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Miguel Paiva

Miguel Paiva é chargista e jornalista, criador de vários personagens e hoje faz parte do coletivo Jornalistas Pela Democracia

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Viver é perigoso

Ou mudamos o rumo da prosa ou não vamos mais ter prosa, nem verso, nem música para os ouvidos, nem paz, nem inútil paisagem para se contemplar

(Foto: Miguel Paiva )
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Andando pelas ruas do Rio de Janeiro, além da paisagem de tirar o fôlego, você vê muitos veículos circulando, carros, ônibus, caminhões, caminhões de caçamba, vans, motos e bicicletas elétricas que aos poucos vão substituindo as tradicionais. É difícil circular pela cidade. As bikes não conseguem andar nas ruas por ameaça constante de atropelamento e nas calçadas não me parece justo com os pedestres. Mas é o que resta. As motos e as bikes não obedecem ao sinal vermelho. Muitos carros também não e avançam no amarelo como se ele quisesse dizer, passar rapidinho que vai fechar.

É uma selva, realmente. Mas também não é para menos. Um país que optou pela indústria automobilística em detrimento das ferrovias, pelo uso do asfalto ao invés dos trilhos e onde o transporte público é tão maltratado normal que tantos automóveis poluam as ruas das cidades. No Rio e em outras cidades do Brasil o abandono é enorme. Prefeitos e governadores só trabalham em obras de impacto que geram ou votos ou dinheiro. Os velhos guardas de trânsito sumiram. Outro dia chamei a atenção de dois PMS que estavam na esquina sobre um carro que tinha acabado de avançar o sinal. Eles olharam pra mim de um jeito que achei melhor seguir viagem. A filosofia atual que foi incrementada nos últimos anos pelo governo Bolsonaro foi a do vale- tudo, do salve-se quem puder e do sou mais eu. Se você reclama corre o risco de apanhar ou morrer.

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Isso vem acompanhado de um barulho constante e ensurdecedor estimulado também pela falta de fiscalização. Motos com escapamento aberto (elas alegam que precisam fazer barulho para serem percebidas) kombis aos berros catando ferro-velho ou vendendo camarão cinza e caçambas sendo despejadas nas ruas a qualquer hora sem preocupação. Esta é a Cidade Maravilhosa. O pior é que podia ser muito mais maravilhosa.

Se você parar de olhar para as ruas vai ver também que tem muita gente circulando. Gente demais, gente pra lá e pra cá tentando sobreviver, é claro. O trabalho fixo com a carteira assinada está acabando. Os locais de trabalho, os famosos escritórios estão sumindo. O centro do Rio é uma cidade fantasma, mas as ruas estão cheias. O serviço terceirizado tomou conta e os bicos substituem o trabalho com carteira.

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Este é o país que Lula encontrou e que vai tentar melhorar. Enquanto isso o povo circula pelas ruas. Andar de bicicleta entre eles é um risco, como eu disse antes. Além da calçada ser o lugar do pedestre, eles andam olhando para os celulares o tempo todo. Percebi também que ficam nas telas dos joguinhos ou do tik-tok. Se você não gritar, mesmo caminhando, periga atropelar um deles. Os celulares tomaram conta e substituíram os olhares. Ninguém mais olha para ninguém. Seu primeiro olhar é para a tela, o segundo para a frente antes de se chocar com um poste. Não é pra menos. As pessoas ficaram cada dia menos coletivas e mais individualistas. O olhar para o celular significa que você não está olhando para o lado, para o outro. O outro que se dane. Estamos criando uma sociedade egoísta, solitária, motorizada e perigosa.

Ou mudamos o rumo da prosa ou não vamos mais ter prosa, nem verso, nem música para os ouvidos, nem paz, nem inútil paisagem para se contemplar. Para isso é preciso retomar a administração das cidades, dar trabalho para o pessoal, estimular os relacionamentos e a afetividade, eliminar para sempre a ideologia da violência e tentar estabelecer que o melhor caminho para ser feliz é ser feliz, assim, difícil, mas simples como um céu azul.

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