HOME > Brasil

Calote de quase R$ 500 milhões agrava crise do Digimais, banco de Edir Macedo

Ação judicial aponta uso de papéis ligados a Fictor, Reag e Banco Master como lastro de fundo; títulos perderam valor após liquidações e investigações

Edir Macedo (Foto: Reprodução (Redes Sociais))

247 - Uma nova disputa judicial ameaça aprofundar a situação financeira do Digimais, instituição ligada ao líder religioso Edir Macedo. Segundo revelou a jornalista Gabriella Furquim, a ação foi noticiada com detalhes pelo Metrópoles e envolve um prejuízo estimado em quase R$ 500 milhões relacionado a um fundo de investimento estruturado com papéis que perderam valor.

O empresário Roberto Campos Marinho Filho, sócio do banco, afirma ter sido prejudicado ao aceitar títulos da Fictor, da Reag e do Banco Master como lastro da participação do Digimais no fundo EXP 1. De acordo com a ação, os ativos que sustentavam a operação teriam praticamente se tornado sem valor após o avanço de investigações e liquidações envolvendo as instituições emissoras.

Estrutura do fundo e desvalorizaçãoPelos termos relatados no processo, o Digimais adquiriu 80% do fundo de investimento, enquanto os 20% restantes ficaram com Marinho, controlador da Yards Capital, gestora responsável pelo veículo. A carteira totalizaria R$ 462,2 milhões aportados pelo banco.A maior parte dos papéis, cerca de R$ 316,6 milhões, estaria vinculada ao Banco Master e à Reag. Os demais ativos, aproximadamente R$ 145,6 milhões, seriam da Fictor. Com a escalada de investigações sobre supostas fraudes e irregularidades nessas instituições, os títulos teriam sofrido forte desvalorização, comprometendo o patrimônio do fundo.

Na semana passada, a Yards notificou judicialmente o Digimais para que o banco adquirisse integralmente a carteira aportada, numa tentativa de mitigar as perdas.Liquidações e investigaçõesA Reag foi alvo de duas operações policiais de grande porte — Carbono Oculto e Compliance Zero — que investigam supostas manobras financeiras para ocultação de recursos ilícitos e movimentações suspeitas associadas ao Banco Master. Em dezembro, a gestora foi liquidada pelo Banco Central do Brasil.

A Fictor, por sua vez, ganhou notoriedade ao anunciar a compra do Banco Master por R$ 3 bilhões em novembro de 2025. No dia seguinte ao anúncio, o Master foi liquidado, e executivos foram presos. Em janeiro deste ano, a Fictor entrou com pedido de recuperação judicial, alegando crise de liquidez após resgates em massa de investidores.

Efeito dominó no sistema financeiroA liquidação do Banco Master provocou impactos em outras instituições financeiras de médio porte, entre elas o próprio Digimais. O banco já vinha enfrentando dificuldades desde a pandemia, com aumento da inadimplência, deterioração do patrimônio e necessidade de aportes frequentes para evitar desenquadramento regulatório.

Os recursos para reforço de capital teriam sido injetados pelo próprio Edir Macedo, também líder da Igreja Universal do Reino de Deus e proprietário da Record.Tentativas frustradas de vendaEm 2025, o Digimais passou por um processo de reestruturação acompanhado pelo Banco Central, incluindo tentativas de venda. O investidor Mauricio Quadrado, ex-sócio do Banco Master, chegou a anunciar a aquisição, mas a negociação não avançou.

Outro interessado foi Tércio Borlenghi Jr., controlador da Ambipar, cuja proposta foi apresentada ao Banco Central. O acordo, contudo, não prosperou pouco antes de a própria Ambipar entrar com pedido de recuperação judicial.

Até mesmo o Nubank teria avaliado uma negociação com Edir Macedo, mas recuou. Sem compradores e pressionado por sucessivas crises no segmento de bancos médios, o Digimais permanece sob forte escrutínio regulatório.Cenário incertoO colapso do Banco Master e as críticas direcionadas ao Banco Central pela condução do caso intensificaram o monitoramento sobre instituições financeiras de porte intermediário. A autarquia tem reforçado a supervisão e cobrado planos consistentes de capitalização e governança.Com a nova ação judicial, o Digimais enfrenta mais um capítulo de instabilidade em meio a um ambiente já marcado por liquidações, investigações e retração de investidores no setor financeiro.

Artigos Relacionados