A sociedade não tem que estar a serviço da economia, mas o contrário, defende Kátia Maia, da Oxfam
Diretora-executiva da Oxfam Brasil participou de um debate sobre a importância da renda básica durante a crise do coronavírus com a economista e professora Mônica de Bolle e o ativista do movimento negro Douglas Belchior (assista)
247 - Se o governo federal não agir de forma mais rápida e eficaz para ajudar financeiramente a população brasileira mais pobre, a pandemia do coronavírus causará efeitos devastadores, principalmente nas periferias e favelas de todo o Brasil.
Esta foi a ideia principal da transmissão ao vivo feita pelo Youtube nesta quinta-feira 2, com participação da diretora-executiva da Oxfam Brasil, Katia Maia; da economista e professora da universidade Johns Hopkins, em Washington (EUA), Mônica de Bolle; e do ativista do movimento negro e da UNEAfro Douglas Belchior. Eles falaram sobre a importância da renda básica para minimizar o impacto da crise do coronavírus (assista abaixo).
Para Mônica de Bolle, a aprovação da renda básica de R$ 600 por três meses no Congresso foi uma pequena vitória, mas é necessário que o programa abranja muito mais gente. “Penso que ele deveria alcançar metade da população brasileira, 100 milhões de pessoas. E por muito mais tempo. No mínimo, seis meses. Eu defendo 12 meses, prorrogáveis. Porque esta será a extensão da crise.”
Segunda ela, os Estados Unidos mandarão um cheque de 1,2 mil dólares para a casa de todas as pessoas. “Mas, no Brasil, a coisa parece andar pra trás. É espantoso. O governo brasileiro está embromando. A aprovação da Renda Básica aconteceu na segunda. Hoje é quinta e nada ainda foi pago. E sete dias é uma eternidade nesta epidemia.”
“Este é o momento da responsabilidade humana. A sociedade não tem que estar a serviço da economia. É a economia que tem que estar a serviço da sociedade”, afirmou Katia Maia, da Oxfam Brasil. “No fim das contas, o governo tem feito o máximo possível para atrasar o pagamento da renda básica de R$ 600 para informais e mais vulneráveis.”
Douglas Belchior lembrou que à grande parte da população brasileira – pobre e negra – é negado o direito ao isolamento social. “Grande parte do povo não pode se dar ao luxo de parar. O trem continua cheio. As ruas ocupadas por camelôs. Não param porque não podem. Porque a mulher sai de manhã para ganhar o almoço e o pai à tarde para garantir a janta. Porque está faltando comida, porque falta água de 3 a 4 vezes por semana.”
O ativista afirmou ainda que se a contaminação do coronavírus se repetir com a mesma força com que ocorreu na China, Itália, Espanha e Estados Unidos, as periferias brasileiras vão viver o terror absoluto. “Se em países riquíssimos o efeito foi devastador, como é que vamos viver aqui? Devemos estar preparados para o pior”, afirmou.
A economista Mônica De Bolle concordou com Douglas sobre o efeito devastador da pandemia de coronavírus no país caso não haja maior responsabilidade social do governo com os vulneráveis. “A desigualdade brasileira é tão agressiva que impede que uma parcela substancial da população tenha acesso a serviços básicos”, afirma.