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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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Washington e Teerã diante do abismo estratégico

Especialistas alertam que confronto direto provocaria crise humanitária massiva, bloqueio energético no Estreito de Ormuz e instabilidade internacional

Uma miniatura impressa em 3D do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e a bandeira do Irã são vistas nesta ilustração feita em 9 de janeiro de 2026 (Foto: REUTERS/Dado Ruvic/Ilustração/Foto de arquivo.)

As negociações nucleares entre Estados Unidos e Irã, retomadas em 26 e 27 de fevereiro de 2026, em Genebra, não são apenas mais uma rodada diplomática num conflito prolongado. São, possivelmente, o último dique antes de uma inundação geopolítica que vem sendo anunciada há mais de uma década. Desde a saída unilateral de Washington do acordo nuclear de 2015, em 2018, o relógio estratégico nunca mais parou de marcar risco.

A terceira rodada de conversas deste ano foi mediada por Omã e descrita pelo chanceler omanense Badr al-Busaidi como séria e construtiva, ainda que sem acordo conclusivo. As delegações concordaram em manter negociações técnicas em Viena, sob monitoramento indireto da Agência Internacional de Energia Atômica. O ponto central permanece inalterado: limites verificáveis ao enriquecimento de urânio iraniano — hoje em níveis que, segundo relatórios recentes da AIEA, alcançam até 60% de pureza — e um cronograma claro para suspensão de sanções econômicas que asfixiam a economia iraniana.

O presidente Donald Trump, em discurso sobre o Estado da União em 24 de fevereiro de 2026, elevou o tom ao afirmar que o Irã não terá armas nucleares e que espera decisões rápidas. A frase foi interpretada por analistas como um ultimato velado. Teerã respondeu reafirmando que seu programa nuclear tem fins civis e que não negociará sob ameaça militar. Entre as duas posições, acumulam-se forças navais americanas no Golfo Pérsico — uma das maiores mobilizações dos últimos anos — enquanto o Irã reforça sua retórica de dissuasão.

Especialistas do Council on Foreign Relations e do International Crisis Group alertam que uma guerra direta entre Estados Unidos e Irã teria consequências muito além de ataques pontuais. Simulações estratégicas indicam que, nas primeiras semanas, poderiam ocorrer dezenas de milhares de mortes, especialmente se instalações energéticas, centros urbanos e bases militares forem alvos simultâneos. O precedente mais recente — confrontos regionais que deixaram quase mil mortos em poucos dias no Oriente Médio — demonstra como conflitos localizados rapidamente transbordam. 

Mas, atenção: O que está em discussão não é um embate cirúrgico, mas a possibilidade concreta de um teatro de guerra ampliado, com envolvimento de milícias aliadas, ataques a infraestruturas críticas e reação em cadeia que arrastaria Líbano, Iraque, Síria e possivelmente Israel para uma espiral militar de difícil contenção. A escalada não seria linear; seria cumulativa, imprevisível e letal.

Os custos financeiros seriam igualmente devastadores. O projeto Costs of War, da Universidade Brown, estima que os conflitos dos Estados Unidos no Oriente Médio desde 2001 já ultrapassaram US$ 8 trilhões, considerando gastos diretos e juros futuros. Um confronto aberto com o Irã, potência regional com capacidade de mísseis balísticos e influência em múltiplos teatros de conflito, poderia acrescentar trilhões adicionais ao orçamento americano. 

Para o Irã, já pressionado por sanções, a destruição de infraestrutura energética e industrial representaria retração econômica de proporções históricas.

Há ainda o fator energético global. O Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo, tornar-se-ia epicentro de instabilidade imediata. 

Qualquer bloqueio, ainda que parcial, poderia disparar preços internacionais do petróleo, reacender inflação global e mergulhar economias frágeis em recessão. O efeito dominó alcançaria desde mercados emergentes dependentes de importação até grandes economias industrializadas.

A Organização das Nações Unidas tem reiterado o alerta. O secretário-geral António Guterres declarou recentemente que “não há solução militar para as grandes crises do nosso tempo” e que uma escalada no Golfo teria “consequências catastróficas para civis e para a estabilidade internacional”. Ao longo dos 80 anos da ONU, essa tem sido a advertência mais constante: guerras começam com discursos e terminam com funerais. 

Essa visão encontra eco numa reflexão histórica de Shoghi Effendi (1897-1957), falecido há 69 anos em Londres e considerado por muitos o mais lúcido pensador de nosso tempo, que advertiu que “a humanidade, aflita e desorientada, necessita do remédio da unidade — e somente por meio dela encontrará segurança duradoura”. A frase não é uma abstração devocional; é um diagnóstico político. Quando a humanidade se fragmenta em blocos hostis, quando a diplomacia é substituída por ameaças públicas e quando o cálculo militar suplanta o cálculo humano, instala-se exatamente essa desorientação descrita por Shoghi Effendi. Concordar com essa advertência é reconhecer que a segurança sustentável não nasce da supremacia bélica, mas da arquitetura de cooperação entre nações.

Na mesma linha, a Casa Universal de Justiça afirmou de maneira categórica que “a paz mundial não é apenas possível, é inevitável”. Essa declaração, longe de ser ingenuidade, traduz uma convicção histórica: a interdependência global tornou a guerra estruturalmente insustentável como método de organização do sistema internacional. 

Em um mundo conectado por cadeias de suprimento, fluxos energéticos, tecnologia e informação instantânea, qualquer conflito de grande escala atinge inclusive aqueles que acreditam poder controlá-lo. 

E mostra-se que cada vez mais evidente que a inevitabilidade da paz não significa ausência de conflitos, mas o reconhecimento de que a própria sobrevivência coletiva exigirá, mais cedo ou mais tarde, mecanismos globais mais eficazes de governança e resolução de disputas.

Uma guerra entre Washington e Teerã não seria cirúrgica, nem breve. Seria uma engrenagem de retaliações sucessivas, com mísseis cruzando céus congestionados de medo e cidades vivendo sob sirenes permanentes. Hospitais perderiam energia, cadeias de suprimento colapsariam, milhões poderiam ser deslocados. A guerra moderna não constrói vitórias duradouras; constrói cemitérios humanos com eficiência industrial.

É nesse contexto que Genebra deixa de ser apenas geografia diplomática e passa a ser metáfora de sobrevivência. 

Cada vírgula negociada, cada percentual discutido no enriquecimento de urânio, pode representar milhares de vidas poupadas. A diplomacia é lenta, imperfeita, muitas vezes frustrante — mas continua sendo o único instrumento racional capaz de impedir que o século XXI acrescente mais uma guerra estrutural à sua já pesada contabilidade de mortos. 

Se as negociações fracassarem, não será apenas um acordo que ruirá. Será a decisão consciente de substituir cálculo político por devastação mensurável, de trocar protocolos por crateras, de aceitar que populações inteiras paguem com o próprio corpo pela incapacidade de seus líderes de sustentar o diálogo. A história não registrará apenas datas e tratados rompidos; registrará números de mortos, cidades aniquiladas e destruídas, além de gerações marcadas por um trauma evitável.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.