“A prisão de Delcídio foi uma surpresa para todos”

Considerado um dos quinze advogados criminais mais poderosos do país, José Luís Oliveira Lima, Juca para os íntimos, tem uma lista de clientes invejável para um profissional da sua idade, que vai do ex-ministro José Dirceu a executivos da Galvão Engenharia acusados na Operação Lava Jato; em entrevista ao 247, ele sustenta que, apesar de ter bom relacionamento com o juiz Sérgio Moro, "algumas decisões da Lava Jato fugiram do bom direito", mas diz confiar que "o STF, no tempo adequado, vai colocar as coisas nos trilhos"; Juca entende que "a presidente da República está juridicamente protegida", "não praticou nenhum ilícito" e que "com toda essa conjuntura desfavorável, se houvesse um fato concreto ela já estaria sendo processada"

Considerado um dos quinze advogados criminais mais poderosos do país, José Luís Oliveira Lima, Juca para os íntimos, tem uma lista de clientes invejável para um profissional da sua idade, que vai do ex-ministro José Dirceu a executivos da Galvão Engenharia acusados na Operação Lava Jato; em entrevista ao 247, ele sustenta que, apesar de ter bom relacionamento com o juiz Sérgio Moro, "algumas decisões da Lava Jato fugiram do bom direito", mas diz confiar que "o STF, no tempo adequado, vai colocar as coisas nos trilhos"; Juca entende que "a presidente da República está juridicamente protegida", "não praticou nenhum ilícito" e que "com toda essa conjuntura desfavorável, se houvesse um fato concreto ela já estaria sendo processada"
Considerado um dos quinze advogados criminais mais poderosos do país, José Luís Oliveira Lima, Juca para os íntimos, tem uma lista de clientes invejável para um profissional da sua idade, que vai do ex-ministro José Dirceu a executivos da Galvão Engenharia acusados na Operação Lava Jato; em entrevista ao 247, ele sustenta que, apesar de ter bom relacionamento com o juiz Sérgio Moro, "algumas decisões da Lava Jato fugiram do bom direito", mas diz confiar que "o STF, no tempo adequado, vai colocar as coisas nos trilhos"; Juca entende que "a presidente da República está juridicamente protegida", "não praticou nenhum ilícito" e que "com toda essa conjuntura desfavorável, se houvesse um fato concreto ela já estaria sendo processada" (Foto: Gisele Federicce)

Por Alex Solnik, para o 247 - Considerado um dos quinze advogados criminais mais poderosos do país, José Luís Oliveira Lima, Juca para os íntimos, tem uma lista de clientes invejável para um profissional da sua idade, que vai do ex-ministro José Dirceu a executivos da Galvão Engenharia acusados na Operação Lava Jato.

Nessa entrevista exclusiva ao 247, realizada em seu escritório, no 32º andar do Edifício Itália, o mais alto de São Paulo, no dia em que um senador da República pela primeira vez na história do Brasil foi preso no exercício do mandato, ele sustenta que, apesar de ter bom relacionamento com o juiz Sérgio Moro, "algumas decisões da Lava Jato fugiram do bom direito" e certas manifestações de procuradores, como a de que "passarinho que está preso quer cantar", são inadmissíveis.

Mas confia que "o STF, no tempo adequado, vai colocar as coisas nos trilhos". "Me assusta o fato de prender uma pessoa para depois investigar", diz ele ainda, ao mesmo tempo em que estranha a omissão daquele que considera "o órgão mais importante da sociedade civil": "Você vê hoje uma OAB acovardada. Ela tem medo de debater as questões mais polêmicas".

Juca entende que "a presidente da República está juridicamente protegida", "não praticou nenhum ilícito" e que "com toda essa conjuntura desfavorável, se houvesse um fato concreto ela já estaria sendo processada".

Leia a íntegra da conversa:

Juca, um senador pode ser preso, como aconteceu com Delcídio?

Hoje é um dia que assusta um pouco, é a primeira vez que se tem um senador da República preso preventivamente no exercício do mandato. Pelo que eu li na internet o ministro Teori teve o cuidado de levar a decisão para a turma e defendendo a tese de que o crime seria permanente, portanto caberia no estado de flagrante, portanto caberia a prisão. Eu vi também uma decisão que ele teria estudado com profundidade exatamente a possibilidade ou não de prender um senador nas condições do senador Delcídio. É a tese de um ministro do Supremo Tribunal Federal, foi acolhida por unanimidade por toda a turma, portanto há de se respeitar.

Você conversou com teus colegas advogados? Eles também pensam mais ou menos assim?

Eu acho que está todo mundo cauteloso ainda. Porque, insisto, eu nem gosto de me manifestar sobre um caso em que eu não atuo como profissional, eu estou comentando de maneira hipotética, pelo que eu li na imprensa. Precisa aguardar um pouco para ter mais noção, confesso que prefiro não falar de um caso específico porque eu não sou o advogado, posso vir a atuar no caso de maneira indireta, então prefiro não falar especificamente, mas é lógico que causou uma surpresa em todo mundo, todos os operadores de Direito, qualquer pessoa da sociedade, é um senador da República. Eu tive oportunidade de conhecer o senador Delcídio Amaral, uma pessoa da qual eu tive a melhor impressão.

Nunca ninguém falou algo desabonador a respeito dele.

Eu nunca ouvi falar nada dele. Vamos aguardar, ainda está no comecinho da história.

Esse novo contexto jurídico no Brasil depois da Lava Jato, as delações premiadas, como você está vendo isso? Vocês advogados estão tendo algum cerceamento ou a defesa está garantida?

Eu tenho uma visão prática do instituto da delação premiada. O que eu penso dela? Acho que não cabe ao advogado julgar. Há uma discussão, se ela é ética, se ela não é ética, se tem que fazer delação, se não tem que fazer delação. A minha visão é a seguinte: essa é uma decisão pessoal do cliente. Se um cliente vem ao meu escritório e diz que quer fazer a colaboração premiada, ele confia esse mandato ao meu escritório, eu vou fazer a colaboração premiada. Por que? Porque eu tenho que defender o interesse do meu cliente. Eu não faço um juízo de valor dela. Ela é agradável de fazer? Não, não é agradável. Você identificar alguém, você apontar alguém não é uma coisa prazerosa para ninguém. Mas eu acho que ao advogado não cabe julgar, eu não julgo meus clientes. Se ele quiser fazer eu vou dar as condições legais para que ele possa fazer. O que me incomoda nessa questão hoje é a inversão que a meu ver ocorre muito na primeira instância, ou seja, você prende uma pessoa para depois investigar. Isso me assusta. Porque, lógico, uma pessoa que está num cárcere, privada de liberdade, está numa medida de exceção, ela não está na plenitude dos seus direitos para que ela possa analisar com clareza essa questão da delação. Por exemplo: eu não acho que as prisões que foram feitas nessas operações, em regra, as prisões que foram efetuadas no caso de Curitiba, eu entendo que elas não foram feitas... fugiram das regras da jurisprudência do país. E tem manifestações absurdas. Eu lembro de um procurador que falou: "passarinho quando está preso ele quer cantar". Tem o parecer de um procurador que escreveu isso. Eu acho isso inadmissível. Mas eu vejo o Supremo como um guardião. Tenho plena confiança no Supremo e o Supremo saberá, no momento adequado, no momento de mérito, para valer, que ainda não chegou e com uma decisão mais profunda do Supremo ele vai colocar as coisas nos trilhos.

O Zé Dirceu ainda é teu cliente?

Eu atuo para o ex-ministro José Dirceu no caso da Ação Penal 470. Como no caso da Lava Jato eu atuo para algumas empresas eu achei melhor não atuar para ele neste caso. Deixei de ser o advogado. Tenho uma relação com ele, é lógico que é uma pessoa pela qual eu tenho um profundo carinho.

No caso dele, ele já estava em prisão domiciliar, ele poderia ter sido preso de novo?

Não posso falar, eu não quero falar de um caso específico de uma pessoa que não é mais meu cliente, até porque seria uma infração ética. Eu sei que tem profissionais que falam dos casos dos outros, eu prefiro não falar. O advogado dele é que vai poder questionar isso no Judiciário. Eu gosto do Zé Dirceu, fui advogado dele durante dez anos, sempre foi leal e correto comigo.

No âmbito da Lava Jato vocês advogados estão tendo livre acesso aos processos, como está sendo a relação com o juiz Sergio Moro?

Eu nunca tive nenhum problema com o juiz Sergio Moro. Em todas as audiências de que eu participei eu tive com ele uma relação formal, que é o que cabe, não tive nenhum imprevisto, nenhum incidente com o juiz Sergio Moro. Posso não concordar com as decisões dele, recorri das decisões dele, o que faz parte do estado democrático de Direito, mas nunca tive nenhum problema com ele. Nenhum. Zero.

Relacionamento normal é a regra, então?

Eu não posso dizer o dos outros, falo por mim. A nossa relação sempre foi muito cordial e respeitosa. Nunca tive nenhum problema com ele ou com os procuradores da República.

E essa questão de prender para depois investigar? Não soa estranho em pleno estado democrático?

Soa estranho. Por exemplo, você pega pessoas que vão prestar depoimento... por que elas precisam ser conduzidas coercitivamente? O ministro Marco Aurélio disse isso em algumas oportunidades. Que ele nunca tinha visto tantas prisões preventivas, tantas delações, que isso foge às regras do ordenamento jurídico. O Supremo sempre foi um guardião do princípio de presunção de inocência. Agora essa semana houve uma decisão de um ministro do STJ a respeito de um habeas corpus impetrado por um dos investigados da Lava Jato em que ele diz isso: a regra é a liberdade. A regra é a presunção de inocência. Então, até para que o julgamento seja respeitado, não paire qualquer dúvida, tem que estar dentro da jurisprudência. Eu acho que algumas decisões da primeira instância fugiram da jurisprudência, fugiram do bom direito e eu confio que o Supremo vai separar bem o que está absolutamente errado e o que está adequado.

Não tem a prisão domiciliar? Veja o caso do Marin – é justiça americana, mas ele pagou fiança e está em prisão domiciliar. Por que aqui não é assim?

A justiça americana – e eu atuo num caso lá na justiça americana- ela é mais avançada, a legislação é mais avançada no sentido desses acordos entre investigado, Departamento de Justiça e o Judiciário. Eu acho que o Brasil caminha para uma adequação processual nesses grandes casos. A colaboração premiada veio para ficar. Gostem ou não os puristas... os mais... os mais... como eu vou dizer? Eu acho que puristas é uma boa palavra. Ela veio para ficar. E a advocacia criminal vai ter que se adequar a isso.

Algum cliente teu fez delação premiada?

Eu participei de um caso fora do Brasil que não é uma colaboração premiada, é uma confissão, mas eu já participei aqui no Brasil, sim. Era o olhar que o meu cliente queria ter e eu não julguei. E eu vou defender o meu cliente nos limites do mandato que ele quer. Isso não me preocupa. Eu não gosto de julgar. Se eu gostasse de julgar ia ser juiz. Eu nem sei julgar direito quando meus filhos brigam, quem está certo, quem está errado, me atrapalho para fazer isso, imagina julgar um cliente, quem sou eu? Vinte anos de terapia me doutrinaram a não julgar as pessoas.

O que aconteceu com aquela moça que abandonou tudo e foi para Miami?

Beatriz Catta Pretta?

Ficou um mistério no ar, para mim pelo menos.

Eu acho que para todos. Eu não a conheço profundamente, encontro poucas vezes a Beatriz, encontrei pouco a Beatriz ao longo da minha carreira, sempre foi muito cordial e simpática comigo, eu escrevi um artigo inclusive na época na Folha dizendo que a Ordem tinha que defendê-la porque a convocação dela para a CPI era um escândalo e posteriormente a Ordem entrou com uma medida que garantiu que ela não precisasse comparecer. Ela foi vítima de muitos julgamentos equivocados, ela estava exercendo a profissão dela, a nossa profissão, com competência, com dedicação, agora, esse abandono entre aspas da profissão só ela pode dizer. Mas ela foi muito agredida por vários setores. Não sei porque ela abandonou tudo, foi uma decisão de foro íntimo dela que só ela vai poder explicar.

O abandono de Joaquim Barbosa também foi estranho.

O ex-ministro Joaquim, com quem eu tenho uma relação também muito boa - muitas pessoas achavam porque eu defendi o ex-ministro José Dirceu que eu tinha problema com o Joaquim. Pelo contrário, é um ministro que comigo sempre foi extremamente respeitoso, eu tinha uma relação muito boa com ele.

E é um cara muito culto, né?

Eu acho que ele decidiu tocar a vida dele por um outro caminho, ele defende mesmo um tempo menor de ministros na corte, é uma visão dele, não estou dizendo que eu concordo ou não, ele sempre pontuou isso, acho que tem que respeitar.

E deve ter sido um desgaste muito grande!

Aquele julgamento foi um desgaste enorme.

Eu não sei se a transmissão pela televisão melhora ou piora as coisas. O que você acha?

Eu acho o seguinte. A imprensa tem que ser livre em qualquer hipótese. Sempre livre. Prefiro uma imprensa errando muito do que imprensa sob censura. Eu acho que a cobertura da grande imprensa no julgamento da Ação Penal 470 foi absolutamente parcial. Eu não tenho a menor dúvida disso. Você acordava de manhã, o Bom Dia Brasil já tinha um bom tempo dedicado à Ação Penal 470, depois você ia para o Jornal Hoje é a mesma coisa, os jornais que iam ao ar durante o dia, a mesma coisa, depois você tinha os jornais de maior audiência e dá-lhe Ação Penal 470. Todas as edições extraordinárias... foi um massacre.

Atrapalhou você como advogado?

Dizer que a mídia não tem um papel na cobertura dos grandes julgamentos eu acho que é ingênuo. Qualquer pessoa ela é... o advogado é humano, o Ministério Público e o juiz também são humanos... o advogado sofre, sofre na rua... a confusão que existe entre advogado e cliente... eu já fui vítima de algumas colocações inadequadas... e aí simplesmente eu disse "eu vou lhe processar se você se exceder mais", quando você processa o primeiro a pessoa se assusta...

As pessoas não sabem que o papel do advogado é defender o bandido.

O advogado defende a acusação, não o bandido. O advogado defende um julgamento justo, a minha função é essa. Eu sempre digo quando pego um caso de repercussão aos meus clientes: eu estou defendendo a acusação. E o advogado muitas vezes... em certos casos não tem saída... então você pede uma pena justa, um julgamento justo, um julgamento dentro da lei e essa confusão da sociedade é muito cruel. Alguns juízes, alguns representantes do Ministério Público, alguns jornalistas deveriam sentar no banco dos réus para entender o que é o direito de defesa. Eu me assusto, por exemplo, quando vejo um grande jornalista escrevendo que "Curitiba precisa exportar para o Brasil a harmonia que existe entre o Ministério Público e o Judiciário". Não tem que existir harmonia nenhuma entre o Ministério Público e o Judiciário! Entre advogado e o Judiciário! Não existe essa harmonia. Essa harmonia, aliás, cheira mal! O juiz tem que ter um papel moderador, um papel distante das partes. E o Ministério Público é parte. Assim como a defesa é parte. O juiz de primeira instância, o ministro do Supremo, o ministro do Superior Tribunal de Justiça tem que ter distância das partes, não tem que ter harmonia com om advogado. Ele pode tratar bem o advogado, o procurador, mas harmonia, não! Essas sentenças que eu vejo na imprensa me incomodam muito.

Algumas pessoas da mídia falam qualquer coisa, como por exemplo o Marco Antônio Villa que é historiador, mas fala sem fundamento nenhum, só diz barbaridades, manda prender esse ou aquele...

Depois que eu assisti uma vez uma entrevista desse senhor eu confesso que quando o vejo eu mudo a estação. Não quero entrar no mérito, porque ele tem todo o direito de ter a opinião dele, eu não concordo, então eu pulo, eu tenho coisas mais importantes para pensar.

Você acha que essa cobertura da imprensa foi fruto de algum acordo ou cada jornal fez a sua e coincidentemente todas foram parciais, como você disse?

Eu não vejo acordo, de maneira alguma. Os veículos têm cada um o seu olhar e identificam qual é a cobertura correta. Eu não acredito que jornais como Folha, Estado, Globo, os grandes veículos tenham um conluio. Eles têm uma linha editorial, pode estar certa ou errada, não importa, mas nunca ouvi falar no sentido de um acordo.

Você acha que além de formar a opinião dos leitores comuns eles também influenciam decisões de ministros do STF, por exemplo?

Eu acho que na primeira instância a força da imprensa é muito grande. Mas no Supremo Tribunal Federal não tenho esse olhar. Estamos falando de ministros do Supremo Tribunal Federal, que são homens que têm um poder enorme! Falando na corte maior eu acredito na total tranquilidade...lógico que eles vêm televisão, leem jornais, mas não acredito que um ministro do Supremo fique acovardado por causa de uma matéria da imprensa. Eu me lembro dos votos do ministro Barroso e do ministro Celso de Mello muito nesse sentido, Celso de Mello quando decidia se cabiam ou não embargos infringentes, a grande imprensa foi muito dura e ele deu um voto magnífico. Você pode concordar ou não, mas ele deu um voto magnífico. Isso não quer dizer que os outros, que votaram em procedência do recurso dos embargos infringentes foram convencidos pela imprensa... eu tenho muita confiança no Supremo Tribunal Federal, eu gosto do Supremo Tribunal Federal do Brasil.

Você acha que o Cunha tem defesa?

Como já disse, não gosto de falar sobre um caso que não é meu. Eu acho que o advogado dele vai ter que trabalhar muito.

Qual é a melhor defesa? É não confessar?

Falando hipoteticamente? Não, às vezes, quando não há outro caminho a confissão te possibilita uma redução de pena...ela te possibilita algumas circunstâncias... aliás, eu acho que essa é uma situação importante que poderia ter na legislação processual: dar uma força maior à confissão. Que o acusado que confessasse tivesse mais benefícios, como tem nos Estados Unidos.

No Brasil dá a impressão que quem confessa é visto como trouxa.

Os benefícios são pequenos...

A delação premiada é mais estimulada que a confissão...

A confissão poderia ser aprimorada nisso. Outro dia o ex-ministro José Carlos Dias comentou isso comigo, indo a Brasília e eu acho que ele tem razão. A confissão deveria ser uma coisa mais sedutora para o acusado.

Não te parece um traço cultural do brasileiro? Aqui ninguém confessa nada, já nos Estados Unidos, sim.

Eu fiquei assustado com um número: em 98% das acusações nos Estados Unidos a pessoa se declara culpados. Ou seja, confessam. Só 2% vão a julgamento. É impressionante esse número.

E no Brasil?

Nunca vi esse número. Eu já vi pessoas confessarem, mas é um número muito pequeno.

Aqui as pessoas preferem jamais confessar e dá certo. O Maluf sustenta há anos que não tem dinheiro no exterior...mas a Interpol está no seu pé.

Mas o fato é que o Ministério Público que é o titular da ação penal não conseguiu provas contra ele, concorda?

Pois é, é um mistério.

É um fato!

O Marin passou décadas no Brasil, sempre houve comentários a seu respeito, mas a mão da Justiça não o alcançou, e em um ano a Justiça americano o prendeu. Como se explica isso? A Justiça brasileira é mais tolerante com o crime do colarinho branco?

Eu insisto que com relação ao governador Marin eu não quero me manifestar. Eu acho que no Brasil hoje tem um avanço grande, tem uma Polícia Federal muito mais aparelhada, um Ministério Público mais competente e um Judiciário mais atuante. O Brasil está melhorando bem nessa questão do aparelhamento dos órgãos que investigam. Não acho que a legislação penal tenha que mudar, já temos leis demais, tem que mudar a legislação processual. As pessoas confundem Direito Penal com instrumentos para reduzir a criminalidade. O que vai reduzir a criminalidade é uma situação social melhor, uma distribuição de renda melhor, a certeza da punição, porque a pessoa tem que ter certeza que, se ela praticar um crime ela vai ser punida. O Brasil ainda está engatinhando. Precisa investir mais em educação. Com educação se resolve quase tudo. Nós temos leis com penas duras.

Mas às vezes as leis parecem pouco definidas, dois juízes a partir da mesma leitura tomam decisões opostas.

