Indígenas resgatam saber ancestral da floresta para cura de pacientes crônicos
Iniciativa da etnia Puyanawa une conhecimento ancestral, manejo responsável e valorização da sociobiodiversidade para manter a floresta em pé e gerar saúde
Beatriz Bevilaqua, 247 - No interior do Acre, uma iniciativa familiar tem mostrado que floresta em pé pode significar saúde, preservação ambiental e valorização dos povos originários. A Alquimia da Floresta, idealizada pelo indígena Antônio Francisco, da etnia Puyanawa (Cuyahnawa), reúne conhecimento ancestral e formação acadêmica para produzir preparados fitoterápicos a partir de plantas amazônicas, com foco em pacientes crônicos.
À frente da organização está Ita Zuleyma dos Santos Culqui Puyanawa, que cresceu acompanhando o trabalho do pai Antônio Francisco com medicina tradicional da floresta. A formalização da iniciativa surgiu de uma necessidade dupla: garantir que o conhecimento ancestral não se perdesse e estruturar o manejo das plantas de forma responsável.
“Meu pai sempre dizia que, se a gente não aprendesse e organizasse agora, ele levaria esse conhecimento com ele. Então decidimos sistematizar, catalogar as espécies e cuidar para que tudo fosse feito com responsabilidade ambiental”, afirma Ita.
Diferentemente de modelos predatórios de exploração da biodiversidade, a Alquimia da Floresta trabalha com princípios de manejo sustentável. A coleta respeita os ciclos naturais e evita a retirada excessiva de uma mesma área. Quando uma planta é colhida, outra área é preservada para regeneração.
A família também desenvolve planos de reflorestamento em terras próprias com espécies utilizadas nos preparados, reduzindo a pressão sobre áreas nativas.
“Nunca derrubamos árvores. Pedimos licença à floresta, colhemos apenas o que vamos utilizar e buscamos sempre fazer mudas para reposição”, explica Ita.
Parte das matérias-primas é adquirida de comunidades locais, fortalecendo cadeias produtivas sustentáveis e incentivando a conservação como fonte de renda.
Biodiversidade e saúde
A Amazônia concentra uma das maiores biodiversidades do planeta e grande parte de seu potencial farmacológico ainda é pouco estudado. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), práticas tradicionais e fitoterápicas fazem parte do cuidado de saúde de milhões de pessoas no mundo.
No Acre, onde muitas comunidades enfrentam dificuldades de acesso a serviços médicos especializados, o uso de plantas medicinais permanece como prática histórica.
A Alquimia da Floresta produz tônicos voltados à imunidade, saúde hepática, saúde da mulher e fortalecimento geral do organismo. Parte das espécies já foi submetida a análises laboratoriais para identificação de princípios ativos, em um esforço de diálogo entre ciência e tradição.
A proposta não é substituir a medicina convencional, mas atuar de forma complementar, integrando práticas tradicionais e conhecimento técnico.
Ita defende que sustentabilidade não é apenas manejo de recursos, mas também educação. Ela critica a naturalização do descarte inadequado de lixo e a desconexão crescente entre crianças urbanas e a natureza.
“Se um adulto joga lixo na rua na frente do filho, está ensinando que aquilo é normal. Sustentabilidade começa no exemplo cotidiano”, afirma.
Para ela, preservar a floresta depende tanto de políticas públicas quanto de transformação cultural.
A história da família também é marcada pelo resgate identitário. Durante décadas, muitos indígenas da região ocultaram sua origem por medo de discriminação. Recentemente, a família conseguiu oficializar o sobrenome Puyanawa (Cuyahnawa), reafirmando a ancestralidade.
Valorizar o conhecimento tradicional, nesse contexto, também é um ato político: significa reconhecer os povos originários como protagonistas na preservação da biodiversidade e no debate sobre modelos sustentáveis de desenvolvimento.
Desenvolvimento sustentável na Amazônia
Em uma região que enfrenta pressões do desmatamento, da mineração e da precariedade logística para produtores rurais, iniciativas baseadas em manejo responsável e valorização da sociobiodiversidade apontam caminhos possíveis.
A lógica defendida pela família é simples e potente: usar apenas o necessário, respeitar o tempo da natureza e manter a floresta viva para as próximas gerações.
“Se não ensinarmos agora, nossos filhos vão sofrer mais do que nós”, diz Ita.
A Alquimia da Floresta está no Instagram como @alquimiadaflorestaa e prepara a catalogação das espécies utilizadas, como parte do esforço de preservação e transmissão do conhecimento ancestral.
No Acre, entre tradição e ciência, a sustentabilidade ganha raízes profundas, plantadas na memória da floresta e cultivadas como projeto de futuro.
Assista na íntegra aqui: