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Naira Rodrigues Gaspar

Fonoaudióloga, mestra em ciências da saúde pela Unifesp, militante dos direitos humanos das pessoas com deficiência

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Violência e opressão vestidas de cuidado

Gestos considerados naturais muitas vezes produzem controle sobre corpos, escolhas e formas de existir

Violência e opressão vestidas de cuidado (Foto: José Luiz Borges)

Por Naira Rodrigues Gaspar e Michele Machado*

As cenas que abrem este texto atravessam a vida de muitas mulheres cegas. São situações aparentemente simples, mas que revelam formas profundas de controle, invisibilização e capacitismo.

No primeiro dia, você me disse que eu deveria ficar sentada naquela cadeira. Segurou meu braço e me conduziu até ali, no canto da sala, enquanto a festa acontecia do outro lado. Quando eu disse que estava cansada de permanecer ali sozinha, você respondeu que aquilo era um cuidado necessário, que estava apenas me protegendo.

No segundo dia, sem que eu percebesse sua presença, você me abraçou forte, como se fosse uma brincadeira, e esperou que eu adivinhasse quem era. Chegou a ficar irritado quando eu disse que, daquele jeito, eu não conseguiria saber quem era você.

No terceiro dia, você me convidou para entrar no carro e saiu dirigindo pelas ruas sem me dizer para onde iríamos. Depois de algum tempo de silêncio e falta de informação, eu gritei. Sim, foi um grito de pavor. Um grito de quem sofre a violência do apagamento, da invisibilidade do corpo e da negação do direito de existir como mulher cega em sua própria vida e na sociedade.

Este texto também é um grito. Um grito coletivo para afirmar algo que ainda precisa ser dito em voz alta: nós existimos. E existimos com o direito de escolher quem nos toca, onde nos sentamos, como nos relacionamos e com quem amamos.

A fantasia da intimidade imposta às pessoas cegas transforma relações em experiências opressoras e violentas. Em nome do “cuidado”, muitas vezes nos colocam à margem, controlam nossos movimentos, decidem por nós e invadem nossos corpos.

Muitas vezes, inclusive, não conseguimos nomear imediatamente a sensação que nos atravessa quando passamos por essas situações. Sentimo-nos constrangidas por não desejar o toque do outro sem consentimento, por não aceitar o lugar isolado no canto, quando, na verdade, queremos estar na festa, dançar com quem quisermos, escolher o que comemos, o que bebemos e como ocupamos o espaço.

Essas situações têm nome.

Podemos chamá-las de violência, de opressão e de capacitismo.

O que não podemos é continuar chamando isso de cuidado ou proteção.

Quando uma mulher cega é colocada no canto enquanto a festa acontece, quando seu corpo é tocado sem consentimento, quando suas decisões são substituídas pela vontade de outra pessoa, o que está em jogo não é cuidado. É controle.

E controle nunca foi sinônimo de proteção.

Se você, leitora ou leitor que enxerga, chega até este texto e percebe que atitudes que parecem naturais ou bem-intencionadas podem reproduzir violência contra mulheres cegas, então há um passo importante a ser dado: reconhecer e romper com essa estrutura capacitista.

Uma sociedade democrática não se constrói com tutela. Constrói-se com autonomia, respeito e liberdade.

Um mundo verdadeiramente livre é aquele onde todos os corpos, todas as formas de existir, todos os amores e todas as cores cabem e circulam em todos os espaços.

*Michele Machado é jornalista, militante de direitos humanos

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.