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Startup brasileira leva água potável para favelas e escolas remotas

A partir de um projeto universitário, a Água Camelo leva soluções simples e escaláveis a quem vive sem acesso à água potável e expõe a lentidão estrutural

Startup brasileira leva água potável para favelas e escolas remotas (Foto: Divulgação | Agência Brasil )

Beatriz Bevilaqua, 247 - No Brasil, o acesso à água potável ainda está longe de ser universal. Em favelas, territórios rurais e milhares de escolas públicas, beber água limpa diariamente não é garantido. É nesse cenário que surge a Água Camelo, iniciativa criada para enfrentar uma das desigualdades mais básicas e persistentes do país.

Idealizada por Rodrigo Belli, a startup já atua em 21 estados e beneficia cerca de 120 mil pessoas por dia. Ao mesmo tempo, sua atuação joga luz sobre um problema estrutural: mais de 35 milhões de brasileiros ainda vivem sem acesso adequado à água tratada.

A origem da Água Camelo remonta à universidade e a um desafio que rapidamente ultrapassou o campo acadêmico. “Tudo começou na faculdade. Eu me formei em desenho industrial no Rio de Janeiro e, em um dos semestres, fui desafiado a desenvolver um empreendimento social. Na época, eu nem sabia exatamente o que era isso”, conta Belli.

Ao investigar diferentes problemas sociais, um em especial chamou sua atenção. “Quando comecei a estudar as mazelas da sociedade, percebi que o acesso à água, principalmente nas favelas, era um tema praticamente relegado, como se fosse intocável.”

A partir desse incômodo, ele decidiu direcionar sua trajetória. “Eu sempre acreditei no potencial do design para resolver grandes desafios. Quando entendi o tamanho desse problema, percebi que era isso que eu queria enfrentar nos próximos anos.”

A jornada invisível até a água

Antes de propor uma solução, Belli buscou entender, na prática, o caminho percorrido por quem não tem água em casa. “Para muitas pessoas, o acesso à água envolve sair de casa, buscar em outro lugar, transportar, armazenar e, quando possível, tentar filtrar de forma artesanal”, explica.

Esses métodos, no entanto, não garantem segurança. “Muitas vezes, essa filtragem é feita com pano ou deixando a água decantar. Isso não é suficiente para torná-la potável.” Foi a partir dessa análise, a chamada “jornada do usuário”,  que nasceu o kit Camelo: uma solução portátil que integra transporte, filtragem e armazenamento de água, com uso simplificado.

Apesar de ser uma startup, a Água Camelo não desenvolveu uma tecnologia inédita e é justamente aí que está parte de sua força.“No começo, eu não tinha investidor nem recursos. Então precisei pensar de forma pragmática. A solução foi juntar tecnologias que já existiam, como filtros e mochilas estanques, em um único produto”, afirma.

O desafio seguinte foi escalar o impacto. “Não adianta distribuir cinco kits. A pergunta era: como chegar a cinco mil, cinquenta mil?” A resposta veio com um modelo de negócio que combina impacto e sustentabilidade financeira. “Não somos uma ONG, é uma empresa de impacto. Nosso objetivo principal é gerar impacto social, mas também precisamos de lucro para crescer e ampliar esse alcance.”

A atuação em territórios vulneráveis também expõe outro entrave: a dependência da visibilidade pública para mobilizar recursos. “Existe uma diferença enorme na nossa capacidade de atuação quando um desastre ganha repercussão nacional”, diz Belli.

Segundo ele, o problema não é apenas a falta de atenção, mas sua curta duração. “Muitas vezes, uma semana depois, ninguém mais lembra do que aconteceu. Parece que o problema já foi resolvido, quando, na verdade, está longe disso.”

Esse ciclo impacta diretamente o trabalho em campo. “Quando falamos em expandir a ajuda, como chegar a mil kits, isso fica muito mais difícil sem essa mobilização contínua.”

Escolas sem água: uma crise silenciosa

Se o cenário já é crítico nas comunidades, nas escolas ele assume contornos ainda mais graves. “Hoje, mais de 6.600 escolas públicas no Brasil não têm água potável. Isso significa que mais de um milhão de alunos frequentam aulas sem acesso à água segura”, alerta.

Apesar de avanços recentes na legislação, Belli avalia que o ritmo ainda está aquém do necessário. “Há progresso, mas ele é muito mais lento do que deveria ser diante da gravidade do problema.” Para ele, a mudança estrutural depende de ação direta do poder público. “O cenário ideal é o governo assumir essa agenda e estabelecer como prioridade a erradicação da falta de acesso à água no país.”

A Água Camelo revela, ao mesmo tempo, o potencial da inovação brasileira e a profundidade de uma desigualdade histórica. Quando soluções emergem da sociedade civil para garantir o básico, fica evidente o tamanho da lacuna deixada por políticas públicas insuficientes.

“O nosso sonho é que a Água Camelo deixe de existir”, afirma Belli. Até lá, o projeto segue levando água onde ela não chega e lembrando que o acesso ao essencial ainda está longe de ser uma realidade para todos. Assista a entrevista na íntegra: