Crueldade animal viraliza entre jovens e acende alerta, diz especialista
Marcela Cerda alerta para omissão de pais, falhas nas redes e avanço de grupos que incentivam maus-tratos e abandono de animais entre adolescentes
Beatriz Bevilaqua, 247 - O caso do “cão-orelha” chocou o país, mas está longe de ser exceção. Por trás da indignação momentânea, há uma realidade persistente e, segundo especialistas, em expansão: a violência contra animais, impulsionada por abandono, exploração e, cada vez mais, por dinâmicas das redes sociais.
Em entrevista ao programa “Brasil Sustentável”, da TV 247, Marcela Cerda, Diretora do Instituto Ampara Animal, alerta para um fenômeno inquietante, a banalização dos maus-tratos, especialmente entre adolescentes organizados em grupos online. Para ela, trata-se de uma crise que combina negligência familiar, fragilidade das políticas públicas e a atuação insuficiente das empresas de tecnologia.
A ideia de violência contra animais ainda é, muitas vezes, limitada a agressões explícitas. Mas, na prática, ela se manifesta de formas mais amplas e frequentes.
“Existem várias formas de maus-tratos. Hoje, abandonar um animal é maus-tratos, com certeza”, afirma Marcela. Segundo ela, cães e gatos são totalmente dependentes dos humanos. “Privar de água, de comida, deixar ao tempo, sem proteção contra chuva e sol, tudo isso configura maus-tratos.”
A Diretora lembra que, apesar de avanços legais, ainda é comum que situações básicas de cuidado precisem ser regulamentadas. Entre elas está a proibição de manter animais acorrentados, prática que é alvo de legislação no estado de São Paulo, como prevê a Lei Estadual nº 17.131/2019. “É impressionante que determinadas coisas precisam virar lei”, observa.
Do boom de adoções ao abandono em massa
A pandemia de Covid-19 produziu um movimento contraditório. De um lado, houve um aumento expressivo na adoção de animais. De outro, o período pós-pandemia revelou um crescimento igualmente significativo no abandono.
“Muitas pessoas adotaram por impulso, porque estavam se sentindo sozinhas, ansiosas”, explica Marcela. Com a retomada da rotina presencial, vieram os problemas. “O animal começou a desenvolver ansiedade, destruir coisas dentro de casa, e a pessoa não aguentou mais e abandonou.”
Ela reforça que a decisão de adotar exige responsabilidade de longo prazo: “A primeira pergunta precisa ser: eu tenho condições de cuidar desse animal até o fim da vida dele?”
Mesmo a devolução aos abrigos, frequentemente vista como alternativa, não resolve o problema estrutural. “Colocar a responsabilidade de volta nas mãos das ONGs também é equivocado”, diz. Segundo ela, há uma percepção distorcida de que protetores independentes e organizações têm obrigação de acolher todos os animais, quando, na realidade, operam em condições extremamente limitadas.
A crueldade viralizada entre adolescentes
Se o abandono já é um problema crônico, um fenômeno mais recente tem alarmado organizações de proteção animal: a formação de grupos de adolescentes que compartilham e incentivam práticas de violência.
“Estamos vendo um crescimento muito grande desses grupos que não só promovem maus-tratos, mas maus-tratos com requinte de crueldade”, afirma Marcela.
Os números ajudam a dimensionar o problema. Em 2025, o Brasil registrou cerca de 13 denúncias de maus-tratos a animais por dia, somando quase 5 mil casos ao longo do ano, um aumento de 20% em relação a 2024. O crescimento acompanha a maior exposição de episódios de violência, muitos deles impulsionados por redes sociais e grupos online.
Para ela, o problema é multifatorial. “Existe negligência dos pais, que não estão vendo o que os filhos estão fazendo nas redes sociais. Existe um ponto muito fraco em políticas públicas. E existe também uma responsabilidade muito grande das empresas de tecnologia.”
A crítica é direta: plataformas têm capacidade técnica para conter esse tipo de conteúdo, mas não o fazem de forma eficaz. Enquanto isso, a lógica dos algoritmos pode amplificar a exposição à violência. “Se a pessoa dá um like, só vai aparecer aquilo”, observa a especialista durante a entrevista.
A lógica da viralização não se restringe à violência explícita. Ela também sustenta práticas de exploração travestidas de entretenimento, como o turismo com animais silvestres dopados para fotos ou a exibição de espécies fora de seu habitat natural.
O Instituto Ampara Animal lançou campanhas como “Algoritmo Selvagem” para enfrentar esse tipo de conteúdo. A proposta é simples: denunciar e deixar de consumir esse material.
“Quanto mais você vê, mais aquilo é entregue para outras pessoas. Quando você denuncia, você reduz esse alcance”, explica Marcela.
Ela também alerta para a humanização inadequada de animais silvestres. “Não temos que ver esses animais sendo tratados como pets, nem como objetos de pelúcia.”
“Animal silvestre não é pet”
Um dos pontos mais sensíveis levantados na entrevista é a tentativa de normalizar a posse de animais silvestres, inclusive por meio de legislações locais.
“Silvestre não é pet”, reforça Marcela. Para ela, medidas que autorizam a adoção desses animais podem gerar efeito contrário ao pretendido. “Isso pode incentivar o tráfico, porque as pessoas passam a desejar ter aquele animal.”
A diretora destaca a importância de compreender o papel ecológico de cada espécie e respeitar seus habitats. “Nós vivemos em um ambiente compartilhado. Não estamos sozinhos.”
Apesar do cenário preocupante, Marcela aponta caminhos. Um deles é a educação desde a infância, com estímulo ao contato respeitoso com os animais. “É muito importante que as famílias introduzam os animais, domésticos e não silvestres, como parte da família e que as crianças aprendam desde cedo a respeitar o seus limites e espaços”, diz.
A violência contra animais não é um fenômeno isolado. Ela revela padrões mais amplos de comportamento, falhas estruturais e uma relação distorcida entre humanos, tecnologia e natureza. Entre o abandono silencioso e a crueldade exibida em busca de likes, o que está em jogo é a capacidade de reconhecer o outro, mesmo quando esse outro não fala a nossa língua.
Assista na íntegra aqui: