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Banco Master tinha 10% do caixa para CDBs ao ser liquidado, diz Galípolo

Presidente do Banco Central diz em CPI que instituição perdeu liquidez após negativa de venda e dependia do FGC para honrar compromissos com investidores

Gabriel Galípolo e Daniel Vorcaro (Foto: Saulo Cruz/Agência Senado | Reprodução )

247 - A liquidação do Banco Master foi determinada após o Banco Central identificar que a instituição possuía em caixa apenas 10% do valor necessário para honrar pagamentos de Certificados de Depósito Bancário (CDBs). A informação foi revelada pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo, durante depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado no Senado, nesta quarta-feira (8), conforme reportagem do Valor Econômico.

Segundo Galípolo, o cenário crítico se consolidou ao longo de 2025, especialmente após o Banco Central rejeitar, em setembro daquele ano, a proposta de aquisição do banco pelo BRB. A partir desse momento, o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) passou a arcar com parte dos compromissos da instituição, enquanto o restante do passivo foi consumindo rapidamente o caixa disponível.

“O banco [Master] encolhe ao longo de 2025, enquanto [o BC] está fazendo esse processo de análise”, afirmou Galípolo aos senadores. Ele destacou que a autoridade monetária observou um comportamento atípico na tentativa de geração de liquidez: a venda de carteiras de crédito recém-originadas.

De acordo com o presidente do BC, a situação levou a uma intensificação das investigações internas. “Em março [de 2025], o diretor de fiscalização [Ailton Aquino] sobe à presidência [do BC] e diz que está fazendo a investigação das carteiras. Investigar significa encontrar evidências de que o empréstimo efetivamente ocorreu”, explicou.

Ainda em março de 2025, o Banco Central instaurou um processo sancionador contra o Banco Master por descumprimento de exigências mínimas, como o recolhimento compulsório. Antes disso, havia sido firmado um termo de compromisso que previa ajustes na estrutura de capital e governança da instituição no prazo de seis meses.

“Mas em abril de 2025 o recolhimento compulsório não é feito e a gente abre o processo sancionador”, disse Galípolo. Foi nesse contexto que surgiu a tentativa de aquisição pelo BRB, posteriormente barrada pelo regulador.

O presidente do BC ressaltou que a legislação exige o esgotamento de soluções de mercado antes da liquidação de uma instituição financeira. “A lei demanda que o BC esgote alternativas de mercado antes de liquidar o banco, porque é a menos custosa para o sistema”, afirmou.

Com o avanço das análises, a proposta de compra foi sendo reduzida até perder viabilidade. Sem conseguir captar novos recursos no mercado, o Banco Master passou a depender do suporte do FGC para manter a liquidez e pagar os CDBs garantidos, à medida que venciam.

“O esgotamento do processo se dá em setembro [de 2025] e o Master já não conseguia fazer captações no mercado. Então, para continuar tendo liquidez, pede suporte ao FGC, que se comprometeu a pagar pelos CDBs que já tinham garantia do fundo, conforme fossem vencendo”, detalhou Galípolo.

Ele avaliou que a atuação do FGC foi adequada diante do risco sistêmico. “Dessa forma, pagaria R$ 5 bilhões por mês”, disse, ao explicar que, em caso de quebra imediata, o fundo teria que cobrir todo o estoque de uma só vez.

Durante a audiência, Galípolo também defendeu que o Banco Central siga rigorosamente os procedimentos legais em processos de liquidação, para evitar contestações judiciais futuras. “O BC, para combate ao crime organizado, tem dever de cooperar com instituições que têm competência legal e técnica para investigar”, afirmou.

O presidente da autoridade monetária ainda ressaltou a importância de respeitar os limites institucionais. “Entendo como normalizar como não recuar daquilo que são suas obrigações legais e seu mandato legal, mas também não exorbitar o que é sua função e obrigação legal”, disse. Ele acrescentou: “De 2018 para cá, todas as 16 resoluções que existiram de instituições financeiras seguiram estritamente essa regra (de sigilo dos documentos)”.

O depoimento também mencionou um encontro ocorrido em novembro de 2024 no Palácio do Planalto, com a presença de Galípolo, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, além de outros agentes públicos.

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