Viva Nossa Senhora das Travestis!

O jornalista Mauro Lopes, editor do 247 e fundador do canal e site Paz e Bem, escreve para o Jornalistas pela Democracia sobre o episódio da censura e perseguição ao grupo Academia TransLiterária, que teve sua encenção “Coroação de Nossa Senhora das Travestis” proibida na Virada Cultural de Belo Horizonte, no fim de semana; um dos líderes dos ataques às travestis foi o presidente da CNBB, dom Walmor de Azevedo, que tem se alinhado à retórica de Jair Bolsonaro, a quem fez questão de visitar logo depois de sua eleição à entidade dos bispos brasileiro

Imagens de Nossa Senhora dos Travestis e São Sebastião
Imagens de Nossa Senhora dos Travestis e São Sebastião (Foto: Reprodução)

O programa Paz e Bem desta segunda-feira (22) dedicou-se a um grande e caloroso viva a Nossa Senhora das Travestis. O que aconteceu na Virada Cultural de Belo Horizonte no fim da última semana é um dos episódios mais terríveis de censura e perseguição aos mais frágeis deste país, símbolo dos atuais tempos de neofascismo. Pior: a censura e proibição à performance “Coroação de Nossa Senhora das Travestis”, do grupo teatral Academia TransLiterária, teve como um de seus protagonista principais o presidente da CNBB e arcebispo de Belo Horizonte. dom Walmor de Azevedo.

A nota que dom Walmor de Azevedo assina na dupla qualidade de arcebispo de BH e presidente da CNBB exigindo a censura e conclamando os católicos a investirem contra a peça "Nossa Senhora das Travestis" é um dos momentos mais patéticos e trágicos da Igreja Católica no Brasil. A nota de ataque à encenação aproxima mais dom Walmor de Jair Bolsonaro -a quem visitou logo depois de eleito presidente da CNBB, de maneira servil.

Dois trechos da nota:

“Exigimos e esperamos que as autoridades competentes e os organizadores suspendam este evento, por ser incontestável fomento ao preconceito e à discriminação, desrespeito aos valores da fé cristã católica, devendo saber que estão comprometendo, gravemente, a paz e o exigido relacionamento cidadão respeitoso.”

“Católicos , paróquias, instituições católicas, associações, movimentos eclesiais e novas comunidades, todos nós,  manifestemos fortemente, neste momento, para que prevaleça o bom senso, a verdade e a justiça pela paz!”

Sob o argumento de defender "a justiça pela paz" em sua nota, o presidente da CNBB perpetra uma injustiça sem par e conclama os católicos à guerra, a uma "cruzada santa". Faz como Bolsonaro: usa as palavras invertendo completamente seu sentido. Bolsonaro fala em verdade (como dom Walmor em sua carta) e só espalha mentiras; diz que defende o Brasil enquanto entrega o país de graça aos EUA. A retórica de ambos aproxima a CNBB do neofascismo de maneira inédita e lastimável.

Quem assistiu a encenação está indignada e indignado com a proibição. A vereadora do PSOL Cida Falabella, eleita pelo movimento Muitas em Belo Horizonte, testemunha: “Eu já assisti ao espetáculo e, como devota de Nossa Senhora Aparecida, me emocionei. A cena em nada desrespeita Maria, pelo contrário, trata-se de uma homenagem à mãe que em sua bondade e amor infinitos é capaz de acolher, oferecer o colo, conformar-se em território seguro para essas mulheres discriminadas e despojadas de direitos no país que mata travestis como se fossem nada. Repito: eu assisti ao espetáculo. Quantas das pessoas tão indignadas das redes sociais também o fizeram? ‘Vamos queimar vocês, meter bala, jogar ácido’ são algumas das ameaças que o grupo recebeu”.

Publicamos no sábado, no site Paz e Bem, um corajoso artigo do monge Marcelo Barros que sai em defesa dos princípios do cristianismo e solidariza-se com os integrantes do grupo Academia TransLiterária de Belo Horizonte, confrontando a posição oficial da CNBB, numa carta endereçada às artistas:

Um trecho da carta de Marcelo Barros, tocante e cristã:

“Acredito em um Deus que é Amor e em Jesus que nos ensinou que o Pai Amoroso se identifica com os pequeninos e os marginalizados da sociedade do ódio e da exclusão. Peço a Deus em minha oração que um dia os pastores cristãos se situem não como poderosos ao lado dos poderosos do mundo e sim como irmãos e servidores de todos e se solidarizem à travestis e até fiquem contentes quando alguém chamar Maria, mãe de Jesus de ‘Nossa Senhora dos Travestis’”

Dom Walmor levanta a espada contra Nossa Senhora das Travestis. Uma questão ao presidente da CNBB: se há Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora dos Navegantes, Nossa Senhora dos Pobres, entre tantas, qual a razão de não poder haver uma Nossa Senhora das Travestis? Gostaria muito de ler as razões teológicas do veto de dom Walmor. Que condenações ele faz à travestis para negar a elas uma das centenas de imagens de Nossa Senhora. Dom Walmor com sua nota pretende colocar os travestis no “índex”? E depois? Fará o mesmo com os gays, os negros, as mulheres? A nota do presidente da CNBB é muito grave do ponto de vista teológico e de humanidade; é uma peça contra os pilares do cristianismo.

Aqui vale fazer uma referência história. Quando a AIDS era como uma peste a espalhar-se pelo mundo dizimando os gays, nos anos 1980-90, as comunidades gays adotaram São Sebastião como seu santo protetor. Tornou-se comum, especialmente na França, mas depois em diversos países, inclusive no Brasil, a existência de altares com a imagem do santo, nos locais de reunião dos gays e em suas casas. A adoção de São Sebastião como santo protetor dos gays foi, sem dúvida, decorrente de sua representação. Desde o Renascimento, o santo começou a ser retratado como um jovem de físico atlético e seminu e a iconografia cristã de São Sebastião sustenta desde então um ideal homoerótico. Veja na “capa” do programa Paz e Bem desta segunda (22) ao lado de uma representação de Nossa Senhora das Travestis, o quadro “São Sebastião na coluna” (1500), no traço genial de Pietro Perugino.

Naqueles anos, quando a CNBB caminhava com os mais frágeis e sofridos da sociedade, não passou pela cabeça de nenhum presidente das CNBB soltar uma nota contra os gays ou por uma suposta “apropriação” da imagem de São Sebastião. Por sinal, há um sem-número de santos gays na Igreja Católica, como o casal São Sérgio e São Baco, mártires do século 4. 

Quem sabe um dia veremos a hierarquia católica no Brasil retomar os passos originais de seu Mestre? Por enquanto, o que há é a mesma paisagem que São Francisco de Assis vislumbrou: uma igreja em ruínas.

Viva Nossa Senhora das Travestis!

Para encerrar, atendo à solicitação da Academia TransLiterária e reproduzo a oração de Nossa Senhora das Travestis, que integra a encenação. É linda, comovente:

“Nossa Senhora das Travestis, cubra-nos com seu oxó sagrado! Passe o lacre contra todo ataque que possa vir de qualquer marvã. Que eu tenha força pra grudar naqueles que fazem a uó. Aquenta em seus braços meus sonhos para que meu close seja certo. Que nenhuma mapoa ou ocó me olhe torto nas ruas. Dai-me a sabedoria da fechação, que eu, com as beasi abertas, me aquente em seu santo colo. Disa com qualquer curriola e cuida de mim, pois, como filha, sei que nasci daí. VRÁÁÁÁ!"

Viva Nossa Senhora das Travestis!

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