A arte de desdizer

A presidente Dilma parece ter capitulado de vez ao velho discurso petista, agressivo e rançoso, segundo o qual o Brasil é uma terra de ineptos sem o PT no comando

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A entrevista de Dilma Rousseff à jornalista Mônica Bergamo, publicada domingo na Folha de S.Paulo, segue gerando repercussão, principalmente no que diz respeito à sua ambígua declaração sobre o ex-presidente Lula. Segundo Dilma, Lula não vai voltar ao Planalto porque dali, na prática, nunca saiu.

Ao meu ver, a declaração não tem relevância. Dilma queria atestar sua simbiose com Lula, mas acabou por dar margem à ideia de tutela. O que mais chamou a atenção foi a presidente comparar seu desempenho no combate à inflação ao do ex-presidente Fernando Henrique. Confesso que reli o trecho diversas vezes.

Nos bastidores, comenta-se que esta será a aposta dos marqueteiros para 2014: embaralhar os números e os fatos. Será mesmo que o PT vai fazer da inflação seu cavalo de guerra contra o PSDB, na atual conjuntura, e justo quando o Plano Real faz 20 anos? Se assim for, a presidente, de fato, não tem bons conselheiros.

Não é de hoje que o discurso oficial sobre o passado prima pelo rancor e pela falta de perspectiva histórica. Entre nós, da escolha dos aliados às privatizações, passando, obviamente, pela conduta, não é de hoje que o PT cultiva a arte de desdizer. Sobre a inflação, especificamente, vale a pena refrescar a memória.

Em 2011, na ocasião dos 80 anos do ex-presidente tucano, Dilma divulgou mensagem em que o homenageava, entre outras qualidades, por ser o "ministro-arquiteto de um plano duradouro de saída da hiperinflação e o presidente que contribuiu decisivamente para a consolidação da estabilidade econômica".

Dilma foi além: "acadêmico inovador", "democrata" e "espírito jovem", cujos ideais perduram até os dias atuais. "Esse espírito, no homem público, traduziu-se na crença do diálogo como força motriz da política e foi essencial para a consolidação da democracia brasileira em seus oito anos de mandato".

Dilma -- a da mensagem, e não a da entrevista à Folha -- acerta quando faz conexão entre a conquista da estabilidade econômica e a consolidação da democracia. O primeiro governo eleito democraticamente após 21 anos de ditadura naufragou em crise institucional, hiperinflação, moratória e caos social.

Era o Brasil das chacinas da Candelária e de Vigário Geral, do massacre do Carandiru, dos cara-pintadas e, como nos lembrou a ONU, do Índice de Desenvolvimento Humano "muito baixo". A dívida pública era impagável e o Estado, anacrônico e falido, tinha abandonado os serviços públicos e os programas sociais.

Se a melhor defesa é o ataque, que se dane a história. A verdade é que, aos poucos, a presidente Dilma Rousseff, muitas vezes criticada por não se dobrar ao partido, parece ter capitulado de vez ao velho discurso petista, agressivo e rançoso, segundo o qual o Brasil é uma terra de ineptos sem o PT no comando.

José Aníbal é economista e secretário de Energia de São Paulo.

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