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“Sem mulheres na decisão, não há justiça climática”, defende especialista

Após presenciar a exclusão da pauta de gênero nas negociações da COP21, Renata Koch transformou indignação em ação e fundou a EmpoderaClima

“Sem mulheres na decisão, não há justiça climática”, defende especialista (Foto: Divulgação | Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)

Beatriz Bevilaqua, 247 - A frase não é figura de linguagem. É uma lembrança precisa de um momento que mudou o rumo da sua vida. Quando participou da COP21, em Paris, Renata Koch Alvarenga ainda estava no início da graduação em Relações Internacionais. Crescida em Porto Alegre, acostumada a conviver com instabilidades climáticas, ela já sabia que queria “impactar muita gente”, mas ainda buscava onde fincar os pés.

Na COP, encontrou a resposta e o incômodo. Em uma das salas de negociação, acompanhando as discussões que dariam origem ao Acordo de Paris, ela presenciou diplomatas debatendo se a pauta de gênero deveria ou não aparecer no texto central do acordo. O que estava em jogo não era apenas redação técnica, mas prioridade política.

“Então, quem está sentado nessas cadeiras nas tomadas de decisão, tem ali o papel e a caneta na mão para dizer que não, a gente não se importa com o feminismo, com as mulheres, a gente não quer isso na agenda”, relembra.

Ela descreve o ambiente como “muito interessante e também um pouco trágico”, marcado pela predominância masculina “principalmente homens brancos” discutindo a relevância (ou não) da igualdade de gênero no maior acordo climático global. O trecho que tratava de empoderamento feminino foi retirado da parte central e deslocado para o preâmbulo, onde perde força na implementação prática.

Ali, ficou evidente que o clima nunca foi só sobre carbono. Enquanto a presença feminina era relativizada na mesa de negociação, são justamente as mulheres que estão entre as mais atingidas pelos efeitos da crise. Dados amplamente citados por agências das Nações Unidas, como o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e a ONU Mulheres, indicam que cerca de 80% das pessoas deslocadas por desastres naturais e pelos impactos das mudanças climáticas são mulheres e meninas.

A ponte entre o internacional e o território

Renata passou a entender que o desafio não era apenas ocupar espaços globais, mas traduzir o que acontece neles para quem nunca teve acesso a essas discussões. Ela fala com frequência sobre responsabilidade. Sobre o privilégio de ter conseguido uma bolsa para participar da COP tão jovem. Sobre o dever de “trazer mais pessoas junto”.

“Muito da minha trajetória tem sido trazer mais pessoas comigo, nem que eu seja representante porque essas portas são difíceis de acessar, mas que o discurso que eu for trazer a gente possa construir isso de uma forma coletiva.”

Essa lógica se tornou o eixo da EmpoderaClima, fundada em 2019, no Dia da Terra. A organização nasceu com um objetivo claro: democratizar o acesso ao debate climático e conectar gênero, justiça social e políticas públicas.

A iniciativa criou uma base de dados multilíngue para ampliar o acesso à informação em contextos onde materiais sobre justiça climática simplesmente não existem no idioma local. Além disso, promove formações em advocacy, capacitação política, oficinas em escolas públicas e programas voltados a jovens mulheres de todas as regiões do país, com prioridade para mulheres negras, indígenas, periféricas, LGBTQIA+ e pessoas com deficiência.

Não se trata apenas de conscientização. Trata-se de formar lideranças capazes de disputar orçamento, narrativa e política pública. Renata insiste: no Brasil, falar de clima sem falar de desigualdade é ignorar o básico. “No Brasil não dá para a gente falar de ação climática sem a questão da justiça.”

Ela explica que as mudanças climáticas intensificam fenômenos já conhecidos como chuvas mais fortes, secas mais prolongadas, ondas de calor mais extremas, mas os impactos não são distribuídos de forma igual. Em uma mesma cidade, alguns bairros alagam, outros não. Algumas pessoas recebem alertas, outras sequer têm acesso a sistemas de aviso.

É nesse ponto que entra o conceito de justiça climática: reconhecer que injustiça social e injustiça ambiental estão entrelaçadas. E que adaptação e resiliência precisam estar no centro do planejamento urbano e dos orçamentos públicos.

Renata estudou resiliência climática no mestrado e defende que a prevenção salva vidas. Sistemas de alerta eficientes, defesa civil estruturada, investimento em infraestrutura adaptada e participação comunitária não são luxo, são políticas públicas essenciais.

Ela também chama atenção para a ansiedade climática. Recordes sucessivos de temperatura e a sensação de aceleração da crise podem gerar paralisia. Ainda assim, ela se recusa ao fatalismo. “Eu realmente acredito nas soluções locais.”

Para ela, o Brasil está repleto de iniciativas comunitárias potentes, mas muitas permanecem invisíveis ou subfinanciadas. Sem escala e sem integração com políticas públicas, acabam limitadas ao território onde surgiram.

O Brasil no centro da agenda

A realização da COP30 em Belém marcou, para Renata, um momento simbólico importante. “Acho que ter COP no Brasil foi com certeza um divisor de águas”, afirma. Ela navega com frequência entre Brasil e Estados Unidos, já trabalhou em organismos internacionais como a ONU e o Banco Mundial, e observa um cenário global instável, com cortes de financiamento e mudanças geopolíticas. Ainda assim, enxerga oportunidade.

“Eu acho que o Brasil tá brilhando nesse sentido.” Para ela, o país vive um momento estratégico de visibilidade internacional e mobilização interna, com semanas do clima e maior presença do debate ambiental na esfera pública. Mas há uma consciência de que esse ciclo pode mudar, especialmente em anos eleitorais.

Se há algo que atravessa toda a trajetória de Renata é a compreensão de que poder se materializa em decisões concretas. Em textos aprovados ou rejeitados. Em orçamentos que priorizam ou ignoram determinadas populações.

A imagem da sala na COP21 continua viva. Diplomatas projetando textos na parede. Palavras entrando e saindo do documento. O empoderamento das mulheres sendo deslocado para uma parte menos vinculante. Quem segura a caneta define prioridades.

A EmpoderaClima trabalha para que mais mulheres, especialmente jovens do Sul Global, estejam preparadas para ocupar essas cadeiras. Não apenas como convidadas simbólicas, mas como protagonistas capazes de formular, negociar e decidir. Porque, como Renata reforça, clima não é apenas ciência. É poder. É representação. É uma escolha política.

Assista na íntegra aqui: