"Prevenção de enchentes e planejamento urbano são chave para evitar novas tragédias", alerta engenheiro florestal
Arthur Brasil analisa as enchentes em Minas Gerais e defende políticas públicas estruturais para enfrentar desastres que se repetem no país
Beatriz Bevilaqua, 247 - As chuvas intensas que atingiram Minas Gerais e já deixaram mais de 70 mortos reacendem uma pergunta incômoda no Brasil: por que tragédias como essa continuam acontecendo ano após ano? Para o engenheiro florestal e especialista em adequação ambiental Arthur Brasil, a resposta passa por um conjunto de fatores que vão da crise climática ao planejamento urbano precário e, principalmente, à ausência de políticas públicas de prevenção.
Em entrevista ao programa Brasil Sustentável, da TV 247, o especialista foi direto ao apontar o caminho para evitar novas perdas humanas. “A prevenção de enchentes é fundamental para evitar mais mortes.” Mineiro e profundo conhecedor da realidade da Zona da Mata, Arthur explica que o problema não pode ser reduzido apenas à intensidade das chuvas.
Para o engenheiro, as enchentes e deslizamentos que se repetem em cidades mineiras são resultado direto da ocupação desordenada do território urbano. Muitas vezes, bairros inteiros são construídos em áreas que deveriam permanecer preservadas.
“Topo de morro deveria ter só vegetação para amortecer a chuva e permitir que essa água infiltre no solo, em vez de escorrer pela superfície.” Quando essas áreas passam a ser ocupadas, o equilíbrio natural se rompe. “Quando fazemos a antropização dessas regiões, criamos um grande problema. Aumentamos o escoamento e a velocidade. E o que acontece? Tudo que está em cima desliza, seja solo, árvores, casas.”
Arthur ressalta que responsabilizar apenas os moradores é um erro. A raiz do problema está na ausência de políticas habitacionais e planejamento urbano. “Não podemos culpar a população por isso. Normalmente isso ocorre pela falta de moradias decentes, uma distribuição correta de áreas para poder lotear. Sem alternativas de moradia segura, muitas famílias acabam ocupando áreas vulneráveis como encostas, margens de rios e regiões de preservação.
Cortes de verbas e falta de prevenção
Além das falhas urbanísticas, o especialista aponta o impacto direto das decisões políticas. Nos últimos anos, o governo de Minas Gerais reduziu drasticamente os recursos destinados à prevenção de desastres climáticos.
A verba para enfrentar problemas causados pelas chuvas caiu de R$ 134,8 milhões para apenas R$ 5,8 milhões entre 2023 e 2025. Para Arthur, isso inviabiliza qualquer política séria de prevenção. “A cidade não tem verba suficiente para isso, ela não consegue resolver. É preciso contratar equipes, empresas, fazer contenções e realocar pessoas. É um dinheiro muito alto que precisa contar com o Estado”, enfatiza.
O agravamento da crise climática é outro fator decisivo. Chuvas mais intensas em períodos curtos tornam ainda mais vulneráveis cidades com infraestrutura inadequada. “O desmatamento aumenta a questão dos eventos extremos climáticos. Temos chuvas mais fortes, períodos mais secos”, diz.
Segundo Arthur, o problema se agrava quando a chuva que antes se distribuía ao longo de vários dias passa a cair de uma só vez. “Essa chuva, que deveria vir devagar ao longo de dias, vem numa pancada só. Isso faz com que todas as capacidades do solo e da floresta que deveriam proteger se esgotem.”
Ele defende que as cidades precisam ampliar áreas verdes e sistemas de drenagem natural. “Precisamos aumentar a área de captação de chuva, criar áreas mais verdes para infiltrar essa água e não causar mais problemas.”
Uma escolha política
No fim das contas, evitar novas tragédias climáticas no Brasil depende menos da natureza e mais das escolhas feitas pelos governos. Planejamento urbano, proteção ambiental e investimentos em prevenção são, para o engenheiro, caminhos inevitáveis.
Ele resume o problema com franqueza: “A prevenção começa com políticas públicas. Não tem como separar meio ambiente de política.” Enquanto cidades continuam crescendo sem planejamento e recursos para prevenção são reduzidos, eventos extremos tendem a transformar chuvas previsíveis em catástrofes.
Assista a entrevista na íntegra aqui: