar a produção, no curto prazo precisa gerar divisas com a capacidade que possui ,driblando o bloqueio financeiro e altas taxas de juros, dos EUA e Europa na ambição de gerar o "default" ,o que permitiria fechar todos créditos internacionais.

Preso nesta guerra híbrida , em 2018 O PNUD da ONU que mede o Índice de Desenvolvimento Humano(IDH), divulgou que a Venezuela está acima dos líderes do Grupo ou "Cartel" de Lima: Venezuela com 0,761;Brasil com 0,759;Peru com 0,750; Colômbia 0,747. A Venezuela é o quinto país no mundo em matrícula escolar e o segundo na América Latina. A Revolução Bolivariana entregou até dezembro último 2,4 milhões de residências, o que significa suprir habitação para 40% da população.Os dados mostram que o discurso político sobre uma propenso ameaça a democracia e direitos humanos não está com a Venezuela e sim nos algozes que buscam, nesta agremiação sem valor legitimidade institucional, lograr uma posição que não conseguiram numa maioria na ONU ou OEA para usar a sanção da "Carta Democrática". Em verdade ao servir os interesses estadunidenses este países escondem falta de solução para problemas de sua população, pelo modelo de gestão que empreendem.

Atacar pela seara política é o que restou aos opositores do governo venezuelano. As dificuldades econômicas em muito são originárias pelo bloqueio e uma guerra híbrida, o país paga 25% de juros a.a. onde outros pagam 6%. A politização dentro do país é latente, depois de 20 anos de revolução o chavismo ainda é majoritário. A estratégia portanto é utilizar a "arma" dos direitos humanos para esconder que as dificuldades no campo financeiro é um jogo treinado entre a elite detentora de dólares com o grupo que segue Washington. É posta em prática para asfixiar o fluxo cambial dificultando o poder de compra dos insumos e produtos que o país não produz.Um estratagema que visa debilitar seus compatriotas.

Nesta ordem de ideias, aquelas análises que depositam em Maduro responsabilidades sobre dificuldades econômicas não se sustentam . Em verdade, sem fornecimento de remédios,alimentos industrializados e insumos, o mandatário ainda tem um IDH maior do que países críticos. Impedido de completar sua cadeia produtiva com créditos que converteriam em máquinas e premissas para produção, a estratégia fina e pontual deste, demonstra uma sobrevivência diante de uma ambiente proposital de caos fomentado por forças externas.

A diversificação da atividade produtiva , reclamada desde o período que o liberalismo governou o país entre 1920 até 1998, é de difícil êxito. Maduro também não alcançou. O petróleo é uma atividade longa de maturação, um poço no padrão PDVSA leva de 13 a 17 anos para se pagar, e demanda um grande volume de crédito do que é permitido ao país. Os 30 milhões de habitantes não são um grande mercado para um mundo globalizado construir uma cadeia produtiva. O caminho é investir em gás, ouro e outros minérios pois as grandes companhias não vão elaborar projetos e sim intentar vender produtos finais. Os empresários venezuelanos tem uma cultura de distribuidores e importação de mercadoria. O que cabe em curto prazo é cobrar do governo uma maior independência da UE e EUA do modelo de financeirização do petróleo que tem servido para asfixiar a capitalização da Venezuela.

Neste sentido crescer sua capacidade técnica e projetos, além de seguros e financiamento; em outras palavras aprofundar a relação com China, Rússia, Irã,Índia e Turquia, fugindo do dólar e seguindo para um cesta de moedas que permitam comprar bens e serviços. Nicolás Maduro anunciou no Plano Pátria (2019-2025) que 15 % da venda do petróleo será via a criptomoeda petros, com o intuito de no futuro chegar a quase totalidade, exatamente para driblar as restrições de capital. Esta medida é de grande relevância para restruturar a economia e investimento produtivo.

A Venezuela não recebe a solidariedade como presente, e sim por razão de justiça ao seu projeto e implementação de uma política inclusiva. Mesmo para parte da esquerda envergonhada ou aquele que se sente obrigada a defender. Afinal esta fração progressista é apenas a parcela que surfa no período positivo de qualquer projeto desenvolvimentista para desaparecer na época do plantio. No campo da direita, esquecer a história é proposital pelo subdesenvolvimento que gerou. Produziu ainda a atual oposição, que é protagonista no bloqueio ao país e que queimou 29 pessoas vivas entre março-abril de 2017, tornando difícil a argumentação pelo campo dos direitos humanos.

Nesta conjuntura, a CEPAL publicou seu relatório (2018) mostrando que agora são 184 milhões de pessoas na pobreza total na América Latina. O país que mais contribui neste acréscimo da extrema pobreza subiu de 4% para 5,5% somente entre 2015 e 2017, não por coincidência lidera a pressão contra a Venezuela: o Brasil.

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