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Campeão no alumínio, Brasil ainda recicla pouco o lixo doméstico

Segundo Felipe Soutella, do Recicla Sampa, não é possível enfrentar a crise dos resíduos sem repensar os modelos de produção e consumo

Recicla Sampa, iniciativa de educação ambiental idealizada por Felipe Soutella (Foto: ABR | Divulgação )

Beatriz Bevilaqua, 247 - A reciclagem no Brasil ainda enfrenta um paradoxo: embora o país seja referência mundial na reciclagem de alumínio, graças sobretudo ao trabalho histórico dos catadores, o volume de resíduos domiciliares efetivamente reciclados segue alarmantemente baixo. Em São Paulo, maior cidade da América Latina e uma das maiores geradoras de lixo do mundo, apenas cerca de 3,7% do lixo doméstico tem destinação adequada para reciclagem, mesmo com 100% das ruas atendidas por coleta seletiva.

É a partir desse cenário que surge o Recicla Sampa, iniciativa de educação ambiental idealizada por Felipe Soutella, em parceria com a agência D4G, especializada em comunicação de impacto. Em entrevista à TV 247, Soutella destaca que o projeto nasce da compreensão de que não há solução simples para problemas complexos, mas que a mudança começa pela informação, pela atitude e pela corresponsabilização da sociedade.

Mais do que uma campanha pontual, o Recicla Sampa se estrutura como uma plataforma permanente de conteúdos, pensada para dialogar com diferentes públicos, idades e níveis de informação. Há materiais tanto para pesquisadores de mestrado e doutorado quanto para crianças em processo de alfabetização. Um dos pilares do projeto é a educação formal: todo o conteúdo pedagógico é adaptado à Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e ao currículo da cidade de São Paulo, permitindo que professores trabalhem o tema dos resíduos sólidos de forma transversal, em áreas como matemática, língua portuguesa, ciências naturais e ciências humanas.

“O resíduo precisa ser entendido como parte da vida cotidiana das pessoas”, afirma Soutella. Para ele, separar o lixo em casa não é um gesto isolado nem simbólico, mas um ato que gera um círculo virtuoso: reduz impactos ambientais, fortalece políticas públicas e garante renda para quase mil famílias que atuam nas cooperativas de reciclagem da cidade. Em São Paulo, toda a receita proveniente dos materiais recicláveis coletados pela coleta seletiva é destinada às 29 cooperativas existentes, um dado que revela o profundo caráter social da reciclagem.

Além disso, separar corretamente os resíduos reduz os custos do município com aterros sanitários, uma das formas mais caras  e ambientalmente limitadas de destinação do lixo. Atualmente, São Paulo gera cerca de 20 mil toneladas de resíduos sólidos por dia, sendo 12 mil toneladas provenientes de domicílios. Quanto maior a adesão à reciclagem, menor a pressão sobre os cofres públicos e sobre o meio ambiente.

Apesar dos avanços institucionais, Soutella alerta que a reciclagem no Brasil ainda sofre com a invisibilização dos catadores e com a falta de dados consolidados sobre iniciativas do setor privado e do terceiro setor, que muitas vezes não entram nas estatísticas oficiais. “O Brasil só é campeão mundial na reciclagem de alumínio por causa dos catadores”, lembra.

Para além do indivíduo, o entrevistado é enfático ao apontar a responsabilidade da indústria. Segundo ele, não é possível enfrentar a crise dos resíduos sem repensar os modelos de produção e consumo. Embalagens excessivas, produtos descartáveis e o uso abusivo de plástico revelam uma lógica que transfere o custo ambiental para a sociedade. “Somos responsáveis por aquilo que consumimos até o final da cadeia”, afirma.

Nesse sentido, Soutella defende uma mudança cultural profunda: repensar hábitos, reduzir o consumo de itens de uso único, reutilizar sempre que possível e abandonar a lógica da descartabilidade. “Não existe vida sem pegada ambiental. O desafio é fazer com que essa pegada seja a menos agressiva possível.”

A experiência internacional mostra que não há um modelo único. Países europeus avançaram ao vincular taxas públicas ao volume de lixo gerado, incentivando a redução na fonte, mas enfrentam contradições, como a necessidade de importar resíduos para manter sistemas de geração de energia. Já São Paulo se destaca em iniciativas como o tratamento de 100% dos resíduos orgânicos das feiras livres, transformados em adubo para parques e jardins, uma referência internacional ainda pouco conhecida.

O próximo passo do Recicla Sampa é ampliar sua atuação para além da capital paulista e se tornar o Recicla Brasil, reconhecendo que, embora São Paulo tenha peso decisivo nos indicadores nacionais, o desafio da reciclagem exige escala, integração regional e políticas públicas consistentes.

“A mudança começa no cidadão, mas não termina nele”, resume Soutella. Entre educação ambiental, transformação industrial e ação do Estado, a reciclagem se afirma como um dos eixos centrais para enfrentar a crise climática, social e urbana no Brasil.

Assista na íntegra aqui: