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A guerra às drogas é uma luta vã, diz especialista em segurança Luiz Eduardo Soares

Cientista político e antropólogo conversou com a TV 247 sobre o comportamento e organização da polícia brasileira, das experiências de governos progressistas em segurança pública e do combate às drogas. “A política de drogas é uma estupidez abominável, é uma luta vã”, afirmou. Assista

Luiz Eduardo Soares e operação policial na favela

247 - Um dos maiores especialistas em segurança no Brasil, o antropólogo, cientista político e escritor Luiz Eduardo Soares falou à TV 247 sobre a relação entre a organização e o comportamento agressivo da polícia brasileira. Em sua avaliação, a política de guerra às drogas é “uma luta vã” e a PM tem os pobres e negros como inimigos.

Luiz Eduardo Soares explicou que o Exército tem sua organização estruturada de maneira hierárquica porque sua finalidade, a guerra, exige tal postura. Já a polícia, ao se organizar como o Exército, incorpora o mesmo objetivo do Exército, mesmo que sua finalidade seja proteger a população, não fazer guerra, acrescentou.

“A finalidade do Exército é fazer a guerra, no limite, defender o território nacional e a soberania. Por que a polícia deveria se organizar da mesma maneira que o Exército? Só haveria uma resposta: se a finalidade fosse a mesma. Mas a finalidade é completamente distinta, a finalidade de uma polícia é garantir direitos da cidadania. A tendência é que essa polícia organizada como o Exército atue como o Exército e como se estivesse em uma guerra, tratando os suspeitos como inimigos”.

Questionado se os pobres e negros são inimigos para a polícia, Luiz Eduardo Soares respondeu positivamente. “O nosso país é racista e isso está presente na cabeça dos juízes e dos policiais”.

Em relação à política de drogas, o cientista político, autor do livro Elite da Tropa, que originou o famoso filme dirigido por José Padilha, disse que esta é uma luta vã e afirmou que é preciso interromper o ciclo de recrutamento dos jovens ao tráfico.

“A política de drogas é uma estupidez abominável, é uma luta vã, não funcionou em parte nenhuma do mundo. A ideia do combate ao tráfico acaba sendo a guerra contra os pobres, as comunidades e todos acabam perdendo, inclusive os policiais. Não há avanço. Se nós entendermos que só há tráfico se houver renovação e ampliação desses grupos, ou seja, se os canais de recrutamento de jovens puder sempre serem mantidos abertos, nós compreenderemos que fechando esses canais de recrutamento eles deixarão de se reproduzir. Nós podemos então criar um foco de competição por cada jovem”.

Progressistas e segurança pública

O professor falou também sobre a falta de sucesso de governos progressistas e de esquerda na área de segurança pública e disse que isto se deve ao fato de que nunca experimentamos efetivamente, em uma abrangência nacional, políticas de segurança propriamente de esquerda.

“Não tivemos governos de esquerda nos estados fazendo políticas de segurança de esquerda. A segurança não é responsabilidade da União, e sim dos Estados. Via de regra, os governos de esquerda ou progressistas acabaram copiando os modelos tradicionais para atender, de forma às vezes demagógica e populista, as políticas eleitoreiras e, portanto, acabaram ficando presos aos padrões. Nós não tivemos variação significativa, não tivemos oportunidades ainda de testar, apenas em municípios”.

Inscreva-se na TV 247 e assista à entrevista na íntegra: