Violência política extrema: o bolsonarismo, o buraco de Alice e os riscos da falsa polarização

A liberdade de expressão e de manifestação tornou-se algo perigoso

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(Foto: REUTERS/Carla Carniel | Exército Brasileiro | REUTERS/Jim Young | REUTERS/Lucas Jackson)


Para além das diferenças filosóficas a democracia é definida desde a Grécia Antiga como um modelo político que tem como pressuposto a coexistência de pensamentos divergentes dentro de um mesmo espaço público, que na modernidade é assegurada por ordenamentos jurídicos e instituições sólidas, onde as disputas ocorrem, com maior ou menor potencial de radicalidade nos discursos e projetos, em respeito às regras postas, legitimamente produzidas.

A História mais recente da humanidade nos apresenta mecanismos de dominação e alienação que constituem o mundo das fake news e dos discursos de ódio na internet, que no Brasil contemporâneo atende pelo nome de bolsonarismo, em referência à rede de apoiadores do atual presidente da República, que foi eleito há quase quatro anos adotando uma retórica antissistema, apesar de estar há décadas na política, e que alimenta uma postura pública tóxica, povoada por teorias da conspiração, distorção de fatos e da realidade, apelos à violência e ódio às instituições democráticas, aos direitos humanos e aos adversários políticos.

O bolsonarismo nos jogou em um buraco, como a menina Alice na lenda de Lewis Carroll, em que somos compelidos a debater com seres que usam argumentos fantasiosos, rotulando todas as posições divergentes como sendo de “comunistas”, incluindo autoridades e personalidades reconhecidamente liberais, como Emmanuel Macron e Angela Merckel. Um descolamento do  mundo real que começou nos Estados Unidos com uma teoria chamada “Q Anon”, que amplia os limites para a crença e aceitação do absurdo. Levaremos tempo para compreender de fato o que representa o bolsonarismo e como enfrentá-lo para muito além do resultado eleitoral do próximo pleito. Mesmo porque o fenômeno é social e psicologicamente maior do que o líder que lhe dá o nome. Mas o momento atual nos obriga a enfrentar um aspecto do produto como consequência do bolsonarismo: a violência extrema, que tem ceifado vidas. 

Os sintomas desse comportamento violento extremo estão dados há muito tempo. E já deveriam ter acendido uma luz vermelha nas instituições.

Mestre Moa do Katendê foi morto em Salvador aos 63 anos com 13 facadas no dia 8 de outubro de 2018, horas após a votação do primeiro turno das eleições para Presidente da República. Antônio Carlos Rodrigues Furtado, de 61 anos, foi morto a socos e pontapés em Balneário Camboriú (SC), no dia 27 de novembro de 2019, após uma discussão.

Como fatos recentes o secretário do Partido dos Trabalhadores Marcelo Aloizio de Arruda foi assassinado a tiros em sua festa de aniversário de 50 anos no dia 09 de julho em Foz do Iguaçu (PR), e o trabalhador rural Benedito Cardoso dos Santos, 44 anos, esfaqueado 15 vezes e morto durante uma discussão política em Mato Grosso na noite do último 07 de setembro

O que todos esses homicídios bárbaros possuem em comum? Todos foram praticados por militantes defensores de Jair Bolsonaro. Todas as vítimas eram defensoras das candidaturas de esquerda. Todos os crimes foram cometidos por esse motivo.

Diante dos discursos de ódio e por medo das ameaças de violência e morte as pessoas que não possuem identificação com o bolsonarismo têm evitado usar qualquer identificação pessoal nas ruas, vestimentas, adesivos nos carros, ou mesmo nas portas e muros de suas casas. 

A liberdade de expressão e de manifestação tornou-se algo perigoso.

Também perigosa tem sido a simplificação que, buscando um afastamento dos fatos, afirma uma simetria de comportamento entre dois lados em conflito, vinculado aos dois líderes das pesquisas para presidente da República: Lula e Bolsonaro. Foi nessa toada que o candidato Ciro Gomes postou em suas redes sociais que o brutal assassinato cometido no Mato Grosso no último dia 07/9 foi mais um “fruto da polarização”. 

Vinda de Ciro Gomes, que costuma ser bastante agressivo em falas, com o uso de adjetivos coléricos em discursos contra adversários e até no tratamento com militantes de outras candidaturas, a postagem seria chover no molhado se o molhado não fosse sangue.

A relativização da violência política da extrema direita representada pelo bolsonarismo, que começou nas redes e veio para o mundo físico, também faz parte da narrativa da quarta colocada nas pesquisas Simone Tebet e da grande imprensa, na tentativa insensata de turbinar a chamada terceira via. Uma das perguntas em tom acusatório do jornalista William Bonner ao ex-presidente Lula durante a entrevista ao Jornal Nacional no dia 25 de agosto foi se ele não se sentia responsável por ter estimulado o “nós contra eles” em tempos anteriores. Uma confusão sobre apresentar as divergências políticas de forma enfática, coisa que Lula costuma, e proferir discursos de ódio que falam em matar, estuprar, metralhar e extirpar o antagonista.

Diante do discurso débil dos que tentam pavimentar o “caminho do meio” há que se perguntar: que polarização é essa que só um lado mata e só o outro morre? 

Mascarar a violência letal produzida pela extrema direita no Brasil, adotando um discurso ideológico com cálculo eleitoral, a fim de apontar um falso paralelismo, ao oposto de auxiliar qualquer pacificação, contribui para o acirramento da brutalidade, porque dissimula a raiz do problema e cria obstáculos para o enfrentamento de movimentos com vocação totalitária. Indicar o caminho do “tanto faz”, como se fosse indiferente a resposta, como faria o gato risonho para Alice só serve a quem não entende onde seu caminho pode dar. E o bolsonarismo já revelou os limites ou a ausência deles. Não cabe mais a ciristas ou jornalistas fingirem não ver.

Forjar um paralelismo entre Lula e Bolsonaro, um ex-presidente que governou por oito anos sem jamais constranger as instituições ou descumprir qualquer ordem judicial, e um atual que desde o primeiro dia de sua posse profere ameaças à democracia e discursos de ódio que estimulam a violência contra membros de outros poderes, opositores e imprensa é relativizar e alimentar o fascismo. Ao trazê-lo para o campo comparável, a narrativa o torna normal e palatável, como se estivéssemos de fato tratando de duas versões de um mesmo problema.

Espera-se que os eleitores verdadeiramente preocupados com o futuro de nossa democracia estejam atentos a esse movimento antes que seja tarde, muito tarde, como diria o lendário Coelho Branco de Alice, e cheguem atrasados para ajudar a defender o país da tirania, nos deixando no buraco.

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