“A forma como criamos animais pode definir a próxima pandemia”, alerta pesquisadora
Saúde Única expõe os riscos da pecuária intensiva, do uso excessivo de antibióticos e dos sistemas alimentares insustentáveis
Beatriz Bevilaqua, 247 - Cada vez mais presente no debate científico e nas políticas públicas globais, o conceito de “Saúde Única” propõe uma abordagem integrada entre saúde humana, animal e ambiental para enfrentar desafios como novas pandemias e a resistência antimicrobiana. Apesar de ainda pouco difundido fora dos círculos écnicos, os dados são contundentes: 60% das doenças que afetam os humanos são zoonoses, e cerca de 75% dos antibióticos vendidos no mundo são destinados à pecuária, enquanto apenas 25% são usados diretamente por pessoas.
Esses números e suas consequências foram o centro da entrevista concedida no programa “Brasil Sustentável”, da TV 247, com a pesquisadora e PhD Ana Paula Souza, integrante da Alianima, organização sem fins lucrativos dedicada ao bem-estar de animais das cadeias produtivas. A conversa lançou luz sobre como os modelos atuais de produção de alimentos impactam diretamente a saúde coletiva e o futuro do planeta.
Com quase 25 anos de atuação, Ana Paula iniciou sua carreira na indústria avícola, trabalhando diretamente em abatedouros de frango, com foco em segurança e qualidade dos alimentos de origem animal. Atuou também como auditora de certificações internacionais, em um período em que o Brasil se consolidava como um dos maiores exportadores de carne de frango do mundo.
Foi apenas anos depois, segundo ela, que o bem-estar animal passou a ocupar um lugar central em sua trajetória profissional. “Na época da faculdade, quase não se falava disso. Mas comecei a perceber que os problemas que eu monitorava eram sempre consequências de sistemas que não promoviam qualidade de vida aos animais”, explica.
Esse incômodo a levou de volta à universidade, onde realizou mestrado e doutorado com foco no bem-estar de frangos de corte. “O problema não é o consumo da carne em si, mas a forma como os animais são criados, medicados e confinados”, afirma. Embora doenças como a gripe aviária não sejam transmitidas pelo consumo de carne devidamente cozida, os sistemas intensivos de produção aumentam a circulação de patógenos e a necessidade de antibióticos.
Segundo a pesquisadora, durante décadas esses medicamentos foram usados não apenas para tratar doenças, mas também de forma preventiva e como promotores de crescimento, em doses baixas e contínuas. “Isso cria um ambiente ideal para o surgimento de bactérias resistentes, que depois chegam até os seres humanos por meio dos alimentos”, alerta.
Quando os animais são abatidos antes do período de carência, os resíduos desses antimicrobianos permanecem na carne, contribuindo para um problema global de saúde pública: a resistência antimicrobiana, considerada pela Organização Mundial da Saúde uma das maiores ameaças do século.
Sustentabilidade não pode excluir os animais
Ao conectar o tema à crise climática, Ana Paula é categórica em afirmar que não há sustentabilidade possível sem incluir o bem-estar animal. “Se um alimento é produzido à custa de degradação ambiental, sofrimento animal ou trabalho análogo à escravidão, ele não é sustentável”, afirma.
Ela lembra que eventos climáticos extremos como ondas de calor, apagões elétricos e escassez hídrica impactam diretamente granjas e confinamentos, onde milhares de animais dependem de ventilação, água e energia para sobreviver. “A produção animal também sofre com as mudanças climáticas, e isso precisa entrar no debate público”, reforça.
Para a pesquisadora, o futuro passa por repensar padrões de consumo. “Não se trata de parar de comer carne do dia para a noite, mas de consumir com mais responsabilidade.” Dados da ONU indicam que, se toda a população mundial adotasse o padrão de consumo médio dos Estados Unidos, seriam necessários cinco planetas Terra para sustentar esse modelo.
Ana Paula destaca que a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda cerca de 70 gramas de carne por dia, o que abre espaço para uma alimentação mais diversa, com leguminosas, ovos, vegetais e produtos regionais. “Desembalar menos e descascar mais não é militância, é sobrevivência”, resume.
Nesse contexto, as políticas públicas são decisivas. No Brasil, o debate avança por meio do Comitê Técnico Interinstitucional de Uma Só Saúde, coordenado pelo Ministério da Saúde, que reúne 20 órgãos e entidades, entre elas, a Alianima, para implementar o Plano de Ação Nacional de Saúde Única.
Diferente de abordagens baseadas em campanhas punitivas, a Alianima atua de forma técnica e colaborativa, dialogando diretamente com empresas da cadeia produtiva. A ONG reúne especialistas com mestrado, doutorado e pós-doutorado e monitora cadeias como frangos de corte, galinhas poedeiras, suínos e peixes.
Por meio do Observatório Animal, a organização acompanha compromissos públicos assumidos por empresas, como o fim do uso de gaiolas para galinhas poedeiras e das celas de gestação para porcas. “Animais menos estressados adoecem menos, exigem menos antibióticos e resultam em uma produção mais saudável para todos”, afirma Ana Paula.
Ao longo da entrevista, a pesquisadora reforça que crises sanitárias, ambientais e alimentares não podem mais ser tratadas de forma isolada. “Quando cuidamos dos animais e do ambiente, estamos cuidando também da saúde humana”, conclui.
Em um mundo marcado por emergências climáticas, insegurança alimentar e novas ameaças pandêmicas, a Saúde Única deixa de ser apenas um conceito técnico para se tornar um imperativo civilizatório.
Assista na íntegra aqui:
