Brasil é o quarto país mais desigual da América Latina

De acordo com um estudo inédito sobre a região divulgado pelo Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-HABITAT), estão à frente apenas Guatemala, Honduras e Colômbia; confira outros dados

Brasil é o quarto país mais desigual da América Latina
Brasil é o quarto país mais desigual da América Latina (Foto: Divulgação)

247, com site da ONU – O Brasil é o quarto país mais desigual da América Latina, de acordo com o relatório inédito 'Estado das Cidades da América Latina e Caribe', produzido pelo Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-HABITAT). No ranking, vêm à frente apenas Guatemala, Honduras e Colômbia no quesito distribuição de renda. No entanto, o Brasil avançou nas últimas décadas. Segundo o levantamento, em 1990 o País liderava em desigualdade.

Divulgado para a imprensa nesta terça-feira 21, o estudo também mostra que a América Latina é a região mais urbanizada do mundo. A taxa de urbanização no Brasil e nos países do Cone Sul chegará a 90% até 2020. No México e nos países da região Andino-Equatorial, o número atual não passa de 85%. O Caribe e a América Central têm taxas de urbanização mais baixas, mas o aumento é constante, com perspectiva de chegar a 83% e 75% da população urbana em 2050, respectivamente.

Além de informações sobre população e urbanização, o Estado das Cidades da América Latina e Caribe apresenta dados sobre o desenvolvimento econômico, habitação, serviços básicos urbanos, meio ambiente, gestão de riscos e governança urbana. A elaboração do relatório foi apoiada pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), a Federação Latino-Americana de Cidades, Municípios e Associações de Governos Locais (FLACMA), os Ministros e Autoridades Máximas de Habitação e Desenvolvimento Urbano da América Latina e o Caribe (MINURVI), a Aliança para as Cidades e o Banco de Desenvolvimento na América Latina (CAF).

"O relatório concentra em um único documento informação atual e variada dos principais centros urbanos da região, fornecendo uma ferramenta útil na formulação de políticas públicas que permitam avançar em direção às cidades do século XXI com melhor qualidade de vida", diz o diretor-executivo do ONU-HABITAT, Joan Clos.

Estudo aponta violência como principal preocupação dos latino-americanos

Agência Brasil – A violência na América Latina e Caribe é a principal preocupação de seus cidadãos, segundo o relatório da ONU. Além disso, das 16 mil municipalidades pesquisadas no estudo, a violência se encontra entre as três principais preocupações dos governos locais. Apenas em 2008, morreram mais de 130 mil pessoas vítimas de arma de fogo na região. Não por coincidência, América Latina e Caribe têm as taxas de homicídios mais elevadas do mundo (mais de 20 para cada 100 mil habitantes), bem acima da média global (sete para cada 100 mil habitantes).

O oficial principal de Assentamentos Humanos do ONU-Habitat, Erik Vittrup, explicou que algumas políticas públicas sociais e urbanas têm tido forte impacto na queda dos índices da violência. Ele citou o exemplo do Rio de Janeiro. "Unidades de Polícia Pacificadora com intervenção social [UPPs sociais], o Morar Carioca, são bons exemplos de políticas públicas de inclusão social que têm dado resultado e ajudado a diminuir a taxa de homicídios na cidade", citou ele.

Segundo ele, o padrão da violência varia muito nos países da América Latina e Caribe. As principais causas estão relacionadas ao crime organizado e à violência doméstica contra mulheres. O estudo sugere que a falta de segurança nos espaços públicos faz com que as mulheres evitem utilizá-los, enfraquecendo o tecido social e impondo a reclusão feminina nos espaços privados.

Entre 2004 e 2009, dos 25 países com as maiores taxas de feminicídio no mundo, 13 estavam na região, sendo El Salvador o primeiro do ranking. O Brasil se encontrava então em 11º lugar. O feminicídio é um conceito sociológico para o assassinato de mulheres por motivo de gênero.

