“Agricultura regenerativa é a única saída para a crise climática no campo”, diz instituto
Eventos extremos expõem limites do modelo atual e aceleram a busca por práticas sustentáveis no agronegócio brasileiro
Beatriz Bevilaqua, 247 - O agronegócio brasileiro bateu recordes históricos em 2025. Com exportações que ultrapassaram os 169 bilhões de dólares, o setor consolidou o Brasil como um dos maiores fornecedores globais de alimentos, tendo China, União Europeia e Estados Unidos entre seus principais parceiros comerciais. Ao mesmo tempo, é justamente esse modelo produtivo que concentra parte significativa das pressões ambientais no país, como desmatamento, queimadas, contaminação do solo, uso intensivo de agrotóxicos e avanço da monocultura.
Como conciliar produção em larga escala, segurança alimentar e responsabilidade socioambiental em um cenário de crise climática cada vez mais intensa? Para discutir essas contradições e possibilidades, o programa “Brasil Sustentável, na TV 247, entrevistou Eduardo Trevisan, engenheiro agrônomo e diretor de ESG e Certificações do Imaflora, instituto que há três décadas atua no fortalecimento de cadeias agropecuárias e florestais sustentáveis no Brasil.
“Acreditamos que o setor pode ser um aliado da conservação ambiental e da produção de alimentos seguros e saudáveis para a sociedade”, afirma Trevisan. Segundo ele, embora parte do setor ainda esteja dissociada das pautas socioambientais, há produtores e empresas interessados em construir modelos produtivos que dialoguem com a preservação da natureza.
A crise climática e a imprevisibilidade no campo
As mudanças climáticas já impactam diretamente a produção agrícola no Brasil. Eventos extremos como enchentes no Sul, secas prolongadas no Nordeste, queimadas no Norte e geadas fora de época em regiões como o Cerrado Mineiro vêm alterando o calendário agrícola e aumentando os riscos para produtores rurais.
“A agricultura é uma fábrica a céu aberto, e o clima é o principal fator de risco”, explica Trevisan. Segundo ele, produtores mais experientes relatam que, décadas atrás, havia maior previsibilidade das estações, das chuvas e das secas. Hoje, essa lógica foi quebrada. “A data de plantio muda, a chuva atrasa, o risco aumenta. Isso afeta desde grandes produtores até a agricultura familiar.”
Apesar das adversidades, o Brasil conseguiu manter superávits importantes, o que revela, ao mesmo tempo, a resiliência do setor e a urgência de adaptação. Para Trevisan, o momento exige investimentos em práticas mais sustentáveis, capazes de reduzir riscos e aumentar a resiliência dos sistemas produtivos.
Uma das marcas do trabalho do Imaflora é atuar em múltiplas escalas. O instituto desenvolve projetos tanto com grandes produtores de commodities, como soja e café, quanto com agricultores familiares, comunidades indígenas e quilombolas.
No caso dos pequenos produtores, o foco está na assistência técnica, no acesso à informação e na diversificação de renda. Projetos como o Cacau 2030, desenvolvido em parceria com a Fundação Mundial do Cacau, oferece apoio técnico a agricultores familiares no sul da Bahia, no Pará e no Espírito Santo, com mudas mais resistentes, melhor qualidade genética e práticas de manejo mais sustentáveis.
Na Amazônia, o instituto atua com cadeias como o guaraná, a castanha-do-brasil e óleos vegetais, em regiões de difícil acesso. “Estamos falando de produtores que, muitas vezes, não tiveram acesso à alfabetização formal. Nosso trabalho passa por ensinar desde práticas básicas de manejo até estratégias de armazenamento e comercialização”, relata Trevisan.
Com povos indígenas e comunidades quilombolas, o Imaflora desenvolve programas como Florestas de Valor e Origens, voltados ao extrativismo sustentável e à valorização econômica dos produtos da sociobiodiversidade. A lógica é fortalecer a renda local sem romper com a floresta em pé, incentivando a diversificação econômica e reduzindo a dependência de uma única atividade.
Agricultura regenerativa e o papel do consumidor
Ao abordar temas sensíveis como transgênicos, uso de agrotóxicos e impactos no solo, Trevisan destaca que não há soluções simples. Ele defende que é possível reduzir impactos ambientais mesmo em sistemas convencionais, por meio de práticas como o plantio direto, a redução de insumos químicos e o uso de tecnologias desenvolvidas por instituições públicas como a Embrapa.
Ainda assim, aponta a agricultura regenerativa como um caminho estratégico para aumentar a resiliência climática e ecológica da produção. Nesse processo, o consumidor também tem papel central. “Buscar produtos com certificações confiáveis, selos socioambientais, comércio justo ou produção orgânica é uma forma concreta de fortalecer quem está fazendo diferente”, afirma.
Outra alternativa, segundo ele, é o consumo direto de produtores locais, por meio de feiras, cestas agroecológicas e redes de economia solidária. “Quando você escolhe um produto certificado ou conhece quem produz, está ajudando a criar e fortalecer um mercado mais responsável.”
Em um país onde o agronegócio ocupa posição central na economia e no debate político, o desafio não é negar o setor, mas transformá-lo. Em meio à crise climática, a sustentabilidade deixa de ser discurso e passa a ser condição para o futuro da produção e da própria vida no planeta.
Assista na íntegra aqui: