Arma do crime: do homem de bem ao psicopata

Orevlver que matou 12 crianas foi comprado legalmente. Roubado, caiu em poder de criminosos, antes de ser vendido ao assassino Wellington por R$ 260

247 – “Se soubesse que era para isso, nunca teria feito. Tenho uma filha e uma enteada que estudam em frente à escola onde ele morava e passou pela minha cabeça que isso poderia ter acontecido lá”, disse Izaías de Souza, à imprensa, quando foi apresentado pela polícia, ao lado de Charleston Lucena. Os dois foram os intermediários na venda de um revólver calibre 38 a Wellington Meneses, autor dos disparos que mataram 12 crianças, no Massacre do Realengo. Cada um recebeu R$ 30 pela negociação – o “dono” da arma, um suposto Robson, procurado pela polícia, teria ficado com R$ 200.

Izaías, que é vigia noturno, mas está desempregado, chorou e disse que não se sentia culpado pela tragédia. Afinal, não foi ele quem disparou o gatilho. Robson, se um dia vier a ser preso, dirá o mesmo. E o primeiro dono da arma, que a adquiriu legalmente, em 1994, falará a mesma coisa: “Que culpa tenho eu?” Nas investigações preliminares, feitas pela polícia do Rio de Janeiro, consta que seu revólver calibre 38 teria sido roubado.

Se foi esse o percurso da principal arma utilizada no crime (foi também utilizada uma pistola calibre 32), eis abaixo a cadeia de acontecimentos:

• Um “homem de bem” adquire um revólver para se proteger dos bandidos.

• Como em 99 de cada 100 casos, isso nunca funciona, o “homem de bem” tem sua arma roubada durante um assalto.

• Em poder de bandidos, a mesma arma é utilizada dezenas de vezes em outras ações criminosas.

• Até que, amortizada, ela é negociada no mercado paralelo. Wellington Meneses paga R$ 260.

• Na manhã do dia 7, o assassino, uma mente perturbada que teve acesso fácil a armas letais, invade uma escola no Realengo e mata 12 crianças.

Uma situação como essa deveria ser o argumento definitivo para apressar o desarmamento no Brasil. Na Inglaterra, a venda de armas foi totalmente proibida, após um massacre numa escola (leia mais). Hoje, enquanto 50 mil pessoas são assassinadas por ano no Brasil, o número não chega a 50 na Grã-Bretanha.

Mas, não. Sempre que são lançadas campanhas pelo desarmamento – idéia que o Brasil 247 apóia abertamente – surge uma gritaria imediata dos que se colocam como defensores da liberdade individual. A revista Veja, por exemplo, fez campanha explícita contra o desarmamento em 2005 (leia mais), e seu principal blogueiro, Reinaldo Azevedo, tem classificado a idéia do desarmamento como “esquerdopatia”, como se a Inglaterra, berço do liberalismo econômico, fosse também “esquerdopata”.

A realidade, no entanto, é outra. Uma tese de doutorado feita com dados empíricos pelo economista Daniel Cerqueira revela que 1% a mais de armas em circulação – legais ou ilegais – causam 2% a mais de homicídios. E a cada 18 armas apreendidas pela polícia ou devolvidas em campanhas de desarmamento, uma vida é salva. “Se uma pessoa é desequilibrada e não tem acesso à arma, o estrago que pode causar é muito menor”, disse Cerqueira ao jornal O Globo, na sua edição deste domingo.

Diante dessas evidências, a ONG Viva Rio terá nesta segunda-feira uma reunião emergencial com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. A idéia é lançar uma nova campanha de desarmamento, que retire armas e munições de circulação. “Precisamos sim de uma política mais restritiva em relação ao porte de arma”, diz o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo.

Além de restringir o acesso às armas (e eventualmente até proibir), o Brasil precisa fiscalizar com urgência o funcionamento dos clubes de tiro. Repórteres do jornal Estado de S.Paulo visitaram dez clubes desse tipo e constataram que, em sete deles, não há necessidade de comprovar bons antecedentes nem de passar por teste psicológico. E até menores de idade são aceitos nos treinamentos.

Sim, o Brasil está formando futuros assassinos. E ninguém se sente culpado ou responsável por isso.

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