Bolsonaro não é louco, isso é banalizar os sofrimentos psíquicos, diz professora Jacqueline Muniz

Antropóloga e professora da UFF Jacqueline Muniz disse que no Brasil ocorreu um processo de construção do mito, voltado para Jair Bolsonaro. Em entrevista à TV 247, ela analisa seu método de governar. Assista

Professora da UFF Jacqueline Muniz e Jair Bolsonaro
Professora da UFF Jacqueline Muniz e Jair Bolsonaro (Foto: Divulgação/Instituto Vladimir Herzog | Reuters)
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247 - A antropóloga e professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) Jaqueline Muniz, em entrevista à TV 247, disse que não considera Jair Bolsonaro um louco, porque isso seria banalizar os sofrimentos psicológicos. Para ela, Bolsonaro passou por um processo de construção do mito.

“Eu não vejo o presidente nem como maluco e nem como alguém que tem transtornos psíquicos, isso é uma naturalização e banalização dos sofrimentos psíquicos e da loucura, e isso tem seus rendimentos”, alertou.

Sobre a “construção mito”, ela explicou que o processo ocorre por meio de um “sacrifício ritual”. “Desde sua campanha ele se ofereceu para apanhar, ele é o cara que todo mundo xinga. Isso quer dizer que ele está perto, que ele está ao alcance, que podemos chegar até ele, não tem mais a mídia, a mediação é direta. O chefe é tribal se expõe a toda sorte de humilhações para agregar poder. No momento ritual do sacrifício, ele é eleito, porque seus eleitores o purificam acima de um poder terreno, pois o poder terreno é sujo, o Estado é sempre mau. Ao mesmo tempo ele emerge como uma espécie de profeta e chefe tribal, se contrapondo ao Estado, que é um ente do mal”. 

“Ele se coloca como um antissistema, contra tudo, inclusive contra ele mesmo. Tudo isto é estruturado no afeto, quem é ele? Ele é o revolucionário, o antissistema, o revoltado por antecipação, ele pode o tempo todo ser do contra. Isto é uma engenhosidade simbólica, um acréscimo de poder, pois se oferece como a grande vítima, como cordeiro de Deus. A ideia do desgoverno é a condição desse exercício de poder”, explicou.

Jacqueline Muniz também avaliou a consolidação do neoliberalismo no Brasil, que foi favorecido pela forte desigualdade. “No Brasil o neoliberalismo chegou antes mesmo do estado de bem-estar social. E encontra solo fértil numa sociedade hierárquica desigual que naturaliza esta desigualdade. Aqui matar ou deixar morrer tem mérito, e morrer tem merecimento: isto é o ponto que junta saúde pública e segurança pública. E suas formas de controle e vigilância à esquerda e à direita.”

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