Viva Dona Mariquinha!

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(Foto: Arquivo pessoal)


Grávida de oito meses do décimo filho, com a casa fervilhando de homens tensos, armados de garruchas, espingardas, cravinotes. Esperavam o prefeito, que havia mandado avisar a meu pai que iria ao distrito prendê-lo e tomar o aparelho de alto-falante usado na campanha, aos sábados, dia da feira, no movimento pela construção da escola do Matão. 

O ronco do motor do jipe - único carro da região - surgiu ao longe, foi se aproximando... se aproximando... entrou na pracinha de chão batido e parou em frente a nossa casa. O sol passava da metade da manhã. 

Eu era tão pequeno que precisei me pendurar no batente da janela, ficar na ponta dos pés, para ver, na fresta, a temida cena, que poderia acontecer na praça. Todas as casinhas de portas e janelas fechadas, com o vento assoviando nos telhados.  

O prefeito e dois soldados desceram do jipe. Bateu na porta. Não sabia o que o esperava naquela silenciosa manhã. Quando ele bateu mais forte na porta, o vozerio dos homens tomou conta da casa, e eles se prepararam para reagir. 

De repente ouviu-se um brado: "Fiquem quietos que eu vou resolver essa situação!" Era minha mãe, grávida de oito meses. Os homens obedeceram, se olharam e se aquietaram.

Minha mãe abriu a porta, botou o barrigão na frente. O prefeito, tomado pelo susto, ficou imóvel, com os olhos reféns do olhar daquela mulher. Os dois soldados apontaram os fuzis. Ela disse: "Baixem essas armas que não quero ver desordem na frente da nossa casa!" 

Bateu a mão nos canos dos fuzis e disse mais: "entrem nesse jipe e vão embora agora!" O prefeito, coronel da região, assustado com o inesperado, ordenou aos soldados que entrassem no carro. Sumiram na poeira da praça. Ele nunca mais fez rastro no chão de Mortugaba.

Depois disso, portas e janelas se abriram e o povo saiu de suas casas e ocupou a praça. O alto-falante foi ligado e os discos de carnaúba não pararam de rodar, tocou música até a noite. Foi uma festa.

Essa mulher, que enfrentou o poder local, era "Dona Mariquinha" ou "Dona Lica", minha mãe. Essa da foto, ao lado dos netos: Leandro, meu filho; Kátia e Flávio, filhos do meu irmão Leônidas, o que, naquele dia, estava no ventre dela. 

Mariquinha, foi um apelido dado por amigos amigas. Lica, só meu pai e os netos a chamavam assim. Puro carinho.

Tudo isso porque meu pai, Genésio Cerqueira, junto com comadres e compadres, camponeses como ele, e minha mãe, queriam construir uma escola de adobe. O prefeito não admitia. 

Antes chamada Tabajara, Mortugaba era distrito de Jacaraci, sertão profundo da Bahia. O mesmo de Torto Arado, obra sublime de Itamar Vieira Júnior.

Pais, mães, filhas e filhos, construiriam a escola em mutirão, se cotizariam para pagar professores. Não suportavam mais ver tanta gente nas trevas do analfabetismo. Essa luta se transformou num passo decisivo para a emancipação do distrito, o que acabou acontecendo em 1960.

Hoje, Dia Internacional da Mulher, gostaria de homenagear minha mãe e todas as mulheres do mundo que lutam contra a opressão, por liberdade e justiça, por direitos iguais para todas e todos.

Viva Dona Mariquinha!

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