Calem a boca, jornalistas!

Depois de protestarem anos a fios contra os métodos autoritários de políticos como Antonio Carlos Magalhães, militantes do PT agora defendem o amordaçamento da imprensa

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Em 1980, repórter do hoje extinto Jornal da Bahia, eu acompanhava visita do então governador Antonio Carlos Magalhães às obras de construção da Paróquia Nossa Senhora dos Alagados, na Península Itapagipana, uma das áreas de Salvador que, à época, simbolizava a pobreza extrema na cidade. O templo, em estilo contemporâneo e com acabamento em tijolinho aparente, foi construído em três meses para ser inaugurado pelo Papa João Paulo II, quando de sua primeira visita à Bahia, em julho daquele ano.

Estava bem próxima do governador, quando ele respondeu com uma cotovelada à pergunta de uma repórter da TV Itapoan, do seu arqui-inimigo Pedro Irujo. Não recordo o que a moça perguntou ao velho mandatário, mas jamais esquecerei a expressão dele: imperturbável, manteve no rosto o característico sorriso com que costumava obsequiar seus seguidores. Jovem e inexperiente - não passava de uma "foca", como se diz no jargão jornalístico - fiquei chocada com a cena. Na categoria, o sentimento era de indignação. Protestamos, lançamos manifestos, vociferamos contra o estilo truculento do governante, que usava a força para tentar calar a voz da imprensa, num claro atentado às liberdades democráticas.

A roda do tempo girou. Ano passado, no finalzinho do segundo mandato, o presidente Lula que adquiriu popularidade por conta de sua relação amistosa com a mídia, engrossou a voz. Sem cerimônia, começou a cuspir no prato em que comeu anos a fio. Em meio a disparos verbais, passou a pregar sua convicção de que o mensalão (o denunciado esquema de compra de votos de parlamentares capitaneado pelo então chefe da Casa Civil, José Dirceu) nunca existiu. Tudo era obra de ficção, plantada no noticiário pela oposição e que tinha como única finalidade apeá-lo do Palácio do Planalto. Seriam futricas da imprensa marrom, instrumentalizada pelas elites inconformadas com a ascensão de um proletário ao poder. Poucas foram as vozes que saíram em defesa dos jornalistas. Num silêncio cúmplice, militantes que duelaram contra ACM & Cia, fizeram-se surdos-mudos.

Há pouco mais de uma semana, deputada federal que tem no DNA o condenável hábito de receber mimos de origem inconfessável, foi inocentada por seus pares na Câmara. Num ato coletivo de cumplicidade, velhas ratazanas e aprendizes de ratinhos passaram a mão pela cabeça da colega (ou seria comparsa?) flagrada com mãos, pés e corpo inteiro numa polpuda botija. E o que fez Sua Excelência, após levantar e sacudir a poeira? Seguindo exemplo paterno, lacrimejou (como chora essa família!) e culpou a mídia por suas peraltices. Como saiu publicado em vários veículos país afora, a agora respeitável parlamentar acusa os jornalistas por seus infortúnios e diz que teve a honra atacada de forma vil...

Neste final de semana, depois de vários ensaios, o Partido dos Trabalhadores finalmente aprovou o que, na prática, é a reedição da censura no Brasil. Sob o eufemismo de "marco regulatório para a mídia", a proposta apresenta como justificativa o seguinte arrazoado: "A inexistência de uma lei de imprensa, a não regulamentação dos artigos da Constituição que tratam da propriedade cruzada de meios, o desrespeito aos direitos humanos presente na mídia, o domínio midiático por alguns poucos grupos econômicos (que) tolhem a democracia, silenciam vozes, marginalizam multidões, enfim, criam um clima de imposição de uma única versão para o Brasil". Mas por que somente agora, quando estão na condição de vidraça, os companheiros que sempre foram estilingue sentem a necessidade de impor limites à atuação dos jornalistas?

O que seria do país se a mídia não tivesse denunciado as relações perigosas entre o ex-presidente Collor e o empresário PC Farias? E como teríamos descoberto o chamado escândalo do painel eletrônico envolvendo o ex-senador ACM e o então líder do governo na Câmara, deputado José Roberto Arruda (PSDB-DF)? E quanto aos passeios de governadores em jatinhos de empresários-clientes do governo? E sobre os desvios de verbas ministeriais para campanhas políticas?

Viciados em hipocrisia, separamos o que é ético e o que não é, conforme nossas conveniências: potentes holofotes sobre os adversários e vista grossa para os atos de exceção dos companheiros que formam o autoproclamado "governo mais republicano da história do país". Aquele mesmo que quer pôr uma mordaça na mídia, evitando que a sociedade tome conhecimento dos descalabros tramados nos subterrâneos do poder.

Voltemos a mais uma história do senador ACM. Essa eu não presenciei, mas foi reproduzida exaustivamente em alguns veículos de comunicação, em mídias alternativas e está contada no livro "Cale a boca, jornalista!", de Fernando Jorge, uma obra indispensável para estudantes, professores, escritores, jornalistas e historiadores.

Eleições de 1986. Então ministro das Comunicações, o ex-senador Antonio Carlos Magalhães mantém a tradição de votar no Clube Bahiano de Tênis, a poucos metros da casa dele. Apesar da claque montada por correligionários, é recebido com muitas vaias. Escalado pela TV Itapoan para cobrir o pleito, o repórter Antônio Fraga trava com ACM o seguinte diálogo.

- Ministro, por que a sua presença provoca esta confusão?

- Quem faz a confusão é a sua mãe

- Como o senhor recebeu as vaias?

Antonio Carlos disse que as vaias não eram para ele e sim para Pedro Irujo, um "basco ladrão", dono da TV Itapoan. Irujo apoiava a candidatura de Waldir Pires ao governo da Bahia e era contra o Josaphat Marinho, candidato de Toninho.

Abaixo, a reprodução do resto da conversa entre ACM e o jornalista:

- Mas até o senhor chegar estava tudo calmo.

- Não me provoque... E você é muito mal-educado! Pedro Irujo é um basco ladrão, entendeu?

Nesse instante, Toninho se encolerizou ainda mais e rugiu:

- Faça o favor de respeitar o ministro, seu filho da puta!

Mas, esqueçamos o passado. Miremos o futuro. Imaginemos o Brasil daqui a 20 ou 30 anos com a mídia amordaçada. É isso mesmo o que desejamos para as próximas gerações? Queremos transformar o país em mais uma republiqueta dessas que povoam o mapa da America Latina? Não creio. Certamente, não era com isso que sonhávamos quando íamos à praça pública denunciar a truculência do velho senador.

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