Volta pra Terra, Osmar

O deputado não considera os múltiplos fatores que envolvem a imunização de uma população geneticamente diferente. Expor indivíduos ao vírus terá um custo elevado. Isso significa colocá-los em contato com variantes diferentes do SARS-Cov-2 e, obviamente, a resposta destes indivíduos não será a mesma

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Chama atenção, nos últimos dias, o esforço que o deputado Osmar Terra tem empreendido para relativizar a pandemia da COVID-19. Para ele vale a pena assumirmos o risco de um isolamento vertical, mesmo que isso custasse vidas. Seu argumento se baseia no fato de que todas as viroses tem uma curva natural e que os efeitos de um isolamento apenas dos grupos de risco, se converteria em resultado semelhante ao atual, quando se trata do número de óbitos.

Para Terra, todo este esforço é um grande equívoco. O médico desinforma ao fazer afirmações inconsequentes e erradas sobre a disseminação do vírus em meio à crise sanitária que estamos atravessando. As infecções possuem uma curva natural, sim, mas que pode ser afetada pela adoção de boas práticas de higiene e pela restrição da circulação das pessoas. Terra parece desconhecer estratégias biopolíticas utilizadas pelos governos desde, pelo menos, o século XVIII.

Além disso, não considera o quão pouco conhecemos sobre o vírus. Estamos ainda tentando desvendar sua genética e seus mecanismos de infecção. Não conhecemos a fundo suas variantes e, tampouco, conhecemos sua taxa de mutação - um dos fatores determinantes quando se trata de analisar sua disseminação; que impactará diretamente sobre o aumento do número de infecções e mortes.

O deputado não considera os múltiplos fatores que envolvem a imunização de uma população geneticamente diferente. Expor indivíduos ao vírus terá um custo elevado. Isso significa colocá-los em contato com variantes diferentes do SARS-Cov-2 e, obviamente, a resposta destes indivíduos não será a mesma. Muitos morrerão, alguns viverão e, isto não acontecerá sem antes, um número significativo destes ocupar leitos e respiradores de nosso sistema público de saúde, sobrecarregando-o.

Terra mistura alhos com bugalhos. Sua livre opinião consiste em uma interpretação dos fatos sem nenhum embasamento científico. Recorta pedaços de artigos que parece não ler e falsifica a informação. Ao agir assim demonstra sua falta de compromisso não apenas com a ciência, mas com a população que ainda crê no deputado que se vale do status de figura pública para  disseminar o erro.

É interessante observar como age o nosso futurólogo da pandemia. Com o passar do tempo vai modificando suas teses, dizendo que tudo o que está acontecendo havia sido previsto por ele em um claro e desesperador esforço de, ainda, tentar conseguir passar alguma credibilidade. O que Terra precisa fazer é aterrisar, abandonar o mundo da lua e fazer uma leitura do cenário da pandemia no mundo real; a começar por ler os artigos com resultados de pesquisas que estão sendo desenvolvidas nas melhores universidades do mundo, algumas delas brasileiras.

Em um momento onde o mundo se une contra o coronavírus, não podemos dar palco para os arautos da normalidade em meio à crise. Normalizá-la consiste em uma estratégia necropolítica nefasta que se impõe aos mais pobres. Aqueles que estão nas ruas, que dependem da aglomeração dos transportes públicos e que voltarão para o trabalho e para suas casas correndo o risco de contaminar seus colegas e familiares.

Ao defender a imunização de rebanho – nesse momento da pandemia e com aquilo que ainda não conhecemos sobre vírus –, Terra pensa como o gado. Não é à toa que faz sucesso entre eles, a começar pelo presidente da República.

O conhecimento liberta. Saiba mais

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