Banco dos EUA confirma empréstimo a mineradora brasileira com fornecimento de terras raras
Financiamento de US$ 565 milhões à mineradora brasileira inclui cláusulas que direcionam metais estratégicos a interesses americanos e aliados
247 - O banco de desenvolvimento dos Estados Unidos confirmou que o empréstimo concedido a uma mineradora brasileira inclui dispositivos que asseguram o fornecimento de terras raras a interesses americanos e países aliados. A informação foi revelada pelo jornal Financial Times, que trouxe detalhes inéditos sobre o acordo.
Segundo a reportagem, o financiamento de US$ 565 milhões foi concedido pela US International Development Finance Corporation (DFC) à mineradora Serra Verde, responsável por uma das principais operações de terras raras no Brasil. Em contrapartida, os EUA garantiram mecanismos que permitem influenciar o destino da produção.
Conor Coleman, diretor de investimentos da DFC, afirmou que o acordo prevê controles específicos sobre a comercialização dos metais. “O acordo tinha controles de offtake garantindo que [os metais] fossem para os Estados Unidos e partes alinhadas aos EUA”, disse ao Financial Times. Ele acrescentou que a capacidade de influenciar os compradores está diretamente ligada ao financiamento: “vinculado ao nosso financiamento”.
A operação envolve a mina Pela Ema, em Goiás, considerada estratégica por produzir terras raras pesadas — insumos críticos para tecnologias avançadas. Esses materiais são utilizados na fabricação de ímãs permanentes presentes em produtos que vão de carros elétricos a sistemas de defesa.
A movimentação ocorre em um momento em que os Estados Unidos buscam reduzir sua dependência da China, que domina a produção global de terras raras. Nesse cenário, o Brasil ganha relevância por possuir a segunda maior reserva mundial desses minerais, embora ainda explore uma parcela limitada de seu potencial.
O Ministério das Relações Exteriores brasileiro informou que o tema vem sendo discutido entre os dois países. “Equipes técnicas de Brasília e Washington estão tratando do assunto em reuniões regulares”, declarou a pasta.
Além dos EUA, o interesse pelas reservas brasileiras também envolve outros atores globais, como União Europeia, Índia e China. A Serra Verde, atualmente a única produtora em operação no país, tem ajustado seus contratos para ampliar a oferta a diferentes mercados, reduzindo a concentração anterior nas vendas para o mercado chinês.
O financiamento da DFC foi ampliado em dezembro, passando de US$ 465 milhões para US$ 565 milhões. A empresa brasileira não comentou os termos do acordo.
Paralelamente, os EUA têm adotado estratégias semelhantes para garantir acesso a outros minerais críticos. A DFC anunciou planos para converter dívida em participação na mineradora australiana Syrah Resources, o que pode resultar em cerca de 20% de participação na empresa.
Ao explicar a estratégia, Coleman afirmou: “Não queríamos arriscar que esses ativos caíssem em mãos erradas”. Segundo ele, o movimento permitirá aos EUA “assumir um papel muito mais ativo na empresa”.
A Syrah enfrenta dificuldades financeiras em meio à queda dos preços do grafite, pressionados pelo excesso de oferta chinesa. Em 2024, a companhia declarou força maior em sua operação em Moçambique, devido a distúrbios civis, mas retomou a produção posteriormente.
Outra iniciativa envolve a Perpetua Resources, que informou que o Export-Import Bank dos EUA pretende conceder um empréstimo de US$ 2,7 bilhões para um projeto de ouro e antimônio — mineral utilizado tanto em aplicações industriais quanto no setor de defesa.
Os acordos reforçam a estratégia americana de garantir acesso a matérias-primas essenciais, em meio à crescente disputa global por recursos considerados críticos para a economia e a segurança nacional.