A greve que não acabou

O desfecho da mobilização tanto na Bahia quanto no Rio de Janeiro nos leva a crer em prognósticos difíceis para os atuais governos

“Ah! imagina só que loucura essa mistura...Alegria, alegria é o estado que chamamos Bahia, de Todos os Santos, encantos e axé, sagrado e profano, o baiano é carnaval..."

A letra da música de Moraes Moreira traduz bem o sentimento do povo baiano, principalmente porque o Estado entra em estado de letargia neste período. As pessoas e o governo adiam tudo para depois do carnaval. Pois bem, para aqueles que não curtem a festa, não resta outra opção senão esperar a folia de momo passar, embora em muitos casos essa espera pode representar uma eternidade.

Os policias militares estão presos injustamente, digo isso porque ainda não se tem uma boa prova para as prisões. Os grampos ilegais ou legais que supostamente flagraram os crimes são reconhecidamente uma farsa. Todos (ou melhor, nem todos) sabem que a Rede Globo é a verdadeira serpente que ameaça a democracia desse país, atenta contra a mesma cotidianamente. O inacreditável é as pessoas que sofreram ou sofrem com os ataques sórdidos e orquestrados da Rede Globo se valerem da mesma para inocular o veneno da mentira na sociedade.

Há de se compreender que excessos foram cometidos, mas dificilmente numa paralisação de categoria profissional não se tenha pessoas com outros motivos que não aqueles pelos quais lutam a maioria (embora compreendamos que para uma categoria oprimida, sem direitos básicos garantidos, como o de reivindicar os seus direitos, fica fácil entender por que alguns, nos seus excessos, comentem atos repudiáveis).

Por outro lado, não precisa conhecer a história das greves ou dos sindicatos para saber que os governos incitavam ou infiltravam pessoas criminosas nas paralisações, não somente para obter informações, mas também para promover a violência, e consequentemente a revolta da população contra a paralisação. Urge a necessidade de se conceber a lutar dos profissionais de segurança pública como uma luta de classe. Tachar o movimento de “motim”, “rebelião armada” e “crime militar” não ajuda, muito pelo contrário, estimula o ódio, a revolta, o desprezo e a violência.

O desfecho da mobilização tanto na Bahia quanto no Rio de Janeiro nos leva a crer em prognósticos difíceis para os atuais governos. Ao invés de posarem como “beques da democracia”, deveriam ter a humildade em reconhecer que a questão não foi resolvida. O encarceramento, o endurecimento das leis, a repressão, a guerra psicológica. Já aprendemos com a ditadura militar que surtem efeitos colaterais indesejáveis. Temos uma Copa das Confederações (2013), a Copa do Mundo (2014) e os Jogos Olimpicos (2016). Diante da complexidade e da grandeza dos eventos, o caminho seria o do diálogo, de debater com a sociedade o modelo de polícia e de segurança pública que temos e que republicanamente precisamos ter.

Postergar esse debate é um verdadeiro desserviço à sociedade e à democracia. O advento das redes sociais (leia-se: a Primavera Árabe) permitiu a circulação de informações e a mobilização instantânea. O que os regulamentos militares rigorosamente proíbem, os chamados blogs policiais divulgam globalmente.

Infelizmente, as posturas e os discursos são irreconheciveis, não houve ainda no país pós ditadura militar um governo capaz de implementar um modelo de polícia republicana (pelos discursos, não há vontade política a curto prazo). Ainda estão presos ao modelo antigo, desde a ditadura militar que transformou as policias militares em força auxiliar do Exército.

Por fm, gastar dinheiro público com propaganda da redução misteriosa dos indíces de violência na festa de momo nos leva à seguinte sugestão: é melhor que o “beque da democracia” incite as paralisações duas ou três vezes ao ano, assim quem sabe o Estado consiga reduzir os altos indíces de violência. Na ausência de projetos governamentais na área, essa seria uma grande inovação.

Enio Silva da Costa é educador

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