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Bruno Paes Manso defende integração nacional no combate ao crime organizado

Pesquisador da USP defende inteligência, integração nacional e combate estratégico ao crime, enquanto critica violência policial e encarceramento em massa

Pesquisador Bruno Paes Manso (Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil)
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247 - A segurança pública deve ocupar posição central no debate eleitoral de 2026, impulsionada pela crescente preocupação dos brasileiros com a criminalidade. Dados da pesquisa Genial/Quaest divulgada em maio mostram que 31% da população apontam a violência e a insegurança como o principal problema do país, superando áreas como saúde, economia e educação. Em entrevista ao Diário do Nordeste, o pesquisador Bruno Paes Manso defendeu que o tema seja tratado com seriedade, mas sem recorrer a fórmulas que, segundo ele, já demonstraram fracasso ao longo das últimas décadas.

Pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da Universidade de São Paulo (USP), professor da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e autor de livros sobre crime organizado e milícias, Paes Manso afirmou que o medo da população não pode servir de justificativa para a repetição de políticas que contribuíram para fortalecer organizações criminosas. A entrevista foi publicada pelo Diário do Nordeste.

Segundo o especialista, o aumento da preocupação com a segurança está diretamente ligado aos impactos da criminalidade na vida cotidiana. Ele destacou que crimes como roubos de celulares passaram a ter consequências ainda mais profundas devido à importância desses aparelhos na vida pessoal e profissional dos cidadãos.

Criminalidade afeta rotina dos brasileiros

Para Bruno Paes Manso, o celular se tornou um dos principais alvos da criminalidade justamente por concentrar informações financeiras, profissionais e pessoais. O pesquisador observa que o prejuízo provocado por esse tipo de crime vai além da perda material.

“Imaginar que pode sair na rua e sofrer esse tipo de violência, causa uma revolta muito grande. As pessoas ficam com uma raiva muito grande de viver num lugar onde realmente fica vulnerável diante da covardia de assaltantes e tudo mais”, afirmou.

Ele também apontou mudanças recentes na dinâmica do crime organizado em estados do Nordeste, com a expansão de facções para diferentes regiões do país. Segundo sua avaliação, grupos criminosos passaram a exercer controle territorial, cobrando taxas de moradores, explorando serviços e ampliando atividades de extorsão.

Além disso, o pesquisador ressaltou o crescimento dos golpes financeiros, que, embora não envolvam necessariamente violência física, contribuem para aumentar a sensação de insegurança e fragilizar a confiança social.

Crítica ao uso político do medo

Embora considere essencial discutir segurança pública durante as eleições, Paes Manso alertou para o risco de discursos que exploram o medo da população para defender medidas que, em sua avaliação, já demonstraram resultados negativos.

“O problema, e isso é muito comum na segurança, é quando tem um aproveitamento desse medo que as pessoas têm, dessa sensação de urgência, dessa sensação de vulnerabilidade presente, como afeta muito dia a dia, para replicar certas políticas fracassadas”, declarou.

Entre as medidas criticadas pelo pesquisador estão o aumento indiscriminado da violência policial e o encarceramento em massa. Segundo ele, essas estratégias contribuíram para a superlotação dos presídios e para o fortalecimento das facções criminosas.

Paes Manso lembrou que a população carcerária brasileira saltou de cerca de 90 mil presos nos anos 1990 para aproximadamente 900 mil atualmente. Na avaliação dele, as prisões acabaram se transformando em espaços de articulação e fortalecimento do crime organizado.

Inteligência e integração nacional

Como alternativa, o especialista defende uma política baseada em investigação, inteligência e compartilhamento de informações entre estados e União. Para ele, o crime organizado já opera em escala nacional, enquanto o sistema de segurança pública ainda enfrenta dificuldades para atuar de forma integrada.

“Tem que ser mais racional e olhar a indústria (do crime), o funcionamento da indústria para agir de forma mais estratégica, não tão emocional”, afirmou.

