Votar no PT é coisa para loucos

Ao contrário do que imaginam esses cidadãos, não só o PT não tem a exclusividade da corrupção como também, em termos de valores, os petistas são aprendizes diante, por exemplo, da bandalheira das privatizações da era FHC

Com Dilma, Lula e Mujica, PT celebra 35 anos de fundação em BH Presidente Dilma, Lula, José Mujica e Pimentel foram ovacionados. Foto: Ricardo Stuckert / Instituto Lula
Com Dilma, Lula e Mujica, PT celebra 35 anos de fundação em BH Presidente Dilma, Lula, José Mujica e Pimentel foram ovacionados. Foto: Ricardo Stuckert / Instituto Lula (Foto: Reinaldo Del Dotore)

Esta é, em resumo, a reação com a qual me deparo sempre que comento que, não obstante os óbvios problemas que enfrentamos, devo continuar votando em candidatos do PT. Essa escolha, a despeito dos pruridos de meus interlocutores, é a mais lógica para quem, como eu, estabelece como ideal um Estado de viés social-democrata em contraposição, por um lado, à direita neoliberal (que quase nunca admite se reconhecer como direita que é), e, por outro, à esquerda radical extemporânea (que muitas vezes, quando consegue assumir a titularidade da caneta, age como a centro-esquerda que tanto critica).

Em primeiro lugar é preciso descartar de plano os argumentos moralistas que têm proliferado, no sentido de se rejeitar o PT em função de uma suposta exclusividade no quesito corrupção, ou ainda, de, na compreensão da inexistência dessa fantasiosa exclusividade, de uma hipotética primazia em termos de "prevalência" da corrupção. Nada mais equivocado. Cidadãos que se apegam a esse tipo de argumento -a maioria agindo de boa fé- são mal informados, pois obtêm suas informações exclusivamente a partir de empresas jornalísticas que têm insofismável interesse na inviabilização do PT.

Cabe lembrar que em 2003, quando Lula assumiu o poder, passou a diluir a destinação da milionária verba publicitária do governo federal, que até então era distribuída entre cerca de 400 veículos de mídia e passou a ser investida em mais de 8000 - e este fato por si já explica o ódio mortal que as grandes redes de comunicação têm quanto ao PT: como diria Bill Clinton, "É a grana, estúpido!".

Ao contrário do que imaginam esses cidadãos, não só o PT não tem a exclusividade da corrupção como também, em termos de valores, os petistas são aprendizes diante, por exemplo, da bandalheira das privatizações da era FHC. Escândalos bilionários envolvendo próceres peessedebistas são diligentemente ocultados pela "grande mídia", e não chegam ao conhecimento desses cidadãos, que assumem como expressão da verdade o que é veiculado nos telejornais e não se anima a procurar informações alternativas.

Ultrapassado o insubsistente argumento moral, cabe analisar a questão sob o ponto de vista ideológico, aqui entendidas especialmente as propostas e ações de caráter social e econômico.

Hoje temos um partido no poder, o PT, que em termos econômicos pode ser classificado como centro-direita e, no tocante a políticas sociais, como centro-esquerda. Essa esquizofrenia é relativamente recente, e foi bastante intensificada neste início de segundo mandato de Dilma. Quanto à questão social, é cristalino, até mesmo para organizações e personalidades internacionais entre as mais sérias e respeitadas, que o PT no poder operou uma mudança de paradigmas. Os governos Lula e boa parte do primeiro governo Dilma fizeram uma inflexão (ainda que, a meu ver, parcial e insuficiente) no sentido da priorização do social. Números não mentem, e a evolução, nos últimos treze anos, de indicadores relacionados a diversos fatores de cunho social corroboram essa afirmação. Já na questão econômica, houve, nos últimos meses, uma outra inflexão, esta negativa, em direção a ditames propagados por correntes econômicas cuja aplicação sistemática nos últimos anos destruiu as economias de vários países europeus e colocou em risco gigantes como os EUA e o Japão.

Dilma, aparentemente encantada pelo canto da sereia do neoliberalismo entoado por seu principal ministro (que nas horas vagas defende os interesses de bancos), tomou esse rumo temerário, e o malfadado "ajuste fiscal", como têm ocorrido desde sempre, é suportado pelas classes menos favorecidas e pela classe média, poupando os habitantes do topo da nossa pirâmide social. Ocorre que esta situação, esse desvio negativo no campo econômico, tende a sofrer fortes pressões de setores populares que, em última análise, são a base eleitoral do próprio PT. Assim, é certo que medidas ainda mais draconianas (e desastrosas) que sem dúvida chegaram a ser propostas, foram descartadas diante dessa constante pressão social à qual o partido é sensível, ainda que eventualmente por puro pragmatismo.

No limite, a depender do andar da carruagem econômica e da exacerbação dessas pressões, a própria lógica neo-neoliberal pode ser revista. Desnecessário comentar que num hipotético governo tocado pela oposição tucana essas pressões sociais seriam solenemente ignoradas e o viés neoliberal da condução econômica seria muito mais profundo, com reflexos claros nas políticas sociais que seriam em grande parte desmanteladas.

Em suma: há no poder, por um lado, um partido de centro-esquerda no âmbito social e de centro-direita no econômico, estando esse último viés sob constante pressão, havendo perspectiva de retomada futura de rumos. A única alternativa eleitoralmente viável na oposição é representada pelo PSDB, um partido que pode ser classificado como partido de direita nos dois aspectos e que jamais seria sensível a qualquer pressão popular. Eis por que digo e repito: para mim, por enquanto, é PT novamente. Se a política é tida como "a arte do possível", eu jamais trocaria o possível pelo improvável.

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