Vidas de pessoas idosas contam

Se covarde é quem fica em casa, cristão não é quem menospreza ou racionaliza a morte evitável de idosos

(Foto: Massimo Pinca/Reuters)
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Sobre a pandemia, avistamos um furação que se aproxima. Ainda não passamos pela sua fase de fortes ventos e grandes estragos. Graças à informação e à orientação de entidades médicas tradicionais e à Organização Mundial da Saúde, vivemos um inédito distanciamento social de adultos e de crianças e um isolamento de pessoas idosas. 

Sinceramente, jamais esperaria que a sociedade brasileira pudesse se comover e agir com tamanha compaixão como tem feito. Surpreende porque o inimigo é invisível e ainda, relativamente, pouco nos assola. Surpreende porque o esforço vem para proteger a faixa da população que sempre é esquecida, nossos idosos. A mesma sociedade que há pouco ignorava o corte no BPC, agora, comovida - e preocupada também de certa forma com a saúde de idosos da sua família -, passou a abdicar de compromissos e mudou hábitos em prol dos idosos como um todo. Isso resgata valores que até então poderíamos duvidar que ainda estivessem presentes em nossos corações. Civilização, comunidade, solidariedade - provamos que podemos mudar e sermos um pouco melhores. 

No entanto, fazemos esse esforço há poucos dias e começa um movimento articulado para mudar a estratégia. Muitas vezes, parece que o objetivo de achatar a curva de casos para que o sistema de saúde possa melhor atender os doentes e salvar o máximo de vidas perdeu o sentido. E é um esforço ainda válido e reforçado pelos dados diariamente vindos de outros países. Eles queriam ter a nossa oportunidade! 

Vieram empresários famosos pregar o fim das medidas que estamos adotando. Falam em 5 ou 7 mil mortes, apenas. Criaram um fantasma de que morreremos de fome. Eles menosprezam os idosos ao enfatizar que é um vírus que não mata pessoas com menos de 50 anos – o que é mentira. Enchem suas bocas com dentes cintilantes de estatísticas furadas que não são as mesmas dos epidemiologistas. Usam sua fama para desmobilizar. Nas redes sociais aparecem vídeos e depoimentos estranhos que racionalizam a barbárie. Falam de pessoas com mais de 60 anos e da hipótese de milhares virem a morrer como se fosse algo banal. 

Enfim, o presidente pede que o esforço se cesse, menosprezando o furacão. A falsa dúvida lançada: e a economia? Ou idosos x a economia. Crianças x idosos. Não existe essa escolha! A escolha é entre ficarmos em casa e darmos tempo para leitos de UTI serem construídos, testes e máscaras serem produzidos em grande escala ou expor um número imenso de idosos ao risco da morte evitável.  Nem todos são idiotas. Quem busca, percebe que os países mundo afora estão lidando com isso de maneiras justas. A Inglaterra pagará 80% dos salários, por exemplo. E os Estados Unidos injetarão 10 trilhões de reais na economia. Todos sabemos que medidas por aqui precisarão ser tomadas e envolverão o sacrifício do andar de cima. O sistema neoliberal vinha em crise e agora o papel do Estado será, por algum tempo, maior para garantir a vida das pessoas e das empresas. 

No Brasil, como estamos no grande produtor de alimentos do mundo e com mais de 1,5 trilhões de reais em reservas, não deveríamos tão logo isentar o Estado de solucionar os aspectos econômicos e alimentares e afrouxar nosso objetivo. Da mesma forma, poderíamos falar de soluções econômicas temporárias como taxar os bancos, limitar o salário e aposentadorias públicas em até 30 mil reais e auditar dívidas. Com essas medidas, poderíamos focar no mais importante. Focar na oportunidade que italianos e alemães não tiveram: de salvar o máximo possível de pessoas idosas brasileiras. 

Se covarde é quem fica em casa, cristão não é quem menospreza ou racionaliza a morte evitável de idosos. Haverá mortes inevitáveis sim, mas estamos nos esforçando nesses dias para salvar muitos que podem e estão sendo salvos! Precisamos olhar para a história para compreender nosso tempo e evitar a repetição de erros. Na Alemanha, durante o regime nazista, ocorreu uma terrível operação Aktion T4. No começo, crianças que nasciam com deficiências e adultos com doenças mentais eram assassinados. Com o avançar da guerra, feridos e idosos tiveram o mesmo fim, em nome da economia. A crueldade encontrava espaço na razão de quem havia perdido sua humanidade. Desconheço uma sociedade que prosperou deixando seus idosos morrerem quando podiam ser salvos. Vidas de pessoas idosas contam, eles precisam saber disso, seus netos também. É bíblico.

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