Campanha de Bolsonaro pratica 'comunicação de guerra', diz especialista

A campanha de Jair Bolsonaro (PSL) usa táticas militares de última geração para a área de comunicação; é o que diz o antropólogo Piero Leirner, professor da Universidade Federal de São Carlos, que estuda estratégias militares há 30 anos; para Leiner, o pacote comunicacional de Bolsonaro envolve ações complexas, invasivas e táticas que fazem as campanhas clássicas - e dentro da lei - parecerem brincadeira de criança

Campanha de Bolsonaro pratica 'comunicação de guerra', diz especialista
Campanha de Bolsonaro pratica 'comunicação de guerra', diz especialista (Foto: REUTERS/Ueslei Marcelino)

247 - A campanha de Jair Bolsonaro (PSL) usa táticas militares de última geração para a área de comunicação. É o que diz o antropólogo Piero Leirner, professor da Universidade Federal de São Carlos, que estuda estratégias militares há 30 anos. Para Leiner, o pacote comunicacional de Bolsonaro envolve ações complexas, invasivas e táticas que fazem as campanhas clássicas - e dentro da lei - parecerem brincadeira de criança.

Segundo o professor, o uso generalizado de fake news e das contradições entre o candidato e seu vice são estratégias deliberadas que se mostraram altamente eficazes. O antropólogo deixa entender que estamos diante de uma guerra assimétrica de comunicação. 

Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, o professor da UFSCAR, aponta as características técnicas da campanha do ex-militar, que tem precedentes na guerra do Vietnã, na Primavera Árabe e fazem parte do que se costumou chamar de 'guerra híbrida'. 

A matéria do jornal subscreve o desmonte a tese feita pelo antropólogo de que a campanha de Bolsonaro é "amadora". Pelo contrário ela é muito bem fundamentada: "os recursos escassos, a estética do material de divulgação e as constantes contradições de Jair Bolsonaro (PSL) e seus aliados podem levar à impressão de que a estratégia de comunicação do candidato é amadora. Contudo (...) a comunicação de Bolsonaro tem se valido de métodos e procedimentos bastante avançados de estratégias militares, manejados de maneira 'muito inteligente, precisa, pensada'."

O professor diz: "não se trata exatamente de uma campanha de propaganda; é muito mais uma estratégia de criptografia e controle de categorias, através de um conjunto de informações dissonantes".

E acrescenta: "é parte do que tem sido chamado de 'guerra híbrida': um conjunto de ataques informacionais que usa instrumentos não convencionais, como as redes sociais, para fabricar operações psicológicas com grande poder ofensivo, capazes de 'dobrar a partir de baixo' a assimetria existente em relação ao poder constituído".

A matéria do jornal aponta os precedentes do fenômeno: "nesse novo paradigma político descrito por Leirner, gestado em guerras 'assimétricas' como a do Vietnã —nas quais os poderes e táticas militares são muito discrepantes entre os adversários— e colocado em prática nas 'primaveras' do Oriente Médio, as redes sociais têm papel central, pois 'descentralizam e multiplicam as bombas semióticas'."

Segundo o jornal, "a cúpula bolsonarista conta com a participação de diversos membros das Forças Armadas, que tiveram contato com essas doutrinas. Reportagem da Folha mostrou que Bolsonaro é o candidato preferido da maioria dos 17 generais de quatro estrelas da corporação --o topo da hierarquia. Uma dos protagonistas do grupo de Bolsonaro é o general quatro estrelas da reserva Augusto Heleno, que chegou a ser cotado como seu vice".

Piero Leiner destaca que "há diversos recursos de 'guerra híbrida' identificáveis na campanha bolsonarista com a participação de seus eleitores: a disseminação de 'fake news' e as contradições (chamadas por Bolsonaro de 'caneladas') entre as figuras de proa da campanha são alguns deles. As divergências entre o presidenciável e o vice, general Hamilton Mourão (PRTB), sobre o 13º salário, e também entre ele e o economista Paulo Guedes sobre a criação de imposto aos moldes da CPMF, são ilustrativas desse vaivém que, ao fim, gera dividendos políticos para Bolsonaro".

Ele afirma: "esses movimentos criam um ambiente de dissonância cognitiva: as pessoas, as instituições e a imprensa ficam completamente desnorteados. Mas, no fim das contas, Bolsonaro reaparece como elemento de restauração da ordem, com discurso que apela a valores universais e etéreos: força, religião, família, hierarquia".

E prossegue: "nesse ambiente de dissonância, a troca de informações passa a ser filtrada pelo critério da confiança. As pessoas confiam naqueles que elas conhecem. Nesse universo, então, as pessoas funcionam como 'estações de repetição': fazem circular as informações em diversas redes de pessoas conhecidas, liberando, assim, o próprio Bolsonaro de produzir conteúdo".

Leiner explica que após essa 'confusão' temática, a personagem principal (Bolsonaro) aparece como elemento estabilizador e, assim, provoca um efeito de 'segurança' nos eleitores: "ele aparece só no momento seguinte, transportando seu carisma diretamente para as pessoas que realizaram o trabalho de repetição. As pessoas ficam com uma sensação de empoderamento, quebra-se a hierarquia. O resultado é a construção da ideia de um candidato humilde, que enfrenta os poderosos, que é 'antissistema'.

 

 

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