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Mario Vitor Santos

Mario Vitor Santos é jornalista. É colunista do 247 e apresentador da TV 247. Foi ombudsman da Folha e do portal iG, secretário de Redação e diretor da Sucursal de Brasilia da Folha.

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Venezuela usa a tática russa, une plebiscito e ação militar, e põe em xeque ordem regional e global

"O tremor político é na vizinhança do Brasil, cujo papel de liderança e negociador será testado", diz Mario Vitor Santos

Nicolás Maduro discursa depois de votar em referendo sobre anexação de Essequibo (Foto: Reuters/Leonardo Fernández Viloria)
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O presidente da Venezuela Nicolás Maduro anunciou uma decisão da maior relevância, que certamente acarretará um conflito entre dois países fronteiriços do Brasil.

Após o plebiscito de domingo, a Venezuela resolveu rapidamente anexar uma área que até agora fazia parte da Guiana, equivalente a 70% da área do país, o território de Essequibo.

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O processo lembra o da operação especial da Rússia na Ucrânia com as etapas trocadas. Provável avanço militar sobre a área, reivindicada desde o século 19, em conjunto com um plebiscito. No caso da Venezuela, votaram os eleitores do país, não os da área anexada. O apoio à incorporação foi de 95%, tendo reunido até lideranças da oposição como até mesmo Maria Corina Machado, considerada a principal candidata para enfrentar o governo de Maduro nas eleições do ano que vem, mas declarada inelegível pela Justiça venezuelana.

Na Rússia, foram os cidadãos das áreas em disputa que votaram na consulta a favor de incorporá-las ao território russo.

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O gesto de Maduro foi precipitado pela presença provocadora de militares estadunidenses para estabelecer bases na Guiana. Descobertas recentes revelaram reservas imensas de petróleo na Guiana, já sendo exploradas pela ExxonMobil.

Evidentemente, o comando venezuelano teve que se antecipar aos fatos desencadeados pelos movimentos do Comando Sul do Exército estadunidense. Aproveitou-se também de um momento específico da conjuntura internacional. Talvez julgue que haja uma janela de oportunidade no fato de que os Estados Unidos já se encontram envolvidos em dois conflitos: o da Ucrânia com a Rússia e o de Israel com os palestinos.

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Internamente, os estadunidenses encontram dificuldades para aprovar no Congresso verbas para sustentar os dois combates. Resta saber como vai ser a  reação ianque, na entrada de um ano de eleições presidenciais. Seja como for, um tal problema é tudo que os EUA não queriam. O desfecho pode sinalizar o esgotamento da capacidade de contenção estratégica de Washington numa região que sempre considerou ser parte do seu quintal.

As forças armadas da Guiana inexistem. A progressão dos venezuelanos por terra é dificultosa. Supõe-se que os generais de Caracas saibam como ter controle da região. Caças de Caracas já estão sobrevoando a área agora batizada de Guayana Esequiba pela Venezuela, que nomeou um militar para governar a área.

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Desde as Malvinas, há 41 anos, a América Latina não testemunhava um choque nessas proporções. O tremor político é na vizinhança do Brasil, cujo papel de liderança e negociador será testado. A Venezuela, que muitos julgavam alquebrada por anos de bloqueios e sanções, resolveu dobrar a aposta.

O imenso abalo politico pode ser regional, mas suas consequências vão pôr em xeque toda a ordem global.

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