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“Microrrevoluções ditam a mudança que queremos no mundo”, diz movimento Verdes Marias

Coletivo Verdes Marias aposta em pequenas ações do cotidiano para promover mudanças reais e fortalecer a conexão com o planeta

Mariana Moraes é uma das idealizadoras do projeto Verdes Marias (Foto: Divulgação | Freepik)

Beatriz Bevilaqua, 247 - Enquanto o mundo enfrenta os impactos cada vez mais evidentes da crise climática, das enchentes no Rio Grande do Sul às secas no Nordeste e queimadas que consomem grandes áreas do país, cresce também o número de pessoas que buscam maneiras mais conscientes de viver. É nesse contexto que atua o coletivo Verdes Marias, fundado com o propósito de inspirar mudanças reais a partir de atitudes simples do cotidiano. As chamadas “microrrevoluções” propõem um redesenho do modo de vida, indo do consumo de alimentos à escolha das roupas, passando pela forma como lidamos com o lixo e a natureza.

“O que chamamos de microrrevoluções são mudanças de comportamento que vão nos reconectando com a vida, com o planeta, com a natureza e com o nosso próprio corpo”, explica Mariana Moraes, uma das idealizadoras do projeto, que há anos pauta sua vida pessoal por essas escolhas. Ela conta, por exemplo, que se mudou recentemente e que praticamente todos os móveis da nova casa são de segunda mão. “Tirando os eletrodomésticos, não tem absolutamente nada novo. Tudo foi garimpado ou comprado usado. A gente consegue construir uma casa, um guarda-roupa, uma vida com reaproveitamento.”

A compostagem também faz parte da rotina e é defendida com entusiasmo. “Faz muito tempo que eu composto. E hoje, em muitas cidades do Brasil, você já consegue contratar esse serviço. Eles te mandam o baldinho, você coleta e envia. É possível transformar cascas, sementes e caroços em energia. Em que momento nós achamos normal jogar isso tudo no lixo, num saco preto?”, questiona. O mesmo vale para o uso de plástico, que, segundo ela, precisa ser urgentemente repensado: “Cada copinho, sacolinha, garrafa de água que a gente recusa faz diferença. O contato constante com o plástico é tóxico, bagunça os hormônios, pode até ser cancerígeno. Precisamos tirar o plástico da vida sempre que for possível.”

A urgência da reconexão com a natureza atravessa também a criação de filhos. Ao contrário de quem acredita que as novas gerações estão completamente afastadas do meio ambiente, ela enxerga nas crianças uma potência latente, pronta para emergir. “Vejo muitas crianças pequenas dizendo ‘não vou comer bicho’, ‘derrubar árvore é errado’. Elas estão abertas, só precisam da oportunidade. Outro dia, veio uma amiguinha do meu filho com um videogame, mas na minha casa sábado não tem tela. Pegamos um jogo de tabuleiro e foi uma festa. Elas querem brincar”, relata. Para ela, essa reconexão passa também por uma postura ativa dos adultos. “É preciso disposição dos pais para brincar junto, para dar atenção. O contato com a natureza é remédio. O pediatra do meu filho pergunta: ‘ele anda descalço?’. “Precisamos colocar as crianças no chão, literalmente. Aterramento, conexão com a terra.”

Com a popularização do discurso ambiental, cresceu também o uso do chamado greenwashing, ou “mentira verde”, prática em que empresas se apropriam de termos sustentáveis apenas como estratégia de marketing. “Tem muita empresa que usa embalagem com folha, cor verde, nomes ligados à natureza, mas quando você vai ver, é tudo marketing. Isso é proibido por lei, mas acontece o tempo inteiro”, afirma. Para ela, o consumidor precisa adotar uma postura mais crítica. “Precisamos ser muito vigilantes. Olhar rótulo, questionar, ir atrás das informações. Quando uma marca diz que compensa suas emissões, você tem que perguntar: como? Em que proporção? Que parte da operação isso cobre?”

Ela reconhece, no entanto, que nem todo mundo tem tempo ou energia para fiscalizar tudo o tempo todo. “Se não der para fazer tudo, siga gente que já está nessa jornada. Tem muito criador de conteúdo bom na internet que denuncia empresas, compartilha boas práticas e mostra alternativas reais. Vai na cola deles, sabe?”

Embora as microrrevoluções sejam parte essencial do processo, ela defende que políticas públicas mais rígidas são indispensáveis para enfrentar os desafios ambientais. “Cobrar por leis mais rígidas também é uma microrrevolução”, diz. Ela alerta para projetos em discussão no Congresso que ameaçam desfigurar o sistema de licenciamento ambiental no Brasil. “Estamos num momento muito delicado. Estão tentando flexibilizar licenças que foram conquistadas com muito esforço. Isso não pode acontecer”, enfatiza.

Além disso, Mariana defende a implementação de medidas urgentes, como a taxação da produção de plásticos de uso único, o fortalecimento de projetos que protejam a Amazônia, e políticas mais severas para a preservação do Cerrado, bioma fundamental para a manutenção das águas do país, mas frequentemente deixado de lado nas discussões. “Falamos pouco sobre o Cerrado, mas ele é a região com mais nascentes do Brasil. É de lá que vem a água que abastece boa parte do território nacional. E ele tem sido muito desmatado. Precisamos garantir a proteção desse território.”

Apesar do cenário desafiador e da postura negacionista de muitos líderes, inclusive de alguns que se recusam a participar de eventos climáticos internacionais, como a COP 30, que será sediada no Brasil, ela acredita que a transformação ainda é possível. As Verdes Marias continuam apostando que um futuro mais sustentável começa no dia a dia, nas pequenas escolhas, no fortalecimento dos vínculos com a terra e na pressão contínua sobre o poder público.

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