Villa, um bandeirante virtual

Os conteúdos que o historiador tucano produz são absolutamente idiossincráticos, resultado de seu ódio pela esquerda, em geral, e pelo PT em particular

Nesta terça-feira, 3, o Brasil 247 reproduziu conteúdo do último artigo de Marco Antônio Villa, historiador tucano; sendo este um dos espaços mais democráticos que temos, decidi dialogar com o referido artigo, em contribuição ao site. Não pretendo contestar parágrafo por parágrafo as desonestidades intelectuais do professor porque, sinceramente, me falta tempo para isso no momento. Talvez seja, também, desnecessário. Não é possível que Villa não tenha já exata noção de quem é e do que representa. Não me parece ter mais pretensões de ser levado a sério no ambiente acadêmico; jamais vi argumento de sua lavra servir, mesmo à direita, para comprovar o que quer que fosse, pois o que tece não é fruto de raciocínio lógico e observação mas de suas escolhas pessoais. Ou seja, os conteúdos que produz são absolutamente idiossincráticos, resultado de seu ódio pela esquerda, em geral, e pelo PT em particular. Quando um acadêmico substitui métodos de análise pela sua própria opinião e preferências, só pode produzir fraudes. É o que faz Marco Antônio Villa. Tenho pena de seus alunos.

No artigo a que me refiro, ele vaticina: o governo Dilma acabou. Então podemos começar lembrando que o professor afirmou o mesmo sobre o governo de Lula em 2005, no auge da crise do mal chamado "mensalão"; do mesmo modo, previu o "fim melancólico" – sim, além da fraude intelectual, Villa abusa dos clichês – para o governo do PT em 2010 e, durante as eleições municipais de 2012, cometeu alguns artigos "explicando" porque Lula vivia seu crepúsculo como liderança influente, dadas as chances eleitorais de seu candidato em São Paulo àquela altura. Villa é assim: faz previsões, elas não se confirmam, ele faz de conta que não as fez e as publica novamente. Um dia, evidentemente, o PT perderá as eleições presidenciais e, se Villa estiver vivo e em pleno gozo de suas faculdades mentais, poderá dizer: acertei! Não há indícios fortes, como gostaria o professor, de que será nessas eleições que seus vaticínios se confirmarão.

No entanto, apenas seu posicionamento em relação aos governos do PT não seria suficiente para traçar um panorama do mal que esse senhor já tentou impingir à discussão política no Brasil; suas diatribes, nesse caso, são apenas fruto de ódio e interesse político. Ademais, é um direito seu ser antipetista, como o é expressar-se acerca disso, inclusive mentindo. Mas, como historiador que diz ser, deveria ser mais comedido com a História e não tentar revisá-la a partir de interesses subalternos da matriz ideológica à qual se afiliou. O ódio brutal de Villa contra o PT é, de um ponto de vista intelectual, anterior ao PT. Ele se pensa um "bandeirante" da academia e, assim, dedica parte de seus esforços em deslegitimar a agenda política mais bem sucedida no Brasil do Século XX: o trabalhismo. Deforma o legado de Getúlio Vargas e da agenda trabalhista ao passo que busca argumentos – do mesmo quilate dos que forja para sustentar suas previsões – para legitimar o arbítrio golpista de 1964 e o arranjo chamado "transição", que postergou a escolha direta dos brasileiros nas eleições presidenciais para além dos estertores do regime militar e serviu para tirar os militares da cena política preservando todos os interesses que os mantiveram nela durante a ditadura. E esse é justamente o termo que Villa gostaria que revíssemos: para ele, o golpe de 64 não implantou uma ditadura no Brasil, mas a resistência armada de parte da esquerda é que seria a grande responsável pelo único golpe que ele reconhece – aquele dado dentro do próprio governo golpista –, o famigerado Ato Institucional Nº 5, de 1968. Para além, segundo Villa, a ditadura – implantada em 68, e não em 64 – teria acabado em 1979, com a assinatura da Lei da Anistia. Seu argumento é: liberdades relativas, antes de 68 e depois de 79, autorizariam a reclassificar esses períodos como não autoritários. Assim o professor, supõe-se, sustenta que a democracia, a cidadania e os direitos civis não precisam ser plenos; meia democracia já vale.

Parece estapafúrdio e, de fato, é; nem a direita o levou a sério, mais uma vez. Mas obedece a um método, a uma tese, a um pensamento: a esquerda deve ter deslegitimada sua participação política de toda forma e não deve figurar na história senão como assassina, equivocada ou incompetente; se possível, uma mescla disso tudo. É falso. É desonesto. A esquerda, em sua ampla maioria em nosso país, foi forjada na luta democrática, por mais direitos e participação, nunca por menos. E o pensamento mais influente nesse espectro político sempre buscou o caminho do socialismo democrático – coisa que, pelas premissas falsas colocadas por Villa, seria em si uma incongruência. Não é. As perspectivas de esquerda mais bem sucedidas no Brasil sempre estiveram mais associadas ao estado de bem estar social do que às experiências autoritárias detrás da Cortina de Ferro. O professor confunde – para confundir – os símbolos da luta de esquerda no Brasil, fortemente influenciado pelo simbolismo revolucionário comunista, como em toda a América Latina, com a agenda real das esquerdas desde a metade do Século XX: a construção de uma democracia de massas, com mercado interno desenvolvido e valores identificados no socialismo utópico. Se os governos do PT contribuem mais – ou menos – para essa construção, podemos discutir, mas desde que o debate se ancore em premissas verdadeiras e não nas escolhas políticas de Villa.

O professor sabe que o governo Dilma não acabou, que o país não está emperrado e que quem seria capaz de lançá-lo à lona em nome de seu projeto de poder é a oposição pela qual ele milita, não o PT. Se já o fizeram quando no governo, por três vezes em sete anos, porque não o fariam para voltar a ser governo? Villa desqualifica o debate político; esse é seu papel, aliás, e ele sabe disso.

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