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Brasil precisará de 35 GW extras para evitar apagões até 2035, aponta estudo

Estudo aponta que avanço de eólicas e solares exige reforço urgente em fontes despacháveis e infraestrutura para evitar blecautes no sistema elétrico

Torres de transmissão de energia elétrica no Pará (Foto: REUTERS/Paulo Santos)

247 - O Brasil precisará ampliar significativamente sua capacidade de geração elétrica para evitar instabilidades e blecautes nos próximos anos. Levantamento da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) indica que será necessário adicionar energia equivalente a quase três usinas de Itaipu para garantir a segurança do sistema.

A informação foi publicada pela Folha de S.Paulo e integra estudo elaborado pela Academia Nacional de Engenharia e pelo CIGRE-Brasil, encaminhado neste mês à Agência Nacional de Energia Elétrica.

De acordo com a reportagem, o governo federal já contratou, em 18 de março, cerca de 19 GW (gigawatts) de energia térmica e hidráulica para reforçar o abastecimento em momentos de escassez — volume que supera ligeiramente a capacidade instalada de Itaipu, estimada em 14 GW.

Ainda assim, os especialistas alertam que será necessário contratar mais 35 GW adicionais em fontes chamadas despacháveis — como hidrelétricas, termelétricas e nucleares — até 2035. O objetivo é garantir estabilidade diante do crescimento acelerado das fontes intermitentes, especialmente eólicas e solares, cuja geração varia conforme condições climáticas.

Caso esse reforço não seja realizado, o risco de blecautes tende a aumentar, sobretudo nos períodos de maior demanda. O estudo também destaca a necessidade de integrar melhor essas fontes ao Sistema Interligado Nacional, com investimentos em armazenamento, transmissão e distribuição de energia.

Dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico mostram que, no segundo semestre de 2025, o SIN alcançou capacidade instalada de 246.762 MW para atender a uma demanda máxima de 104.732 MW. Esse descompasso tem gerado sobrecarga na rede, evidenciando gargalos estruturais.

Atualmente, a matriz elétrica conta com 43,9% de geração hidrelétrica e 18,1% de micro e minigeração distribuída — segmento que inclui sistemas instalados em residências, empresas e condomínios.

Curtailment cresce e acende alerta

Para evitar desequilíbrios entre oferta e demanda, o ONS tem recorrido cada vez mais ao chamado curtailment, que consiste na interrupção da geração de energia. A medida busca impedir que a produção exceda a capacidade de consumo, o que poderia levar a apagões.

Dados da consultoria Volt Robotics indicam que, em ao menos 16 dias de 2025, o sistema elétrico operou próximo do limite de segurança devido ao excesso de oferta — número significativamente superior ao registrado no ano anterior, quando houve apenas um dia crítico.

Os momentos de maior risco têm ocorrido principalmente aos fins de semana, quando a atividade econômica diminui e o consumo cai, enquanto a geração solar permanece elevada. Às segundas-feiras, o corte médio por excesso de energia é de 1.040 MW; aos domingos, esse volume sobe para 5.135 MW médios.

Armazenamento é peça-chave para o equilíbrio

Entre as soluções apontadas pelo setor, o armazenamento de energia ganha destaque. O uso de baterias para guardar a eletricidade gerada durante o dia é uma das alternativas em estudo, e o Ministério de Minas e Energia prepara um leilão específico para essa tecnologia.

O estudo também recomenda investimentos em reservatórios de regularização para hidrelétricas, que poderiam ajudar a equilibrar o sistema em momentos de pico ou baixa geração.

Outra possibilidade é utilizar a energia excedente para bombear água de volta aos reservatórios — transformando as hidrelétricas em grandes “baterias naturais”. Essa estratégia ampliaria a capacidade de resposta do sistema elétrico diante das oscilações provocadas pelas fontes renováveis intermitentes.