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Fernando Nogueira da Costa

Professor Titular do IE-UNICAMP

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Vivências coletivas

A rua tinha centralidade formadora. As gerações posteriores vivem uma politização mais mediada por telas

Caminhada silenciosa em memória das vítimas da ditadura militar, em São Paulo (Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil)
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Viver presencialmente em turmas de amigos, com vivências coletivas em shows, cinemas, passeatas, comícios, militância em núcleos de base na formação do Partido dos Trabalhadores etc., foi decisivo na formação da mentalidade cultural e politizada de um homem comum, nascido na geração baby boom/'68.

Para muitos brasileiros nascidos no pós-guerra, com juventude entre o fim dos anos 1960 e o início dos anos 1980, a formação política e cultural ocorreu fundamentalmente por meio de experiências coletivas presenciais. Não era apenas adesão intelectual a ideias abstratas. Era socialização histórica vivida em grupo.

Essa dimensão é decisiva para compreender a mentalidade de parte da geração baby boom brasileira. A consciência política não surgia somente da leitura, da universidade, da imprensa ou de doutrinas ideológicas.

Ela emergia de uma ecologia relacional composta de amizades, assembleias, cineclubes, passeatas, festivais, sindicatos, reuniões clandestinas, bares, shows, ocupações estudantis, núcleos partidários, comunidades eclesiais de base e movimentos culturais. O indivíduo descobria o mundo junto com outros.

A experiência coletiva produzia identidade histórica. Participar de uma passeata contra a ditadura, de um show censurado, de uma reunião estudantil, de um comício das Diretas Já ou de um núcleo de formação do Partido dos Trabalhadores não era apenas “atividade política”. Era vivência emocional compartilhada.

Produzia pertencimento, linguagem comum, memória coletiva, solidariedade, percepção de risco político e senso de missão histórica. A política era corporal, porque unia vozes, cantos, medo da repressão político-policial, abraços, discussões intermináveis, panfletagem e convivência cotidiana. Isso criou marcas subjetivas muito profundas.

O PT, inicialmente, foi também uma experiência cultural. A fundação do PT não era apenas enfrentar um desafio eleitoral com um partido próprio ou autêntico dos trabalhadores manuais e intelectuais.

Ele articulava sindicalismo, cristianismo progressista, marxismo de intelectuais, educação popular, movimentos sociais organizados, intelectuais progressistas, cultura popular e associações de bairro. Melhor ainda, brotava de um movimento basista espontâneo.

Eu, por exemplo, quando li no jornal a respeito da intenção de Lula e sindicalistas de criá-lo, em 1979, era um “independente”. Conversei com dois colegas de trabalho no IBGE “organizados”, uma militante da AP e um militante da Convergência Socialista, para convidarmos colegas economistas para uma reunião de discussão a respeito.

Tínhamos uma rede de relacionamentos no Movimento de Renovação dos Economistas, ao participarmos do IERJ – Instituto de Economistas do Rio de Janeiro. Era presidido por Pedro Malan e, depois, pela professora Maria da Conceição Tavares. Meus colegas e eu dávamos cursos de leitura de O Capital, de Karl Marx, lá, para financiarmos o Instituto, depois de vários anos sem essa opção no Rio de Janeiro.

Os núcleos de base do PT funcionavam como espaço de formação, amizade, alfabetização política, sociabilidade popular e experiência democrática concreta. Havia forte dimensão pedagógica por meio da participação em leitura coletiva, debates, formação sindical, análise de conjuntura, produção de jornais e campanhas solidárias.

Muitos homens e mulheres comuns passaram a interpretar sua própria vida em termos do dinheiro ganho em salário e das despesas com transporte e moradia. Passaram a ter consciência da carestia, da desigualdade social e do autoritarismo político como parte de estruturas históricas mais amplas.

A vivência cultural era inseparável da vivência política. Shows, música e militância frequentemente se misturavam. Um show de Milton Nascimento, Chico Buarque, MBP4, Elis Regina e Gonzaguinha podia adquirir atmosfera quase política.

As canções eram interpretadas coletivamente como denúncia, esperança, melancolia histórica e solidariedade geracional. O público não era mero consumidor. Sentia-se participante de uma experiência histórica comum: o combate sociocultural à ditadura militar e a conquista política da democracia eleitoral.

A rua tinha centralidade formadora. As gerações posteriores vivem uma politização mais mediada por telas.

Já para aquela geração, a praça, o campus e os corredores da universidade, o sindicato, o centro acadêmico, o bar, o teatro e o comício eram espaços concretos de formação subjetiva. A campanha das Diretas Já foi o ápice disso. Não me esqueço da emoção de ter estado na multidão reunida na Avenida Afonso Pena, em Belo Horizonte, e na Avenida Presidente Vargas, no Rio de Janeiro!

Milhões de pessoas nos comícios da campanha Diretas Já sentiram fisicamente a multidão, a emoção coletiva, a esperança democrática e a sensação de participação histórica. Isso transforma memória política em experiência existencial.

A formação era também afetiva. Muito da politização daquela geração passou pelo amor, pela amizade, pela descoberta sexual, pela vida boêmia e pela convivência intensa.

Separei-me de minha primeira esposa naquela época intensa de vida libertária. Conheci minha companheira, há 42 anos, quando ela atuava como fiscal do Partido dos Trabalhadores em sua primeira eleição, em 1982. Flertávamos nos comícios na Cinelândia até decidirmos namorar e viver juntos na virada de 1983 para 1984.

Política e vida privada ainda não estavam totalmente separadas. As relações pessoais eram atravessadas por utopia, discussões ideológicas, transformação comportamental, feminismo, crítica moral e experimentação cultural.

O “homem comum”, como eu, foi politizado. Talvez o aspecto mais importante seja este: aquela época permitiu que pessoas sem origem oligárquica ou formação acadêmica tradicional se sentissem participantes da história nacional.

Metalúrgicos, professores, bancários, estudantes, jornalistas, funcionários públicos e trabalhadores urbanos passaram a falar em público, organizar reuniões, escrever em jornais alternativos, interpretar conjunturas e disputar projetos de país. Isso produziu forte democratização da palavra pública.

Há diferença em relação ao presente. Hoje existe enorme acesso à informação, circulação digital e multiplicação de vozes. Mas sentimos menor densidade na convivência coletiva, fragmentação política, individualização, sociabilidade mediada por algoritmos e menor continuidade organizativa.

A geração formada presencialmente viveu algo difícil de reproduzir digitalmente: uma fusão intensa entre experiência coletiva, cultura, amizade e transformação histórica percebida em tempo real.

Por isso, muitos indivíduos daquela geração guardam a sensação duradoura de terem participado não apenas de acontecimentos políticos, mas de uma verdadeira comunidade histórica de formação humana.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.