Um dos motivos para que a região seja uma das mais violentas do mundo, segundo o funcionário da ONU, é o fato de as cidades da região apresentarem os maiores índices de iniquidade do planeta. "A boa notícia é que essa desigualdade está diminuindo rapidamente na maioria dos países da região", disse ele. Dentre as exceções, estão Argentina, Paraguai, Colômbia e Equador.

Menos de 20% do esgoto são tratados na América Latina e no Caribe

Agência Brasil – Menos de 20% do esgoto são tratados na América Latina e no Caribe. Nas cidades, 16% da população (74 milhões de pessoas) carecem de saneamento adequado. O relatório divulgado pela ONU também traz notícia positiva que a região já alcançou o Objetivos do Milênio em relação ao abastecimento de água. Atualmente, 92% da população urbana têm acesso à água encanada.

No entanto, o desperdício de água tratada é grande. Cerca de 40% da água desperdiçada ocorrem devido infraestrutura precária de abastecimento e uso inadequado. As tarifas cobradas pelo fornecimento não costumam cobrir os custos de operação e penalizam os mais pobres, segundo as Nações Unidas.

"Há muitos cidadãos mais pobres que pagam caro pelo serviço, às vezes, o dobro que os mais ricos por um serviço pior", comentou o oficial principal de Assentamentos Humanos do ONU-Habitat, Erik Vittrup.

Constatou-se que cada habitante já produz o equivalente a 1 quilo de resíduos, e a quantidade não para de crescer. De acordo com a pesquisa, os serviços de reciclagem, reutilização e aproveitamento dos resíduos sólidos ainda são incipientes em todos os países da região. "Ainda tem um grande número de cidades que estão contaminando rios e mares e deixando lixo a céu aberto", lamentou Vittrup.

A pesquisa apontou falhas no acompanhamento sistemático e organizado desses serviços, como a falta de indicadores precisos, completos e comparáveis, prejudicando a adoção de estratégias. Em geral, os dados são fornecidos pelos próprios provedores dos serviços.

Participação de mulheres na política cresceu na região

Agência Brasil – A participação feminina na política latino-americana e caribenha vem crescendo consideravelmente na última década, de acordo com o relatório. Nos legislativos locais, o número de vereadoras já alcança 22%. Em 1999, eram apenas 14%.

As ações afirmativas são citadas como importantes ferramentas para a diminuição das desigualdades de gênero. Conforme o relatório, os países que implementaram algum tipo de lei nesse sentido são os que apresentaram avanços na participação feminina na política.

Além disso, o estudo ressalta que o fato de países como Argentina, Brasil e Costa Rica terem mulheres como chefes de Estado é um "indício claro e positivo" da participação feminina nos espaços políticos.

De acordo com o oficial principal de Assentamentos Humanos do ONU-Habitat, Erik Vittrup, as diferenças de posicionamento das gestões públicas sobre a questão do gênero são muito marcantes e discrepantes na região.

"O Brasil é um dos países que estão na vanguarda desse assunto. Chile e Costa Rica também. Na Costa Rica, existe uma cota de 30% para mulheres em cargos públicos, mas ainda há países que se recusam a discutir a questão de gênero", lamentou ele.

Em 2009, a Costa Rica era o país da região com a maior porcentagem de vereadoras (43%). Em Trinidad e Tobago, o número chegava a 31%, e no Peru, 30%. Belize, Cuba, Chile, Equador, El Salvador, México, Nicarágua, Paraguai e República Dominicana tinham mais de 20% das mulheres nesses cargos. O Brasil aparecia com pouco menos de 20%. O Uruguai era o último da lista, sem nenhuma vereadora.

Nas prefeituras, as mulheres representavam, também em 2009, apenas 10% do total dos administradores das cidades latino-americanas e caribenhas. As exceções, de acordo com o relatório, são Belize, com 22% das prefeituras ocupadas por mulheres; Cuba, com 20%; e Venezuela, com 18%.

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