As voltas que uma tesoura dá

Acredite-se se quiser, mas a história que você vai ler não foi inventada. É memória de jornalista

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Tenho um chapa muito rico, dono de cadeia de lanchonetes em São Paulo. Ninguém acredita que um dia foi muito pobre. Num desses momentos de extrema dureza, sem ter onde cair vivo, um amigão dele, nadando em dinheiro, convidou-o para festa do balacobaco em castelo nos arredores de Londres. Pagava-lhe passagem, mas seria preciso arrumar uma grana para o hotel e – why not? – esticar em Paris.

Arrumou, botou um pano legal para a big party numa sacola militar, jogou-a nos costados e partiu. Mal estacionou a sacola de guerra num hotelzinho de Londres, pobre pero contento, mandou-se direto para Portobello Road, porque era sábado, dia da Portobello Road Market, o badalado mercado de rua.

Apesar da grana curta, deixou-se atrair ali por uma tesoura dentro de estojo revestido de veludo. Não fazia nenhum sentido comprá-la, vacilou, mas comprou assim mesmo.

Mais tarde, por coincidência, os ricaços da trupe do dono da festa o convidaram para ir a Savile Row, o templo londrino dos elegantes, onde Dom Pedro II costumava fazer seus “costumes”.

Enquanto o alfaiate tomava as medidas de um deles, dedicaram-se a um dos motes do grand monde na época: alfinetar o empresário Ricardo Mansur, em plena ascensão no Clube dos Milionários.

Lembraram, então, lance folclórico do homem que um dia viria a quebrar o Mappin e a Mesbla, deixando milhares de famílias no miserê. Ricardo Mansur, que mimetizava os irmãos Diniz, do Pão de Açúcar, inclusive na paixão pelo pólo, soube que o falecido Cidão encomendava ali blazers feitos com lã de camelo, coisa finíssima. E resolveu fazer um na mais tradicional entre as tradicionais alfaiatarias do pedaço. Tomada as medidas, fez uma exigência, com sua habitual arrogância.

-- Escute, quero um blazer azul-marinho.

O austero alfaiate, com o perdão do pleonasmo, olhando-o com comiseração, respondeu:

-- Fique tranquilo, assim que nascer um camelo azul-marinho eu aviso ao senhor.

Meu chapa ainda não ganhou bufunfa que lhe permita bancar festa como aquela no castelo inglês, que marcou o início de sua prosperidade. Livrou-se da maré de azar, montou negócio próprio, que se expandiu pelo estado. Firmou sólida fama de homem generoso e leal, dado a brindar os amigos com grandes surpresas.

Um deles, que lhe quebrara tremendo galho, é um desses caras que têm tudo. Sem saber como retribuir, encontrou o estojo com a tesoura que comprou em Londres, esquecida há décadas numa gaveta, e levou-lhe de presente. Quando seu amigo abriu o estojo, transfigurou-se, perdeu todos os pontos cardeais, bispais e conegais. Começou a berrar e dizer coisas desconexas.

Meu chapa se mandou, perplexo, sem entender nada, e procurou amigo comum, que conhecia o personagem de longa data. Ao ouvir a história, arregalou os olhos e matou imediatamente a charada:

-- Você mexeu num vespeiro. O pai dele matou-se com uma tesoura. Ele, ainda um moleque, conseguiu arrancá-la do peito do pai, mas não adiantou.

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