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Paulo Guedes

Deputado federal em segundo mandato e ex-presidente da Comissão de Tributação e Finanças da Câmara dos Deputados. Exerceu três mandatos na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (2007-2019). Exerceu ainda o cargo de coordenador estadual do Dnocs (2003) e secretário de Desenvolvimento e Integração do Norte e Nordeste de Minas Gerais (2015)

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Voto capturado por paraquedista não tem volta

Cada voto desviado para um candidato “estrangeiro” é um tijolo a menos nas obras que tanto precisamos.

Urna eletrônica (Foto: Antonio Augusto/Ascom/TSE)

Novamente, o eleitor norte-mineiro avista a revoada de paraquedistas que sobrevoam nossa região a cada ciclo eleitoral. É a repetição incansável de espetáculo degradante para os interesses do nosso povo: a invasão de figuras que nunca pisaram em nossa poeira, mas que, bancados por estruturas financeiras milionárias, aparecem do nada para tentar comprar a esperança do nosso eleitor com promessas que jamais serão honradas, ainda que saiam vitoriosos no pleito.

Desde que iniciei minha vida pública, participei de pelo menos 13 eleições —oito delas na condição de candidato— e posso dizer que aprendi algo importante sobre política: essencialmente, é uma atividade que só se justifica pela proximidade e o pertencimento.

Nenhum deputado vai representar dignamente aquilo que não conhece. Sem os laços de pertencimento e presença, nenhum deputado "Copa do Mundo" saberá ecoar a voz do povo norte-mineiro nos fóruns de interesse. Até porque, apurada a última urna, eles vão prestar contas aos seus verdadeiros patrões —os grupos de interesse que patrocinaram suas campanhas.

O caso que melhor ilustra o dano que o paraquedista causa para os interesses da região é o do deputado Nikolas Ferreira nas eleições de 2022. Sem nenhum trabalho prévio em favor de Montes Claros, Nikolas levou 22,6 mil votos do município naquela eleição. O deputado bolsonarista tem pouco a mostrar e dizer a esses eleitores.

Nikolas representa um novo tipo do coronel na política: o dono do curral eleitoral eletrônico, que conquista o cidadão desatento com mentiras e posições extremistas que nada têm em comum com as carências e as dores do povo norte-mineiro. 

Da farta mesa do deputado mais votado em Minas e no Brasil, só sobrou a migalha de R$ 200 mil para o hospital particular de um dos homens mais ricos da região.       

Os cerca de 150 municípios que compõem as regiões Norte de Minas e Vale do Jequitinhonha lutam bravamente contra a escassez de recursos e o esquecimento secular por parte dos governos estadual e federal. Não podemos mais servir apenas de curral eleitoral para aventureiros que nada têm a oferecer.

Essa prática é, acima de tudo, nefasta para o desenvolvimento regional. Quando a eleição termina, esse político retorna para suas bases ricas, para as capitais ou para suas regiões de origem, e os nossos municípios ficam desamparados.

É fácil entender que, muitas vezes pressionado pelas carências do dia a dia, o eleitor se torna presa fácil para os forasteiros sorridentes e os capangas que compram a preço de ouro para negociar os votos regionais. Suas promessas vãs são embrulhadas em benefícios imediatistas.

O que muitos não percebem é que o voto dado a um candidato de fora é o caminho mais curto para que o eleitor se torne um cidadão órfão, sem representação na Assembleia Legislativa e no Congresso Nacional.

Com o fortalecimento das emendas parlamentares e o poder direto de envio de recursos, o orçamento de um município pequeno muitas vezes só consegue fôlego extra através da caneta de um deputado comprometido com as suas causas e conhecedor das dores do seu povo. 

O cálculo é simples e cruel: um município que não tem um representante “da terra” para chamar de seu, terá imensa dificuldade em garantir uma ambulância nova, o custeio da UBS ou hospital, apoio à agricultura familiar e manutenção da malha vicinal, e por aí vai.

A representação política não se encerra no aperto de mão ou no santinho entregue na feira. Ela acontece já no dia seguinte, na capacidade que o cidadão tem de bater à porta do escritório do deputado e cobrar o que foi prometido.

Como é possível cobrar de quem você não conhece e só viu uma única vez na vida? Ou nem isso? Como exigir compromisso de quem não tem raízes com a nossa cultura e nada sabe sobre nossa história e lutas?

Como esperar que alguém que só vê nossa região como um número em uma planilha de votos vai atuar em favor das nossas carências lá em Belo Horizonte ou Brasília?

Priorizar candidatos da nossa região não é uma questão de bairrismo, é uma questão de estratégia e sobrevivência. É escolher alguém que compartilha do mesmo destino que o seu.

Vamos começar mais um momento decisivo de disputa eleitoral e cada um de nós é responsável por impedir que a sub-representação no Congresso e na Assembleia Legislativa se perpetue. 

Cada voto desviado para um candidato “estrangeiro” é um tijolo a menos nas obras que tanto precisamos.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.