Mas isso é o Direito! Essa é a beleza do Direito! Você tem, no caso de um colegiado os tribunais de justiça, o superior tribunal de justiça e a corte maior é essa riqueza. Aí o leigo pode achar esquisito ou não compreender na profundidade, mas nós operadores do Direito, não... eu acho que a beleza do Direito é justamente essa! Em que pese que o coração saia pela boca, porque você ali na tribuna está contando os votos mentalmente...essa é a beleza do Direito... do julgamento colegiado.

No caso do impeachment a constituição fala em crime de responsabilidade... mas não define o que é crime de responsabilidade. E isso confunde o cidadão que passa a achar que qualquer coisa pode ser crime de responsabilidade.

Aí você tem o jogo do poder. Você tem uma presidenta que está com um nível de popularidade muito baixo, você tem partidos políticos que querem o poder. É legítimo eles pedirem o impeachment da presidenta? É legítimo, o impeachment está previsto na constituição. Agora, precisa ter um fato concreto, um crime de responsabilidade cabalmente demonstrado que até agora não existe. Tanto que hoje você já identifica, quer nos articulistas mais duros contra a presidente da República uma posição mais moderada, você vê grandes lideranças, como o próprio presidente Fernando Henrique, já recuando, enfim, acho que essa questão aí é muito mais política que jurídica. Juridicamente a presidente está absolutamente protegida. Isso é visível. Protegida porque ela não praticou nenhum ato ilícito que comprovasse algum crime de responsabilidade como está claro, em que pesem outros... eu sei que teve o jurista Hélio Bicudo que pediu o impeachment, mas me parece que não tem a consistência para que desse embasamento a um pedido de impeachment.

Impeachment é quando um presidente mata ou rouba o erário, esse é o resumo da ópera.

Nesse clima desfavorável que a nossa chefe do executivo vive atualmente se houvesse um fato concreto ela já estaria sofrendo um processo, é inegável. Com a imprensa contra, com uma parcela significativa da sociedade contra... Não existe isso. Não tem porque não tem.

As pessoas não têm informações corretas e acham que tudo é motivo para impeachment.

As pessoas leem? Qual é a tiragem dos grandes jornais?

300 mil exemplares.

Uma tiragem pífia! As revistas...

As pessoas se informam sobre futebol. Hoje falam mais do jogo do Palmeiras e Santos do que da prisão do Delcídio.

Aliás, eu espero que o Palmeiras ganhe. Porque eu sou palmeirense doente.

Eu também. Mas acho que hoje vai ser difícil.

É difícil, mas eu confio no time e eu gosto muito do presidente do Palmeiras. Eu acho que ele vai passar para a história como um dos grandes presidentes que o Palmeiras teve.

Às vezes o time joga bem, outras não...

É um time que está em formação ainda. Vários jogadores foram contratados... Hoje, a partir das dez horas meu celular está desligado... eu brinco que eu tenho duas paixões: o Palmeiras e a Vai-Vai. Eu sou advogado da Vai-Vai, vou a todos os ensaios da Vai-Vai, toda quinta e domingo eu estou na quadra...

Por que essa paixão?

Começou quando eu virei advogado deles. Lá atrás, quando teve um problema na apuração. Depois disso comecei a frequentar a quadra da escola, que é uma quadra na rua, perto da Praça 14 Bis e eu vou religiosamente, toda quinta e domingo, tenho uma relação muito próxima com o presidente da escola, esse ano o tema é a França...eles vão fazer uma homenagem grande... a escola está linda, tem tudo para obter o bicampeonato. Ontem passei a tarde aqui conversando com o presidente.

Vai ter uma referência ao atentado de Paris?

Sim, a escola está atenta. Aliás, você está convidado, quando quiser ir comigo, toda quinta e domingo estou lá. Vou com meus filhos, meu filho mais velho é apaixonado pela Vai-Vai, vai comigo a todos os ensaios.

E os caras são bons de samba?

É bateria nota dez...a bateria que mais notas 10 teve em São Paulo foi a da Vai-Vai...A bateria do Mestre Tadeu.

Mais que a Mancha Verde?

Muito mais, não dá para comparar. Escola de samba é uma coisa, futebol é outra. As duas coisas não se misturam.

Roger Abdelmassih é teu cliente ainda?

É meu cliente.

E como está a situação dele?

