Belluzzo: Moro perdeu a função de juiz

Luiz Gonzaga Belluzzo afirma que "Moro foi carregado na voragem das pestilências dos intolerantes. Perdeu a noção da função jurisdicional, assim como o personagem Doutor Rieux descurou do devastador avanço da peste"

Brazil's Justice Minister Sergio Moro attends a session of the Public Security commission at the National Congress in Brasilia, Brazil May 8, 2019. REUTERS/Adriano Machado
Brazil's Justice Minister Sergio Moro attends a session of the Public Security commission at the National Congress in Brasilia, Brazil May 8, 2019. REUTERS/Adriano Machado (Foto: ADRIANO MACHADO - REUTERS)

Por Luiz Gonzaga Belluzo, na Carta Capital - As montanhas brasileiras têm se esmerado em parir ratazanas de vários tamanhos e de variegada pelugem

Rebolando na frigideira do The Intercept, o ex-juiz Sergio Moro ameaçou os brasileiros com um “pouco de cultura”.

Recorreu ao poeta romano Horácio: Parturiunt montes, nascetur ridiculus mus (A montanha pariu um rato).

É modéstia afirmar que a montanha pariu “um” rato. Pariu uma ninhada.

Disse e digo: as montanhas brasileiras têm se esmerado em parir ratazanas de vários tamanhos e de variegada pelugem. Veja, caro leitor, camundongos miúdos movimentam os bigodes e emitem guinchos nos esgotos das redes sociais. Incentivados por ratazanas graúdas e poderosas, transmitem a peste da intolerância, como os ratos de Albert Camus transmitiam a peste bubônica na cidade argelina de Orã.

O ministro Moro foi carregado na voragem das pestilências dos intolerantes. Perdeu a noção da função jurisdicional, assim como o personagem Doutor Rieux descurou do devastador avanço da peste.


(...) 

A onda de truculências que atravessa o País pretende neutralizar o conflito de opiniões e extraditar as lutas sociais, políticas e econômicas, constitutivas da sociedade capitalista em qualquer de suas etapas, para além do território vigiado e protegido precariamente pela lei.

Desterrar o conflito social para fora da esfera pública e colocá-lo à margem da ordem jurídica certamente fará irromper na sociedade de massa pobre e empobrecida a verdadeira face da política:

a oposição amigo/inimigo, uma oposição real irredutível, que não pode ser “superada”, mas apenas pacificada provisoriamente pelo veredicto da soberania popular, fonte do poder constitucional.

No ambiente de quase unanimidade midiática, a indignação sobe das entranhas para o peito, quase na garganta, uma espécie de regurgitamento moral sufocante que culmina na morte da inteligência.

O depoimento de Glenn Greenwald no Congresso demonstrou cabalmente que é importante criminalizar a divulgação dos diálogos entre o juiz e os procuradores e esquecer o fato e as suas circunstâncias, sua história e suas raízes.

A precária situação material e moral das massas facilita a penetração da cultura de negação.
Suscita uma espécie de individualismo dos desesperados, o que acentua a incapacidade de descobrir os fatores da desgraça comum.

O mito primário da luta do Bem contra o Mal impede o cidadão de desvendar as forças impessoais, que, como a peste, levam à morte a autonomia dos indivíduos, ao colapso de sua capacidade de avaliar e julgar.


O chamado público não consegue perceber as diferenças, tantas são as semelhanças, e isto transforma a política numa guerra de efeitos especiais.A indiferenciação das posições e das atitudes abre caminho para o avanço de projetos e ideias reacionárias, porque “todos são farinha do mesmo saco”.

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