Ele destacou que delitos aparentemente locais, como roubos de celulares ou comércio ilegal de produtos, muitas vezes fazem parte de cadeias criminosas nacionais e internacionais. Por isso, considera fundamental ampliar a cooperação entre polícias, órgãos de inteligência, Receita Federal e Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

Na visão do pesquisador, o combate ao crime deve focar a identificação de financiadores, receptadores, rotas de circulação de mercadorias ilegais e mecanismos de lavagem de dinheiro.

Facções e influência sobre eleições

Outro tema que preocupa o pesquisador é o avanço das facções criminosas sobre a política institucional. Segundo ele, a presença de grupos criminosos em territórios urbanos já afeta diretamente o funcionamento do Estado e pode comprometer o processo democrático.

“Isso é gravíssimo. É gravíssimo e está cada vez mais presente na política brasileira”, afirmou.

Para Paes Manso, quando organizações criminosas influenciam campanhas eleitorais, controlam territórios ou estabelecem relações com agentes públicos, ocorre uma distorção do papel do Estado. Ele argumenta que, nesses casos, interesses privados e ilegais passam a disputar espaço com políticas voltadas ao interesse coletivo.

O pesquisador também alertou que a influência criminosa pode prejudicar a execução de serviços públicos básicos. Segundo ele, escolas, hospitais, coleta de lixo, fornecimento de internet e outras atividades frequentemente enfrentam dificuldades em áreas dominadas por grupos armados.

Debate sobre terrorismo e maioridade penal

Ao analisar propostas apresentadas por setores da oposição para as eleições de 2026, como a classificação de facções criminosas como organizações terroristas e a redução da maioridade penal, Paes Manso demonstrou forte discordância.

Segundo ele, enquadrar facções como grupos terroristas pode gerar riscos à soberania nacional e abrir precedentes para interferências externas em assuntos internos do Brasil.

“Mas classificar como terrorista é uma medida extrema que pode abrir esse flanco de fragilização da nossa soberania”, declarou.

O pesquisador argumenta que o combate ao crime organizado exige cooperação internacional, especialmente em investigações financeiras e rastreamento de recursos, mas considera inadequado adotar classificações que possam produzir consequências diplomáticas e econômicas negativas para o país.

Para ele, propostas desse tipo tendem a gerar repercussão nas redes sociais, mas não enfrentam os problemas estruturais ligados ao funcionamento das organizações criminosas.

Avaliação das ações do governo federal

Bruno Paes Manso também comentou iniciativas recentes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na área da segurança pública, incluindo o programa de combate ao crime organizado com previsão de R$ 11 bilhões em investimentos e a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança.

Na avaliação dele, a discussão sobre a necessidade de uma atuação mais integrada da União avançou, mas os resultados concretos ainda são limitados.

“A discussão foi colocada na mesa, mas se avançou pouco”, afirmou.

Apesar das críticas ao ritmo de implementação das medidas, o pesquisador considera que o fortalecimento da cooperação entre instituições, o compartilhamento de dados e o avanço das investigações financeiras caminham na direção correta.

O que o eleitor deve observar em 2026

Ao abordar o papel dos eleitores no próximo processo eleitoral, Paes Manso afirmou que é importante analisar com cautela discursos que associam o aumento da violência policial à eficiência no combate ao crime.

Segundo ele, existe uma percepção equivocada consolidada ao longo dos anos de que a defesa dos direitos humanos favorece criminosos, enquanto discursos baseados em confronto e endurecimento seriam necessariamente mais eficazes.

“O uso da violência é uma forma de manter o caos e manter a população dependente, achando que a guerra (contra o crime) é uma solução e dependente dos senhores da guerra”, declarou.

Para o pesquisador, os eleitores precisam observar não apenas as promessas apresentadas pelos candidatos, mas também os resultados concretos produzidos por determinadas políticas ao longo do tempo. Na sua avaliação, estratégias centradas exclusivamente na repressão e no confronto armado não conseguiram reduzir a criminalidade e, em muitos casos, contribuíram para fortalecer estruturas criminosas que hoje desafiam o Estado brasileiro.