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“Microrganismos da Amazônia podem regenerar solos agrícolas”, afirma pesquisadora

Para a cientista Clarice Maia Carvalho, uso de bioinsumos pode regenerar solos, reduzir agrotóxicos e preparar a produção agrícola para desafios climáticos

Pesquisadora em Microbiologia e Biotecnologia Microbiana, Clarice Maia Carvalho (Foto: Agência Brasil | Divulgação )

Beatriz Bevilaqua, 247 - Em meio aos debates sobre o futuro da agricultura e da crise climática, pesquisadores da Amazônia têm buscado respostas em um lugar muitas vezes invisível a olho nu: o mundo microscópico que vive no solo, nas plantas e na água da floresta.

Farmacêutica, doutora em Biotecnologia e pesquisadora em Microbiologia e Biotecnologia Microbiana, Clarice Maia Carvalho dedica sua carreira à prospecção de microrganismos amazônicos capazes de gerar bioinsumos agrícolas e compostos bioativos. Em entrevista à TV 247, no programa “Brasil Sustentável", ela explicou que sua trajetória científica nasceu justamente da vivência na região.

“Eu nasci aqui na Amazônia, no Acre, e cresci na região. Acho que conviver de perto com as dores e as necessidades da Amazônia foi justamente o que me motivou a direcionar minha trajetória para essa área”, explica.

A pesquisadora explica que a Amazônia abriga uma diversidade biológica extraordinária, inclusive no universo microscópico. “Temos um ambiente extremamente diverso, um dos nichos com maior biodiversidade do planeta. Falamos muito de plantas e animais, mas o microbioma é ainda mais diverso e conhecemos muito pouco sobre ele.” Essa riqueza biológica, segundo ela, pode ajudar a construir soluções para um modelo agrícola mais sustentável.

Bioinsumos: a força invisível que ajuda as plantas

O foco do trabalho da pesquisadora está no desenvolvimento de bioinsumos, produtos agrícolas baseados em microrganismos benéficos capazes de estimular o crescimento das plantas ou protegê-las contra pragas e doenças.

“O insumo biológico é um microrganismo selecionado e não é qualquer microrganismo. Primeiro, ele não é um patógeno, nem para o ser humano, nem para plantas ou animais. A principal característica dele é produzir substâncias que ajudam no crescimento das plantas.”

Esses microrganismos podem desempenhar diferentes funções no solo e no desenvolvimento das culturas. “Eles geralmente fazem fixação biológica de nitrogênio, solubilizam fósforo e produzem fito-hormônios. Além disso, em algumas situações, também ajudam no controle de doenças, o que contribui para melhorar a saúde da planta.”

Segundo a cientista, essa tecnologia atua de forma distinta dos insumos químicos tradicionais. Enquanto os produtos sintéticos costumam ter um efeito imediato e temporário, os microrganismos permanecem no solo e contribuem para a regeneração do ambiente ao longo do tempo.

“Ele é inserido no solo e vai se multiplicando ali. Com isso, melhora a saúde do solo e, consequentemente, esse benefício também chega às plantas e para todo ecossistema.”

Nesse cenário, ganha força o conceito de agricultura regenerativa, que busca recuperar a fertilidade e a vida do solo por meio de práticas mais equilibradas com os ecossistemas. Além disso, a pesquisadora alerta para os riscos associados ao uso intensivo de agrotóxicos, tanto para quem trabalha na lavoura quanto para os consumidores.

Para Clarice, o avanço dos bioinsumos já está em curso e tem sido impulsionado por fatores econômicos, ambientais e geopolíticos. A guerra entre Rússia e Ucrânia, por exemplo, elevou os preços de fertilizantes químicos no mercado internacional e acelerou a busca por alternativas.

Ao mesmo tempo, mercados internacionais têm se tornado cada vez mais exigentes quanto à redução do uso de agrotóxicos na produção agrícola.

Na avaliação da pesquisadora, essa transformação precisa ser acompanhada por políticas públicas que apoiem produtores rurais, especialmente os pequenos agricultores.

Mas ela também defende uma mudança mais profunda no modelo de produção agrícola brasileiro. “O sistema de produção brasileira deveria eliminar por completo o uso de agrotóxicos, sobretudo dentro do contexto climático.”

A afirmação abre um debate cada vez mais presente no país: como conciliar produção agrícola em larga escala, preservação ambiental e saúde pública.

Na Amazônia, pesquisadores apostam que parte dessa resposta pode estar justamente onde poucos olham, no universo invisível dos microrganismos que sustentam a vida no planeta.

Assista a entrevista na íntegra aqui: