Vertigo?

"'Democracia em Vertigem' é inteligente ao dispensar adesões unânimes: quem dele não gosta, quem dele discorda, seguirá esconjurando a liberdade e a democracia", escreve Luis Costa Pinto, do Jornalistas pela Democracia. "Contudo, ele sempre estará ali para lembrar que um Brasil melhor e mais justo foi possível e era viável"

Documentário Democracia em Vertigem, de Petra Costa
Documentário Democracia em Vertigem, de Petra Costa (Foto: Reprodução/Netflix)
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Por Luis Costa Pinto, do Jornalistas pela Democracia

Despretensiosa na narração cool que dá o tom tanto de “Elena” quanto de “Democracia em Vertigem”, duas egotrips profundas que fazem emergir dramas existenciais pessoais e universais (uns puxam os outros e não sabemos qual a ordem cronológica dessa corrente em espiral nos seus filmes), a cineasta Petra Costa pode estar a ocupar um papel central no reagrupamento político da esquerda e do que restou de sensato nos personagens capitais da centro-direita brasileira.

Caso receba o Oscar de melhor documentário no próximo dia 9 de fevereiro, pelas qualidades patentes e em razão das verdades evidentes que parecem pular da tela em “Democracia em Vertigem”, acelerar-se-á a corrida para dar a ela lugar central nos esforços de catalisação da racionalidade ao debate político nacional. 

Mesmo que não receba a estatueta, em razão do primitivismo tosco da vanguarda do obscurantismo bolsonarista e da pequenez da mídia tradicional, ainda assim Petra será sempre lembrada como a primeira voz autoral a consolidar o turbilhão conservador que varreu o país a partir de 2013, pôs as garras de fora em 2014 quando o PSDB não aceitou o resultado eleitoral, passou a ameaçar seriamente o Brasil em 2015 com aliança entre o esquadrão avançado da Lava Jato, empresários, parlamentares de partidos tradicionais, igrejas evangélicas neopentecostais e vivandeiras fardadas (algumas de pijama). Aliaram-se para dar curso ao impeachment de Dilma Rousseff, conquistaram adesão popular com o auxílio dos analistas rasos e rasteiros da imprensa conservadora. Enfim, como está bem demonstrado no documentário, o fosso abissal em que o Brasil de 2019 se viu enfiado é resultado do golpe jurídico-parlamentar-classista de 2016 que levou ao poder a cleptocracia de Michel Temer e com a ruína produzida pela gestão amoral dele, chegamos à trágica eleição de Jair Bolsonaro em 2018. 

Leio e ouço, desde ontem, análises primárias de analistas secundários alçados à condição ilusória de “formadores de opinião” da mídia tradicional (ingênuos, não percebem que são apenas a raspa de tacho que restou nas depauperadas e famigeradas redações atuais), em que Petra Costa é acusada de ter feito um filme político. 

Michael Moore e seus filmes intensamente autorais e provocativos não faz filmes políticos? Trabalho Interno (Inside Job), vencedor do Oscar de melhor documentário em 2011, não é um jab de esquerda no sistema financeiro? Free Solo, vencedor da categoria em 2019, deixa de ser um filme político? Uma Verdade Inconveniente, documentário alinhavado a partir de uma TED com Al Gore e que arrebatou a estatueta em 2007 em pleno governo George W. Bush era o que? 

Assisti a “Democracia em Vertigem” duas vezes. Gostei muito, embora tenha anotado uma ou outra omissão e desde o início percebera vieses deliberados na narrativa que induzem o espectador. Mas e daí? O que são nossos telejornais diários, de quaisquer emissoras ou corporações? O que dizer do tsunami de lugares-comuns e de sensos comuns que são as “análises” dos opinionistas de nossas TVs fechadas? Como classificar os chavões patronais da maioria dos colunistas de plantão em nossos jornais e nas revistas que restaram (ou no que restou delas)? Numa escala de 0% a 100% talvez eu tenha entre 90% e 95% de concordância com os credos políticos professados pela cineasta. Em razão disso, considerei irrelevantes omissões e vieses. Afinal, como sempre acreditou e escreveu Nélson Rodrigues, o genial cronista e dramaturgo “de direita” que escancarou a alma conservadora e hipócrita do brasileiro, a objetividade jornalística é um mito e toda unanimidade é burra. É a parcialidade sábia e suave de Petra que confere a seu filme uma aura de verdade mais evidente do que o rol de mentiras alinhavado pelos vencedores transitórios do golpe de 2016. 

“Democracia em Vertigem” é inteligente ao dispensar adesões unânimes: quem dele não gosta, quem dele discorda, seguirá esconjurando a liberdade e a democracia; contudo, ele sempre estará ali para lembrar que um Brasil melhor e mais justo foi possível e era viável.

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