Nós temos um habeas-corpus que vai ser julgado no Supremo, relatoria do ministro Dias Toffoli onde a gente questiona a legalidade da ação. Por que? Nós defendemos que, no caso, pela lei antiga, para que você fizesse uma representação, você vítima de um abuso, você tem seis meses para efetuar a representação. Em todos os casos exceto um em que o dr. Roger foi acusado todos tinham decaído. Portanto, essa ação jamais deveria ter existido. Essa era a jurisprudência dominante no Supremo Tribunal Federal.

Foi estranho mesmo. A pessoa agredida geralmente denuncia a violência na hora seguinte à da agressão.

Nós tivemos casos em que as denúncias foram feitas cinco, seis anos depois. O caso do dr. Roger é um caso que vai voltar ao debate. No momento adequado.

A imprensa já rotulou teu cliente de "monstro".

Quando eu entreguei os memoriais à ministra Ellen Gracie, que era a relatora do primeiro habeas corpus nosso levei para ela as três revistas semanais. E o dr. Roger estava estampado na capa de todas. E eu disse, "ministra eu estou em igualdade de condições"? E ele ainda nem tinha sido denunciado! Se um estrangeiro chegasse no Brasil naquele final de semana ele ia achar que o dr. Roger tinha sido condenado, transitado em julgado – e nem denúncia havia. Lógico, o caso do Roger tinha um apelo maior porque qualquer pessoa entende do que ele estava sendo acusado. O leigo, o mais simples, a classe média, o rico... ele tinha um apelo muito grande. O dr. Roger tem um apelo muito grande. Ele está no cárcere... está lutando contra... ele já tem uma idade considerável, tem um problema de saúde grande, mas o Roger é um homem de muita fé. Vamos aguardar a posição do Supremo.

Ele confessou ter tido as relações sexuais, mas sem abuso, é isso?

Ele já declarou isso à revista Piauí, que fez uma matéria grande com ele. Ele sempre disse isso, ele nunca negou ter tido alguns relacionamentos com algumas clientes dele, o que não é crime. Agora, ele nunca abusou, ele sempre negou qualquer abuso contra qualquer pessoa. Ele é um sobrevivente.

Márcio Thomaz Bastos faz falta?

Eu trabalhei em alguns casos com o Márcio. Quatro, cinco. Eu tinha uma relação mais de amizade com ele do que profissional. O próprio caso do Roger nós trabalhamos juntos, em mais dois ou três casos, mas o Márcio faz falta, sim. Ele era um belíssimo conselheiro. Foi o maior estrategista que eu conheci. Ele tinha uma habilidade... primeiro, que ele era um lorde... segundo, ele sabia ouvir. O Márcio era aquele cara que você ia ao escritório dele ou à casa dele e ele ouvia. É uma delícia você conversar com uma pessoa que escuta e presta atenção. Eu tenho muita saudade do Márcio. E neste momento ele seria um homem que teria credibilidade para estar à frente. É uma pena! Ninguém ocupou o espaço dele, ninguém vai ocupar o espaço dele.

Era um Deus mesmo? "God", como o chamavam os amigos?

Ele tinha esse apelido de "God". Eu acho que foi o maior estrategista que eu já conheci. E um grande amigo. Márcio tinha 79 anos quando faleceu e eu vou fazer 50...é uma diferença de idade aparentemente consistente, mas eu tinha uma relação de amizade com ele. Eu e o Celso Vilardi, outro amigo queridíssimo, a gente saía para jantar e ele sempre era o mais animado, era o que chegava mais cedo, sempre queria sair mais tarde, às vezes a gente cansado e às seis horas da manhã seguinte ele estava fazendo esporte. Muito triste. Vira e mexe eu lembro dele.

Me parece que, sem ele, nem a OAB é mais a mesma...

A OAB é o órgão mais importante da sociedade civil. Eu sinto saudades dos grandes presidentes, como ele, como Batocchio, como Mariz. Você vê hoje uma OAB acovardada. Ela tem medo de debater as questões mais polêmicas, tem receio de ir contra a opinião pública... eu acho que ela toma decisões de maneira açodada e essas decisões são para agradar à opinião pública... eu gosto de uma OAB mais independente, mais distante do poder, mais distante de cargos e mais valente. Sobral Pinto já dizia: "advocacia não é para covardes".

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