Educação ambiental ganha força nas comunidades rurais e desafia modelo tradicional
Vinícius Oliveira critica o esvaziamento da sustentabilidade e destaca a força das práticas comunitárias na construção de novos caminhos
Beatriz Bevilaqua, 247 - Em um país atravessado por desigualdades ambientais e pela apropriação comercial do discurso “verde”, iniciativas de educação popular vêm propondo uma transformação mais profunda: mudar não apenas comportamentos, mas a forma de pensar e sentir o mundo. É nesse território que atua o educomunicador comunitário Vinícius Oliveira, que articula comunicação, escuta e práticas coletivas para fortalecer comunidades rurais e formar novas gerações mais conectadas com a natureza.
Aracajuano, jornalista, fotógrafo e pesquisador, Vinícius defende que a educação ambiental precisa sair da teoria e ganhar corpo na vida cotidiana. “A sustentabilidade nasce para reivindicar e refletir o que é prosperidade”, afirma. “Se riqueza é só conforto material ou se é poder tomar banho de rio na nossa cidade.”
Para Vinícius, a palavra “sustentabilidade” perdeu força justamente por ter sido capturada por interesses de mercado. “Toda palavra está em disputa”, diz. Durante o programa “Brasil Sustentável”, na TV 247, ele critica fortemente o uso superficial do termo por empresas que, na prática, mantêm práticas predatórias.
Educação ambiental como prática de escuta e transformação
O trabalho de Vinícius se dá diretamente nos territórios. Atuando com dezenas de comunidades rurais em diferentes estados, ele desenvolve oficinas que misturam educação ambiental, comunicação comunitária e organização social.
A metodologia parte de um princípio simples, mas frequentemente ignorado: escutar. “Não chegamos para impor. Vemos como podemos contribuir e agregar”, explica. As atividades incluem mapas afetivos, reconstrução da memória das comunidades e dinâmicas coletivas que envolvem a todos. “Quando falamos da comunidade, temos que falar com todas as idades. A primeira coisa é incluir as crianças. E quando incluímos as crianças, incluímos as mulheres.”
O impacto, segundo ele, é visível. Ao reconhecer o valor do próprio território, as comunidades passam a fortalecer práticas sustentáveis que já existiam. “Por mais que a ciência tenha avançado, muitas comunidades já são mais sustentáveis do que qualquer modelo que tentam impor de fora.”
Um dos pontos centrais da atuação de Vinícius é a valorização dos saberes tradicionais, historicamente marginalizados. Ele também trabalha o conceito de justiça ambiental de forma acessível. “Quando falo de meio ambiente, não é só planta e animal. É o nosso direito de respirar, de beber água, de comer saudável.”
Essa abordagem amplia o entendimento do que está em jogo na crise climática. Não se trata apenas de preservar recursos naturais, mas de garantir modos de vida. “As comunidades têm o direito de manter seu modo de vida, seus conhecimentos, sua cultura.”
Exemplos práticos surgem desse diálogo. Em uma comunidade, o resgate do cultivo de cacau, substituído pelo café, foi escolhido coletivamente como estratégia de fortalecimento local, agora com base agroecológica.
Educar para sentir: o desafio de formar novas gerações
Para Vinícius, a crise ambiental também é resultado de um distanciamento afetivo da natureza e isso começa na infância. “Antes de aprender a palavra, aprendemos a ver o mundo”. Ele critica um modelo educacional que prioriza conteúdos abstratos e desconectados da realidade. “Como vamos falar de futuro ambiental se a criança não consegue construir empatia com a natureza?”
A resposta, segundo ele, está na experiência direta. Tocar, sentir, vivenciar. “Não conhecer um animal somente pelos livros escolares, mas poder interagir com eles na prática”, explica.
Diante do agravamento das crises climáticas e sociais, a proposta de uma educação ambiental popular surge não como complemento, mas como caminho urgente. Ao articular ciência, território e escuta, experiências como as conduzidas por Vinícius Oliveira apontam para uma transformação que começa no cotidiano e se expande para o coletivo.
Assista a entrevista na íntegra aqui: